quatro folhas escritas em Braille para uma digitada em fonte 12, espaço simples. Além disso, o papel possui gramatura mais espessa.
Gabriel chegou, colocou sua mala ao lado da mesa como de costume e começou a procurar a agenda. Percebi, então, que sua carinha demonstrava preocupação. Eu o cumprimentei: -jHola! Porém, ele não respondeu, esperei mais um pouquinho e falei novamente: -jHola Gabriel!
Ele, entã, respondeu cabisbaixo em português e, em seguida, confirmou a primeira impressão: - Bom dia professora! Não consigo resolver tantas tarefas, escrever um texto em espanhol... Então, como vou dar conta?
Naquele dia, Gabriel estava angustiado com o volume de atividades da disciplina de espanhol. Precisava elaborar um diálogo usando os cumprimentos para situações formais e informais, como reforço do conteúdo da última aula em sua escola. Achei que deveria conversar um pouco antes de iniciarmos as atividades. Perguntei como estavam as aulas na escola. Ele disse: - Mais ou menos, muitas atividades! Estou cansado!
Eu comentei: - Gabriel, estamos no começo do ano e você já está cansado?
Gabriel respondeu: - Nossa, professora, além de Matemática, Português e as outras matérias, ainda vem esse Espanhol para acabar comigo.
Não era nosso primeiro atendimento na sala de apoio naquele ano, mas seria o primeiro em língua espanhola. Então perguntei: - Como foi sua aula de espanhol nesta
semana?
Gabriel respondeu: - Acho que não gostei.
Perguntei, então: - Como assim, “não gostei”? Foi sua primeira aula e já não gostou? O que você aprendeu? A professora de língua espanhola ensinou os cumprimentos. Os saludos y despedidas?
Ele, então, respondeu: - Isso mesmo.
Percebi que deveria ter muito cuidado para conduzir a aula, pois o aluno poderia não gostar mesmo da língua espanhola e ficar com resistência para aprender até mesmo o básico ensinado na escola. Perguntei: - Como se fala em espanhol os cumprimentos? Vocês escreveram alguns?
Gabriel respondeu: Eu não, meus colegas sim. A professora disse que depois eu iria receber em Braille.
Naquela época, ainda não tínhamos na sala a Linha Braille, mas o computador com o sintetizador de voz. Pensei rápido. O que não fazer? E fazer o quê a partir de agora.
Poderia contribuir para que o aluno ficasse ainda mais desmotivado e, a partir da não compreensão, talvez não quisesse mais aprender. Mas também poderia ajudá-lo a admirar e querer aprender. Meu Deus, o que fazer?
Convidei-o para irmos ao computador rever a aula sobre saludos y despedidas. Ele ficou um pouco mais satisfeito. Como de costume, ele ligou o equipamento e iniciou o programa de voz. Orientei-o a realizar uma busca de textos prontos disponíveis na Internet, pois, a partir da leitura de alguns diálogos, ele teria ideia de como ficaria o dele. Com esta
orientação, fez a busca no Google e começamos a ouvir os diálogos disponíveis em um curso de língua espanhola on-line, oferecido gratuitamente.
Ele começou a navegar pelas frases e a ouvir os diálogos com atenção. Porém, ele ainda não estava satisfeito. Percebi que algo o incomodava. Então perguntei:
— Não está entendendo, Gabriel? Ele respondeu: — Mais ou menos, professora.
Naquela aula, iríamos elaborar o diálogo inserindo os cumprimentos, apresentados na última aula, conforme solicitação de sua professora. Percebi que a angústia do aluno estava na escrita. Foi, então, que prometi a ele que no próximo atendimento eu traria exemplos de alguns diálogos transcritos em Braille, assim ele poderia observar a escrita das palavras. Imediatamente mudei de estratégia, por acreditar que Gabriel precisaria de tempo para compreender a proposta da atividade. Fiz-lhe uma proposta:
— Gabriel, vamos ouvir músicas em espanhol no computador?
Mesmo sem compreender o porquê da minha proposta, ele aceitou e, naquela aula, ficamos navegando e ouvindo músicas de diferentes estilos em espanhol. Algumas daquelas canções já conhecíamos a versão em nosso idioma. Percebi que ele relaxou um pouco, então, perguntei se estava achando muito difícil compreendera língua. Ele respondeu que algumas palavras eram pronunciadas muito rapidamente e não dava para entender. Propus
que falaria o significado, caso ele quisesse. Mas, naquele dia, ele nada perguntou.
Eram apenas 50 minutos para cada atendimento e aquele estava chegando ao fim, quando Gabriel se lembrou das atividades. Eu o tranquilizei quando disse que as atividades poderiam ser entregues depois do atendimento, na semana seguinte, segundo a data que havia no cabeçalho da folha da atividade. Portanto, daria tempo para resolvermos. Ele recordou que realmente a professora havia dito sobre o tempo que teriam para entregar a
atividade. Mais tranquilo, Gabriel recolheu o material, colocou em sua mala e saiu. Foi para o atendimento em Orientação e Mobilidade18.
O aluno do atendimento a seguir não compareceu, então aproveitei o tempo e fui até a coordenação do Centro de Apoio Pedagógico (CAP) e solicitei o equipamento, a Linha Braille, para fazer parte dos equipamentos da sala de apoio. Argumentei sobre sua finalidade em todos os atendimentos, mas principalmente durante a disciplina de espanhol. Fui atendida de imediato. Aprendi os primeiros comandos, assisti aos vídeos de orientações e consegui manusear o dispositivo e apresentá-lo aos alunos. Eu já conhecia o equipamento, agora eu precisava usá-lo. Como seria a princípio uma apresentação, eu teria tempo para estudar o manual e treinar os próximos passos. Infelizmente, algumas vezes, não recebemos treinamento para usar as ferramentas que nos são disponibilizadas, somente orientações iniciais de como ligar e desligar os equipamentos. É durante o uso que recorremos aos manuais e seguimos as orientações do fabricante. Foi assim que consegui: aprendi o suficiente para apresentar a Gabriel uma nova ferramenta de escrita pelo sistema Braille, sem uso de papel.
Enquanto estudava o equipamento, fiquei pensando em como associar a escrita em Braille com as facilidades e a agilidade que a tecnologia oferece. Questionei se com o tempo a pessoa cega poderia não querer escrever e muito menos ler em Braille, impresso em papel.
Ao mesmo tempo em que me vinham aqueles questionamentos, vinha também o desejo de poder contribuir de alguma maneira para que meus alunos pudessem reconhecer a necessidade de conviver com as Tecnologias Digitais e com a tecnologia da escrita em Braille.
A seguir, conto como foi o próximo encontro com Gabriel e minha tentativa de concluir a atividade com apoio de um novo equipamento.
3.1.3 Escrita e leitura em Braille sem papel
No atendimento agendado para a semana seguinte, compareceu meu aluno Gabriel arrastando sua barulhenta mala, naquela vez, mais tranquilo. Imediatamente após os
18 Orientação: Habilidade do indivíduo para perceber o ambiente que o cerca, estabelecendo as relações