Era terça-feira, dia três, do mês de novembro. O sol brilhava forte desde muito cedo. Cheguei à portaria do Instituto de Cegos do Brasil Central, minutos antes das sete horas e chamei pelo nome do meu colega porteiro, que prontamente respondeu e abriu o portão. Conversamos um pouco e, em seguida, dirigi-me ao refeitório, tomei café e conversei com alguns alunos que ainda estavam sentados às mesas terminando seu desjejum. Depois fui até a secretaria, peguei a chave da sala 29 e dirigi-me ao corredor de acesso.
Gabriel encontrou-se comigo na metade do caminho e me acompanhou até a porta da sala. Sempre muito falante, depois dos cumprimentos tinha sempre uma historinha para contar e uma pergunta ou muitas perguntas para fazer. Gabriel pediu para abrir a porta e eu dei a ele a chave. Ele abriu e entramos. Eu fui em direção ao armário e ele, ao centro da sala, em direção à mesa. Gabriel, enquanto retirava os materiais da pasta, falou que precisava estudar para a avaliação de ortografia. Eu perguntei se a professora havia dito o
que era para ser estudado. Ele disse que sim, era o uso dos “porquês”!!!
Terminei de colocar a bolsa no armário e voltei-me para Gabriel. Pedi que retirasse, por favor, a apostila para que localizássemos os “porquês”. Abriu na página 43 do seu livro em Braille. Peguei a apostila correspondente à tinta e fomos à lição. Pedi a ele que lesse a atividade. Esperei que ele terminasse e começamos a dialogar sobre os “porquês ”. Gabriel me deu uma aula. Sabia direitinho os empregos e a forma escrita de cada “porque”. Perguntei se havia necessidade de fazermos um resumo para que ele não se esquecesse de nada. Ele resistiu e disse que não ia esquecer. Eu insisti, ele se rendeu!
Elaboramos juntos um pequeno resumo com seus respectivos exemplos, que anotei em minha agenda: Eu perguntei: - Gabriel, dê um exemplo do uso do “Por que ” separado e sem acento? Ele, então, foi respondendo, à medida que associava o uso dos “Por quês” a situações relacionadas ao seu cotidiano.
P o r que: quando possuir significado de “por qual razão” ou “por qual motivo”:
Exemplo: Por que não veio à aula ontem? Não sei por que minha mãe não me trouxe.
P o r quê: quando vier antes de um ponto final, interrogativo ou exclamação. E
continuará com o significado de “por qual motivo ”, “por qual razão”. Exemplos: Você não foi ao futebol hoje? Por quê?
Está sem o uniforme do time, por quê? Esqueceu em casa.
Exemplos: Não fui ao futebol porque tenho que estudar para avaliação. (pois) Não vou fazer falta porque estou no banco de reserva. (uma vez que)
P orqu ê: quanto tiver o significado de “o motivo ”, “a razão ” e vier acompanhado de
artigo, pronome, adjetivo ou numeral.
Exemplos: O porquê de estar estudando é porque quero ser um jogador de futebol famoso. (motivo)
Diga-me um porquê para eu não ser um jogador de futebol famoso. (uma razão) (Fonte: Produção da pesquisadora em parceria com o participante Gabriel, durante atendimento na sala de AEE).
Depois de elaborarmos o resumo, pedi que ele anotasse para não correr o risco de esquecer. Como eram poucas linhas, Gabriel resolveu por si mesmo e optou pelo uso da reglete. Eu ditei para ele anotar e depois que terminou, pedi a ele que lesse seu resumo, pois deveria estar bem escrito para não haver equívoco na hora de estudar. Começou a ler, como ilustrado na figura 51:
Figura 51: Gabriel lê as anotações. Fotografia tirada pela pesquisadora durante atendimento na sala de AEE com o participante Gabriel, em 24 de novembro de 2015.
Começou a ler, parou, voltou uma linha, fez carinha de sapeca. Entendi, estava escrito errado. Mas, o que estava errado? Eu havia ditado devagar e ele não pediu para repetir nenhuma palavra.
Gabriel pegou o lápis em seu estojo e começou a circular os erros. Ele fazia questão de marcar seus erros com um lápis ou uma caneta desde que expliquei como fazia o revisor de textos em Braille, sendo uma pessoa cega. Expliquei que, quando revisava sem uso do editor de texto do computador, o revisor usava uma caneta para marcar as partes do texto, para depois consultar o transcritor que, na maioria das vezes, é uma pessoa que enxerga. Gabriel gostou da ideia e até nas apostilas em Braille que ele recebia, se encontrasse um erro, ele grifava também. E assim, ele foi circulando suas palavras escritas
inadequadamente, na verdade, bastava um grifo abaixo das palavras, mas ele fazia questão de circular. Como ilustrado na figura 56.
Figura 52: Gabriel circula as palavras que aparecem escritas inadequadamente. Fotografia tirada pela pesquisadora durante atendimento na sala de AEE, com o participante Gabriel, em 24 de novembro de
2015.
Na figura a seguir, apresentarei a apostila, que já havia sido entregue como revisada e encadernada para uso em sala de aula, onde Gabriel encontrou um pontinho a menos e grifou a palavra. Estes pontinhos a menos em sua apostila, expliquei para ele, foi devido a um amassadinho no papel. Por isso, insisti no cuidado com o transporte e manuseio do livro em Braille. Mas, para Gabriel, não importava se era amassado, erro de impressão, de revisor ou de transcritor; quando ele encontrava algo dessa natureza, grifava ou circulava. Isso, quando não chegava ao núcleo de produção do livro e comentava o achado. A apostila que Gabriel usou para aquele atendimento tinha uma palavra grifada, como ilustrado na figura 53.
Figura 53: Materiais revisados por Gabnel: palavras circuladas com o lapis. Fonte: Fotografia tirada pela pesquisadora, durante atendimento na sala de AEE com o participante
Depois que Gabriel terminou de circular as palavras, eu perguntei o que aconteceu durante a escrita para que houvesse aquela quantidade de enganos em sua escrita. Ele disse que quando escrevia rápido era assim mesmo, mas que não comprometeria a leitura, ele conseguiria lembrar o que queria ter escrito.
E agora, como eu, a professora, iria permitir que o aluno saísse do meu atendimento com uma anotação naquele estado de erros e rabiscos. Eu sabia que poderia haver um esquecimento e depois não conseguiria ler suas anotações. Olhei no relógio, nosso horário estava terminando. Revi oralmente o emprego dos “porquês ” e pedi a ele que me procurasse ao terminar seus atendimentos do dia, pois eu ia entregar a ele um resumo para levar para casa. Ele concordou, arrumou seus materiais, nos despedimos e eu o acompanhei até a porta.
Depois que Gabriel foi embora, fui ao computador, digitei rapidinho o resumo e enviei para impressora. Reservei a folha impressa e fui relatar o atendimento no editor de textos do computador. Enquanto descrevia a atividade, pensei sobre os erros na escrita em Braille que Gabriel havia cometido. Na verdade, erros comuns de escrita em Braille, como por exemplo: um pontinho a mais ou a menos. Erros semelhantes aconteceram comigo enquanto digitei seu resumo durante a escrita do relatório. A diferença é a escrita com o uso da reglete e o uso do editor de texto do computador. As facilidades para reescrita das palavras, quando o pensamento é mais rápido que os dedos.
As tecnologias usadas por mim, para aquele atendimento, foram as tecnologias da reglete, do punção, do papel e do livro em Braille. Tínhamos as Tecnologias Digitais como: o computador com sistema de voz e a impressora em Braille, mas não usei. Não sei “o porquê”, talvez porque Gabriel se prontificou a usar a tecnologia que já estavam em suas mãos.
Por que não propus o uso da tecnologia assistiva digital que mediava a atividade da mesma forma? O papel, o punção, a reglete e o lápis para marcar os erros, e por fim, eu digitar o resumo, imprimir e entregar para o aluno. Será que não perdemos tempo??? Se as tecnologias estavam lá ao nosso lado para agilizar as atividades, por que não usá-las?
A seguir, faço a composição de sentidos das histórias que contei até agora, neste capítulo, e discuto três temas que compus a partir dos conflitos e tensões vivenciados por mim, durante o processo de pesquisa e escrita desta dissertação.