5 Presentasjon av empiri
5.3 Koordinering på tvers
Emília, ao perceber que ficou, de repente, quarenta vezes menor ao desligar a chave do tamanho, pergunta-se e responde a si mesma:
“(...) Eu fiquei pequenininha. Por quê? E pôs-se a pensar mais forte ainda.
-Só pode ser uma coisa: por causa da descida da chave. Logo, aquela chave é a que regula o meu tamanho. Regula só o meu tamanho, ou regula o tamanho de todas as criaturas vivas? Regula o tamanho de todas as criaturas vivas, ou só o das criaturas humanas? Quantos problemas, meu Deus! ( LOBATO, 1997, p. 11)
Ela está diante de um fato novo e o relaciona a uma causa plausível.
Levanta, em seguida, diferentes hipóteses para o alcance desse fenômeno. Pensando, pensando, encontra o indício de que aquela chave controla apenas o tamanho dos seres vivos: a caixa de fósforos não diminuíra de tamanho: “[...] –Hum! Já sei. Isto é a caixa de fósforos que eu trouxe e está do tamanho que sempre foi”. Continuando seu raciocínio vinculativo, constata: “Eu é que diminuí. Fiquei pequeníssima; e, como estou pequeníssima, todas as coisas me parecem tremendamente grandes [...]” ( id. ibid. ).
O episódio mostra a aplicação de um pensamento hipotético, numa situação de experiência pessoal, e que tem a ver com o estabelecimento de uma questão de pesquisa, ficando evidente a pertinência relacional ( verossimilhança ) entre o problema que se apresenta e a possibilidade de explicação que ela levanta: a descida da chave. É Apolo agindo, mas submetido à dionicisidade do ficcional.
O que chamamos de pertinência relacional corresponde ao que Peirce ( 1977 ) trata como abdução31. Este tipo de raciocínio caracteriza-se por se constituir como “a adoção provisória de uma hipótese” ( op. cit., p. 6 ), uma vez que resta examinar se há acordo ou desacordo com os fatos. A abdução, ainda como expõe o autor de
Semiótica, “advém-nos como um lampejo. É um ato de introvisão ( insight ) ( op. cit., p. 226 ), e é assim que se inicia a construção do conhecimento científico: “cada um dos itens singulares da teoria científica que estão hoje formados deve-se à Abdução” ( op. cit., p. 220 ). Ora, um insight é uma probabilidade, uma confiança que pode afiançar um resultado condizente com a expectativa. Esta pesquisa, por exemplo, partiu do insight de que Emília corresponderia a uma pedagogia performática, pelo tanto de fantasia e racionalidade que parecia caracterizá-la.
Uma introvisão leva o ser humano a estar, “na esmagadora maioria das vezes, com mais freqüência certo do que errado” ( op. cit., p. 221 ). Emília tem um
insight, uma introvisão: a descida da chave terá causado o seu apequenamento. Ela está certa, embora pudesse ter levantado outras alternativas. Se não levantou, é que o fenômeno foi concomitante ao gesto de desligar a chave e isso colaborou para a interpretação. Mas restam a ela as outras hipóteses:
Hipótese A: A chave regula só o seu tamanho;
Hipótese B: A chave regula o tamanho de todas as criaturas vivas;
31 O autor explica que, além da Dedução e da Indução, Aristóteles menciona um terceiro tipo de raciocínio
lógico: a Retrodução, palavra que foi “mal interpretada em virtude de uma deturpação em seu texto e geralmente traduzida, nesta forma errônea, por abdução” ( PEIRCE, 1977, p. 5 )
Hipótese C: A chave regula só o tamanho das criaturas humanas.
E logo tem “a primeira prova provada de que o apequenamento também havia alcançado outras criaturas [humanas]” ( LOBATO, 1997, p. 23 ), pois ao continuar sua viagem de volta ao Sítio, encontra uns seres também minúsculos, que ela, no primeiro momento, confunde com insetos, mas que são os pais de Juquinha e Candoca, estes e a cozinheira, como já dissemos. “Era de fato gente – gentinha como ela – os donos da casa com certeza” ( id. ibid. ).
Ela desenvolve um raciocínio indutivo que pode ser assim formalizado: Premissa A: Eu sou humana e fiquei minúscula;
Premissa B: Juquinha, Candoca, seus pais e a cozinheira são humanos e ficaram minúsculos;
Logo, todos os humanos ficaram minúsculos.
Ao conjeturar, depois, sobre o circunstancial desaparecimento das duas crianças que ficam aos seus cuidados após o fenômeno do apequenamento, Emília constrói “todas as hipóteses imagináveis. O certo era estarem mortos, reduzidos a lama ou afogados nas lagoas que a chuva fizera no tijuco” ( LOBATO, op. cit., p. 47 ). Mas ela desiste, agora, dessa certeza que não a convence, que não chega a ser uma introvisão, porque mais forte, neste caso, era “o incerto - e era no incerto que Emília levantava suas hipóteses” ( id. ibid. ), diz o narrador. Um incerto com gradações, percebemos.
Essas passagens sediam, de modo privilegiado, um encontro conciliante, uma aliança entre ficção e razão; entre pensamento lógico, aristotélico, friamente cerebral, e o vulcânico da fantasia na obra em referência – A chave do tamanho. Através de Emília, um ser imaginário, Lobato ensina, sempre por sugestão, o que é pesquisar, raciocinar logicamente, explicar um fato, um fenômeno. Mais: ele
antecipou, aí, a segunda questão do que Moles ( 1995 ) chama de “ciência estabelecida” e “ciência em vias de se fazer” ( op. cit., p.35 ), noções úteis a uma iniciação no campo do conhecimento científico. A noção de ciência estabelecida abarca o que esse autor chama de “muralha dos livros” e que “é totalmente acessível a todos” ( id. ibid. ): são as publicações, os livros, a “biblioteca universal”, possuidora de “uma coerência total com relação às regras da lógica” ( op. cit., p. 34 ). A ciência em vias de se fazer longe está da ciência estabelecida. É a própria ciência da boneca Emília, campo de possibilidades, onde “o verdadeiro e o falso [...] são subjetivos: eles são a ilusão, a cada instante, de cada pesquisador” ( op. cit., p. 35 ). É a ciência em ato, percebendo-se o pesquisador “como um ponto – o rato dentro do labirinto dos trajetos imagináveis – em uma atitude de exploração dos canais do possível” ( id. ibid. ). É o que faz a boneca lobatiana, tão logo ocorre o fenômeno do apequenamento: ela erra pelos caminhos - “fiquei pequenininha e ando em exploração pelo mundo” ( LOBATO, 1997, p. 23 ) -, tentando retornar ao Sítio do Picapau Amarelo. Nessa errância, equivoca-se com a aparência das coisas, faz identificações, conceitua. É cientista - performaticamente.