2 Teoretisk rammeverk
2.4 Styringsutfordringer i sykehus
Lobato transfere-se para Nova York em 1927, nomeado Adido Comercial. Pensa em abrir lá uma filial da editora de sua propriedade. Chamar-se-ia Tupy
Publishing Co. e ele imagina, em vão, que excederá a Ford. “O Brasil”, diz, “é uma coisa perrengue demais para os planos que tenho na cabeça” ( op. cit., p. 300 ). Considera positivamente estonteante a experiência de “Morar e ter negócio na maior cidade do mundo, onde os homens se envenenam com o fedor da gasolina de 800 mil automóveis! América, a terra de Henry Ford, o Jesus Cristo da Indústria!” ( id. ibid. ).
Nova York é a representação cabal do que, para o autor, seria uma cidade viva. Num tom discretamente emulativo, compara, em termos de nomadismo imposto pelas contingências profissionais, sua trajetória de escritor-empresário com a trajetória do amigo que, como Juíz de Direito, obrigava-se a mudar de cidade para cidade, sempre no interior do estado de São Paulo, conforme a carta de 17-8-1927: “Você condenado a pular duma ‘cidade morta’ para outra, e eu a saltar duma cidade viva para outra mais viva ainda: Taubaté - S. Paulo - Rio de Janeiro - New York...” ( op. cit., p.301 ).
Areias-SP, onde foi promotor de justiça, é uma dessas cidades sem vida. Um “tipo de ex-cidade, de majestade decaída” – assim define-a na carta de 14-5-1907. Perto, ficava Bananal, também exemplo de decadência e onde existiram “[...] Barões que usavam pinicos de ouro. Mulheres ciumentas que cortavam o seio das escravas. [...] – aqueles casarões abandonados. Ainda há mistérios no ar”. ( op. cit., p. 167 ).
O esgotamento de tais cidades relaciona-se com a crise da economia cafeeira, motivada pela superprodução do café. Lobato observa a cena num misto de historiador, sociólogo e literato, pois dessas observações extrai motivos para escrever um livro de contos em 1919: Cidades mortas. Isso leva à compreensão de que a prática literária pode brotar do entrecruzamento de outras práticas, configurar- se a partir de interdependências, num xadrez de formas econômicas, históricas, sociais ( ELIAS, 1995 ). A partir desse jogo de forças. E de jogo, diga-se, Lobato entendia também. E apreciava, em sentido literal:
[...] Sabes o que é roleta, juiz? Durante a ação, uma luta tenaz entre o Homem e a Sorte. Depois, uma alegre ou melancólica ressaca, em que relembramos os lances bons, ou maus, as coincidências e mil coisinhas que só jogadores entendem. Como no xadrez. [...] Mas no xadrez temos como adversário a ciência do parceiro; na roleta o adversário é o Destino. ( op. cit., p.36 )
Roleta. Luta entre o ser humano e a sorte. Ressaca alegre ou melancólica. Destino... Ora, essa linguagem é própria da sabedoria dionisíaca, em que a vida não é compreendida como um mármore geometricamente recortado, mas como um fagulhar de possibilidades; uma não-forma, uma ondulação, um risco, uma paixão, um atrever-se, um perder, um ganhar... Um jogo, enfim. De representações, inclusive. Como essas de Lobato, que vêem em forma de interpretação do que seja um país desenvolvido, e em que cabe também a Argentina. Em carta de 1946, após queixar-se do trabalho de revisão de 10.000 páginas, desabafa:
“A estafa é tão grande que quando terminar isso vou para a Argentina, realizando afinal um velho sonho. Lá há pão, Rangel! Há carne! Há manteiga, ovos, frutas, e tudo da melhor abundância. Vou à Argentina para comer –parece incrível!” ( LOBATO, 1961-b, p.374).
No andamento, num instante de aguda percepção em torno do progresso tecnológico e de seu alcance na subjetividade das pessoas revela-se quando ele profetiza a extinção, a partir do advento da televisão, de um sentimento universal que, na língua portuguesa, inspirou muitos poetas: saudade.
“A primeira vítima da televisão vai ser a velha e boa Saudade, que no fundo é filha da Lentidão e da Falta de Transportes. A saudade desaparecerá do mundo. (Pobres poetas! Dia a dia vão perdendo as cocadas da sua quitandinha.) Porque a saudade vem de não podermos ver e ouvir a pessoa querida que está longe ou já morreu. Mas o rádio e a televisão destroem o longe. Em breve futuro a palavra ‘longe’ se tornará arcaísmo”. ( id.ibid. )
De fato, longe deixaram de estar, inclusive, as bibliotecas. Hoje é possível saber da vida e da obra desse autor brasileiro pela internet, ainda que se esteja
numa escola do interior do Brasil, do mesmo modo como é possível, senão impedir, pelo menos suavizar a saudade entre pessoas que, ligadas por amizade, vêem-se em terras distantes. E assim temos um Lobato profetizando o futuro, pressentindo o devir da poesia a partir da alteração das subjetividades pela tecnologia, numa demonstração de que estava ligado não só ao passado e ao presente, mas também ao futuro.
Ainda em Nova York, movido por suas inquietudes, assiste a uma conferência do cineasta russo Eisenstein20 e conhece De Forest, o inventor da válvula de rádio – portanto, dois inovadores, se lembrarmos que Eisenstein aperfeiçoou a técnica de montagem cinematográfica no filme Outubro. Na volta, torna-se defensor vigoroso da autonomia econômica do Brasil através da exploração do ferro, “pai da Civilização”, e do petróleo.
“Isto é o que o brasileiro não compreende, Rangel, e só agora vim a compreender. O segredo de todas as prosperidades e culturas está no FeC, porque o FeC (ou aço) é a matéria-prima do Instrumento e da Máquina, e do Instrumento e da Máquina é que sai este belo horror chamado Civilização. [...] De que modo escreverias o teu romance, se vivesses a vida do índio que não dispõe de ferro? Na areia das praias, com um pauzinho, como fez Anchieta, para que o vento e as ondas o lessem e apagassem? [...] Estamos com uma empresa em organização no Rio para ferrar o Brasil, isto é: para produzir ferro pelo maravilhoso processo de Mr. Smith e com esse ferro construir as máquinas e instrumentos por falta dos quais ainda vagimos no ‘berço do atraso’” [...]”. ( op. cit., p. 313-314)
Essa carta é de 1928. Na de 17-8-1927, diz-se encantado com a América, e o entusiasmo é exclamativo: “Eficiência! Galope! Futuro!”. Com estes signos radicais, faz para si mesmo e para o amigo a representação de desenvolvimento. Depois,
20 Serguei Mikhailovich Eisenstein (1898-1948) dirigiu o filme Couraçado Potemkin, além de outros como: A
Greve; Ivan, o Terrível; Os Cavaleiros de Ferro; Linha Geral. Sua obra está entre as mais importantes da história do cinema. (Cf. Enciclopédia Universal Gamma, 1984, v. IV)
uma expressão que arremata o seu entusiasmo: “Ninguém andando de costas!” ( op. cit., p. 302 ).
Indiretamente, fala do Brasil. De um Brasil cuja ascensão percebia como sendo “ladeira abaixo” e onde comportamentos, mesmos os profissionais, oscilavam em função do lugar social dos sujeitos. Como ele próprio percebe, por exemplo, as representações em torno do que é ser articulista de um jornal como O Estado de S.
Paulo. Indo ao consultório de um médico do Instituto Paulista, Enjolras Vampré, este o recebe friamente para, em seguida, tornar-se atencioso, ao descobrir de quem se tratava. “Veja você”, diz, “como para o mundo tem peso um nome que assina artigos no jornal. A gente passa de servo da gleba à classe dos senhores. O “senhor” é o homem armado, que pode desta ou daquela maneira tornar-se ofensivo”. E conclui de modo enfático: “A grande desgraça na vida é ser inofensivo, Rangel. Veja as minhocas.” ( op. cit., p. 20)
O comentário deixa ver o prestígio de que gozava um homem de letras, um jornalista, na época. Principalmente em se tratando de alguém que tinha em alta estima a autonomia e por ela modelava os próprios atos, como era o caso de Lobato, nada inclinado a ser inofensivo como pensador, como crítico dos valores vigentes na sociedade de então. Por outro lado, “ser inofensivo” aproxima-se, teoricamente, do sentido de não dispor de táticas, de não fazer enfrentamentos, de se deixar vencer pelas dificuldades sem buscar alternativas de solução.
Na visão de Certeau ( 1994 ), táticas querem dizer certas práticas que, imprevisivelmente, imiscuem-se em lugares já constituídos, fissurando ou modificando essa ordem, o poder aí organizado, o “poder proprietário” - que é a estratégia. Espécie de fogo de artifício no meio das estrelas, e que não chega a ser
visto lá do alto, a tática é parenta da astúcia, que “é possível ao fraco, e muitas vezes apenas ela, como ‘último recurso’” ( CERTEAU, op. cit., p.101).
Lobato não estava num lugar político oficial, onde também, e talvez principalmente, costuma operar a estratégia. Suas táticas - de cidadão, de intelectual que pensava o Brasil - revelam-se nas cartas, até então confidenciais; nos livros e nos artigos que escreve para jornais. Também na sua posição de editor, ao escolher, com risco comercial, autores não consagrados que trouxessem uma colaboração nova para a literatura: “Meu empenho é só editar os novos, mas novos de talentos. Medalhão não me entra aqui. Que gosto soltar livros de múmias acadêmicas, gente rançosa? Quero tendrons, brotos”. ( LOBATO, 1961-b, p. 239 )
E a astúcia está sempre presente nele: no discurso eivado de ironia, na palavra espirituosa e crítica. Sua experiência como articulista do jornal O Estado de São Paulo é emblemática com referência à tensão entre a estratégia desse jornal e as táticas lobatianas:
“O Estado é cauteloso. Poda-me os pedaços mais atrevidos e portanto melhores. Baixa o tom das minhas violências. Em compensação, vingo-me n’O Queixoso, revista quinzenal de ‘pau no lombo’”. ( op. cit., p. 68)
Deslizando para um espaço editorial periférico e menos comprometido com o poder oficial, Lobato dribla a censura para manter aceso o próprio discurso e não ver solapado o direito à comunicação das próprias opiniões. A respeito de posições assim, diz Nietzsche ( 1978-b, p. 150 ): “Não nos deixaríamos queimar por nossas opiniões: não estamos tão seguros delas. Mas, talvez, por podermos ter nossas opiniões e podermos mudá-las”.