Era segunda-feira e fazia um calor intenso, que a cada dia parecia aumentar. O meu dia começou como de costume, muito cedo. Preparei-me para mais um dia de atividades. Tinha por hábito chegar à escola antes das minhas colegas, primeiro para ir ao refeitório tomar um cafezinho, junto com os alunos e os internos da instituição, depois, porque sempre me lembrava da fala de uma ex-diretora, que dizia que o professor de sala de apoio deve esperar o aluno com a sala organizada para recebê-lo.
Cheguei ao portão da escola e me identifiquei para o porteiro que era um de nossos alunos cegos. O portão abriu, passei pela portaria, cheguei até a outra porta de acesso ao interior da instituição, onde encontrei com o aluno porteiro sentado em uma cadeira, ao lado do controle que abriu o portão principal, onde nos cumprimentamos. Tomei conhecimento dos acontecimentos do final de semana. Naquela instituição, os finais de semanas são sempre de muitas histórias, ainda mais depois dos feriados prolongados pelos festejos de carnaval.
Após rir um pouco com as anedotas do aluno porteiro, fui ao refeitório para um breve cafezinho. Em seguida, caminhei em direção à secretaria para assinar o ponto e peguei as chaves de número 29 que abriu a sala de AEE.
Já estava em minha sala à espera do primeiro aluno, que, de acordo com a agenda, naquela manhã seria Gabriel. Ele chegou à porta, com sua pontualidade costumeira, pediu licença para entrar. Entrou e nos cumprimentamos. Em seguida, ele colocou a mochila sobre a mesa e começamos a conversar.
Eu perguntei:
— O que temos para estudar, hoje?!
Ele retirou o material da mochila e o organizou para começar a escrever. A seguir, disse: — Tenho que escrever um diário. Como tarefa de espanhol, a professora pediu para escrever um diário, usando as palavras que conhecemos. Ontem, na aula, a professora falou sobre o livro “O Diário de Anne Frank” e, então, ela disse que épara levar um texto escrito em forma de diário. Perguntei: — Ela disse o dia que é para você escrever o diário?
— A professora disse que era para treinar a escrita em espanhol e, por isso, fazer um
texto diário. Qual o dia ela não falou, deixou que a gente escolhesse. Eu continuei: — Então, qual dia você vai relatar no seu diário?
— O dia de ontem.
Disse que tudo bem. Mas, por que o dia de ontem? Algo especial aconteceu que merece ser registrado no diário?
Ele sorriu e depois falou:
— Sabe o que é? É porque não aconteceu nada. Meu dia foi normal, aí fica fácil de
escrever e não dá um texto muito grande.
Naquele momento não me contive e começamos a rir juntos. Depois de alguns segundos, sugeri: — Vamos digitar este diário?
Ele se levantou e foi em direção ao computador. Eu, então, falei da proposta que eu tinha para que seu texto fosse digitado. Ele esperou diante do computador e ouviu:
— Vamos fazer um acordo, você digita, envio para a impressora, você lê seus escritos
e, depois, se houver erros, corrigimos e voltamos a digitar o texto revisado. Ele se voltou e reclamou:
— Mas assim vai dar mais trabalho do que escrever diretamente na reglete.
Pensou um instante e decidiu ligar o computador. Como de costume, o equipamento foi ligado pelo aluno. Fiquei ao seu lado, caso necessitasse de mim. Ele abriu um arquivo no
editor de texto, salvou com seu nome e data e começou a escrita. Durante este processo, eu só observei e aguardei que ele pedisse ajuda, mas ele não pediu. Produziu um texto pequeno, ou seja, muito pequeno. Com três linhas escritas, deu-se por finalizada a atividade de escrita do diário. Quando ele disse que já podia imprimir, eu tentei incentivá-lo a escrever mais um pouco, mesmo assim, ele decidiu encerrar.
Gabriel pediu orientações para enviar para a impressora adequada e, então, enviou o arquivo para a impressora sugerida. Fui até a sala onde o equipamento estava instalado e recolhi a folha com três linhas escritas. Voltei à sala e o encontrei navegando em busca de jogos. Convidei-o a ler seus escritos em voz alta. Ele começou:
— “Oi me desaiuno de manhana e vou para a escuela... ” aqui, ele parou de ler em
voz alta e continuou em uma leitura silenciosa. Depois de alguns instantes, falou: — Acho que está errado. E justificou que não lia todas as apostilas que recebia em espanhol e escrevia muito pouco. Então... sabia que não estava correto, mas... pediu para esperar um pouco e foi pesquisar.
Figura 31: Aluno Gabnel em atendimento na sala de apoio
Fonte: Fotografia tirada durante o atendimento em reforço escolar, em 15 de junho de 2015.
E lá foi ele, palavra por palavra, perguntando ao tradutor do Google, como é que se escreve.
Assim, após viver essa experiência, me perguntei: É a maneira correta? Posso permitir que o aluno recorra aos recursos da internet para solucionar dúvidas sobre sua escrita, no caso, língua espanhola? Mas, e se acontecer em língua portuguesa, ou demais disciplinas? Dessa forma, ele vai conseguir ler e escrever o suficiente para compreender e ser compreendido?
Naquele momento, não consegui obter uma resposta, só acompanhei a habilidade que o aluno apresentou diante da situação que requer um domínio considerável das Tecnologias Digitais, tais como utilizar o editor de texto, abrir um arquivo, salvar, digitar, realizar uma pesquisa na Internet e usar um tradutor de texto. Seu pequeno relato, segundo contou-me posteriormente, atendeu à solicitação da professora, tanto que ele foi citado como exemplo de dedicação e empenho para escrever em língua espanhola, mesmo que a princípio apenas algumas linhas.