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3 Metodisk tilnærming

3.6 Studiens kvalitet

Lobato deplorava os estilos literários ornamentais, adocicados, anêmicos. Admirava os autores que conseguiam produzir ebriedade no leitor, os que escreviam visceralmente, “com sangue”, também à maneira de Nietzsche, que diz: “De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que sangue é espírito” ( NIETZSCHE, 1967, p. 47 ), enquanto o criador de Emília assim se expressa: “[...] Em todas as literaturas eu procuro sempre o carnívoro [...] e ponho os alfenins de banda [...].O fim em vista é mineralizar o Verbo para ver se não morro da mesentérica do ‘estilo brasileiro’, para o qual devo ter predisposição congenial [...]”. ( LOBATO, 1961-b, p. 162 )

Sente-se arrebatado pelos artigos e discursos de Rui Barbosa e por sua atuação crítica na política, nos governos de Afonso Pena, Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca. Como um conhecedor também da Bíblia, diz: “Aquele Rui combativo, cruel como Jeová, feroz como Ezequiel, foi a culminância do ‘fenômeno Rui’, [...] refletor de todas as ânsias, queixas e desejos da nação”. ( op. cit., p. 156-157 )

Suas palavras demonstram a identificação que tinha com as idéias e o estilo do jurista baiano. Seduzia-o também o modo de escrever de Euclides da Cunha, que tinha por sóbrio e vigorosamente belo, o que devia resultar do fato de ter escapado “dos cancros do estilo de toda gente – estilo que o jornalismo apurou até ao ponto- de-bala acadêmico, tornando-o untuoso, arredondado e impessoal”. ( LOBATO, 1961-a, p. 312 )

Na carta de 8-7-1917, mostra-se decepcionado com o poeta Olavo Bilac (1865-1918): “[...] E Bilac, que era a salvação, deu agora para rimar filosofia alheia e fazer patriotismo fardado”. ( LOBATO, 1961-b, p. 144 ). De fato, o autor do soneto O

Nietzsche – O crepúsculo dos ídolos -, e daí, provavelmente, a pilhéria de Lobato - é visto por Bosi ( 1997, p. 256 ) como “o poeta que melhor exprimiu as tendências conservadoras vigentes depois do interregno florianista”. Assumindo seu espírito cívico, fez, no final da vida, campanha a favor do serviço militar obrigatório, como forma de estimular o espírito nacionalista, no que foi uma figura importante. Juntamente com Pedro Lessa e Miguel Calmon, Bilac funda, em 1916, a Liga de

Defesa Nacional, que tinha, entre seus objetivos, “desenvolver o civismo, o culto do heroísmo, [...]promover o ensino da língua pátria nas escolas estrangeiras existentes no País; [...]combater o analfabetismo.” ( NAGLE, 1976, p. 45 )

2. 10. A criança e a literatura

O que pensava o pai de Emília acerca do ser criança? Por que terá decidido escrever para elas? Que representações tinha da infância?

Na carta de 7-5-1926, queixa-se do calor e da monotonia do verde no Rio de Janeiro, de onde escreve: “[...] Tudo verde, como o Menino Verde, um álbum colorido com que me diverti em criança, companheiro do João Felpudo. Lembra-te disso? Pobres crianças daquele tempo! Nada tinham para ler”. ( LOBATO, 1961-b, p.292 )

Embora não dê mais detalhes sobre essas obras e seus autores, percebemos claramente que Lobato tinha critérios de julgamento quanto ao que fosse literatura para criança. Ele se diz, no mesmo texto, enjoado “de escrever para marmanjos [...]. Bichos sem graça. Mas para as crianças, um livro é todo um mundo”. ( id. ibid.) E recorda ter vivido dentro do Robinson Crusoé, para concluir: “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar”. ( id. ibid.)

Livro para se morar nele -com essa pedagogia da leitura, Lobato sugere que a literatura infantil desejável é aquela capaz de atrair não apenas os olhos do pequeno leitor, mas todo o seu corpo: emoções e imaginação. “[...] Que é uma criança? Imaginação e fisiologia; nada mais” ( op. cit., p. 322 ), define na carta de 26-6-1930, quando se encontrava em Nova York. E defende a tese de que o ser criança é o mesmo, sejam quais forem os tempos e os lugares em que viva.

O lugar que o autor confere às primeiras leituras é de particular importância. Entende que o cérebro das crianças, estando menos ocupado pelas impressões do mundo - o que equivale a dizer, em parte: pelas representações que lhes são transmitidas -, está, por isso mesmo, sensivelmente mais apto a recebê-las. E estabelece uma relação entre, por exemplo, primeiras leituras na infância e posição política, depois. Mais claramente, refere-se à II Guerra Mundial: “[...] A destruição em curso vai ser a maior da história, porque os soldados de Hitler leram em criança os venenos cientificamente bem dosados do hitlerismo - leram - como eu li o Robinson.” ( op. cit., p. 346 ).

Sem que mencione a palavra, Lobato fala aí de representações, de valores, de ideologias que podem ser veiculadas em textos para crianças. Tal como ocorreu no Brasil durante o Estado Novo ( 1937-1945 ), cujo aparelho propagandístico não se limitou a criar dias nacionais - Dia da Pátria, Dia do Trabalho, Dia da Raça, Semana da Independência, etc. – e a encadernar a juventude em uniformes preparados para celebrações cívicas, mas produziu também, via imprensa oficial, e para serem distribuídas às bibliotecas, muitas “’histórias de Getúlio para crianças’” ( D’ARAÚJO, 2000, p. 36 ). Vargas seria veiculado junto aos jovens e às crianças como um ser superior – “estratégia usada pelas políticas de culto à personalidade”. ( id. ibid.)

Lobato estava atento também à questão da moralidade que circulava nas fábulas clássicas, e assim lhe vem a idéia de dar alma nacional às fábulas de Esopo e La Fontaine, alterando-lhes os conteúdos moralísticos, dando-lhes uma narratividade adequada ao interesse infantil. Seu laboratório de observação eram os próprios filhos, a quem Purezinha - sua mulher e mãe deles - contava fábulas que eles recontavam aos amigos, desdenhando, entretanto, os detalhes de cunho moral.

O criador de Emília reconhece, assim, a peculiaridade da infância. E no seu entender, a ausência dessa percepção, nos escritores que produziam para crianças, justificava-lhes o insucesso, enquanto um autor como Andersen23 permanecia despertando interesse.

Não só o que escrever, mas como escrever – outra questão importante para ele. E a solução, só aparentemente contraditória: “o certo em literatura é escrever com o mínimo possível de literatura!” ( LOBATO, 1961-b, p. 339) E afirma ter aprendido esse segredo com a Sra. Dupré24: “[...] Como nos envenenou aquela gente que andamos a ler na mocidade! [...] A Dupré mostrou-me que se pode escrever com zero de “literatura” e 100% de vida” ( op. cit., p. 340 ), diz na carta de 1-2-1943.

Refere-se a adiposidades literárias, a excessos de adjetivação, que tirariam a transparência do texto, do mesmo modo como o empastamento de tintas tira-a à aquarela. E isto ele aprende com outro artista a quem chama de Marques Campão, “um pintor excelente e inteligente ( coisa rara ) [...]” ( op. cit, p. 339 ).

São outras configurações intelectuais, literárias. Técnicas, dir-se-ia. E elas se somam ao que ele, na verdade, já compreendia aos 23 anos, pois em carta de 1905 refere-se à sobriedade literária de Montaigne, Renan, Gorki, Shakespeare.

23 Hans Christian Andersen (1805-1875), dinamarquês, tornou-se conhecido por seus Contos para crianças. 24 Maria José Fleury Monteiro, chamada Sra. Leandro Dupré (1905-1984), romancista brasileira (Botucatu-SP),

Seja como for, temos um Lobato sempre aberto à aprendizagem. Aos 61 anos, busca ainda o aperfeiçoamento na aventura de escrever para o público infanto-juvenil. O contato com a Sra. Dupré leva-o, inclusive, a fazer a revisão do livro Fábulas, de que retirou os excessos literários. Confessa: “Como o achei pedante e requintado! Dele raspei quase um quilo de ‘literatura’ e mesmo assim ficou alguma coisa.” ( op. cit, p. 340 )

E, resultado também de tantas aprendizagens, as edições de suas obras, em 1941, chegavam a 1.200.000 exemplares.

Aprender, afinal, fazia parte da procura por si mesmo, de seu trabalho de se atingir e de se superar, como se percebe na análise que faz da própria vida e da vida do amigo, na “conversa carteada” de 17-9-1941, com que abrimos esta penúltima janela para o pai de Emília: “Nós nos procurávamos, Rangel. E tanto nos procuramos que nos achamos. Nós nos construímos lentamente, não nascemos feitos”. ( op. cit, p. 337 )