5 Presentasjon av empiri
5.2 Styringsutfordringer som tilskrives klinikkstrukturen
5.2.3 Motstridende interesser og konflikter
O gesto radical de Emília, em A chave do tamanho, pode significar também a vitória simbólica do corpo minúsculo, porém capaz de agir inteligentemente, como se mais poderoso fosse, fisicamente. É o indivíduo não-raté atuando nela. Outra vez vem à tona a representação de povo. Este, embora numericamente grande, era pequeno em seu poder de participação na sociedade, à época de Lobato. Não é assim que age Emília. Tão amiudada, o retorno ao Sítio, depois do apequenamento, exige-lhe táticas especiais de defesa, pois os animais continuavam do mesmo tamanho, a exemplo do gato Manchinha, que engole os próprios donos, como se eles fossem minhocas ou baratas. Consciente disso, alerta os dois órfãos, Juquinha e Candoca, então sob seus cuidados, quanto à necessidade que têm os três de se defenderem muito bem. Juquinha quer saber como. Ela explica: “-Com a inteligência ou a astúcia” ( LOBATO, 1997, p. 35 ). E indica o mimetismo como uma alternativa de defesa, mostrando que é “a defesa do fraco contra o forte – mas do fraco esperto!” ( id. ibid. ). A idéia cabe na visão de tática formulada por Certeau ( 1994, p. 101 ): tática é o que “é possível ao fraco, e muitas vezes apenas ela, como último recurso”. Defesa do fraco contra o forte: aqui aparece a noção de oposição, sim, mas não como valor filosófico, e sim como raciocínio de sobrevivência em relação a um atributo dos animais selvagens – a força do instintual.
Decidindo pelo mimetismo, que é um aprender com a natureza, Emília comunica que se cobrirão todos – ela e as duas crianças - de algodão, como saída para ludibriar as aves, uma vez que o desafio para os seres humanos fisicamente minimizados não são as feras, mas as aves: “[...] O perigo para a humanidade de hoje, meu caro, é a galinha, é o pinto, é o pardal. [...] Outro perigo muito sério é o gato.” ( LOBATO, op. cit., p. 34 ).
E não cessa a produção de alternativas. Para evitar que os pés fiquem feridos nos grãos de areia, que agora têm dimensões de pedras, ela inventa botas de albumina, a substância da clara de ovo: “[...] Seca num instante e une as fibras. Ficaremos assim com verdadeiras botas, da forma exata dos nossos pés” ( LOBATO, op. cit., p. 37 ). Como abrigo, pois há sinais de chuva e esta pode desfazer o disfarce de algodão, escolhe os buracos de raízes, em que não há bichos, pois ”[...] O perigo é o buraco de bicho, porque todos têm dono. Que donos?”, ela se pergunta e responde: “Os bichos que abriram esses buracos. Mas buraco de raiz não tem dono, porque a dona dele era a raiz e a raiz apodreceu e foi-se embora [...]” ( id., p. 38-39 ). Escolhe um. Para surpresa da boneca, há uma aranha lá dentro: “[...] O coraçãozinho de Emília bateu. [...] Mas pensou depressa. ‘Entre a aranha e a chuva, antes a aranha’”. Assim faz sua opção, por compreender que “Chuva é mil vezes pior, porque chuva não tem remédio e com aranha muita coisa pode acontecer”. E vai multiplicando hipóteses para o desenrolar dos fatos: “Ela [a aranha] pode não desconfiar do meu algodão. Pode estar dormindo. Pode até ter dó de mim. As aranhas são ‘enganáveis’ – mas quem engana chuva? [...]” ( op. cit., p.39 ).
Inteligência e astúcia querem dizer capacidade de construir táticas, raciocinar, estabelecer relações, engendrar saídas, avaliar, inventar, saber criar alternativas de solução quando as circunstâncias o exigem.
Emília e o mundo em que ela se move são, respectivamente, sujeito e mundo metafóricos, devendo-se entender por metáfora, evocando o que já foi dito, não “uma figura de retórica, mas uma nova imagem que substitui a primeira imagem e que paira realmente diante dos [...] olhos, em vez de um conceito” ( NIETZSCHE, 1978-a, p. 73 ). Emília e seu mundo são, assim, imagens que substituem povo, ou um indivíduo do povo, e o seu mundo, espécie de laboratório virtual por meio do qual o seu autor esboça as próprias idéias em torno do que seria um indivíduo criativo, independente, capaz de pensar e tomar decisões adequadas às situações de urgência. Um indivíduo que sabe dispor da astúcia, próxima da tática, muitas vezes o “último recurso” dos fracos frente à estratégia, que é o “poder proprietário” ( CERTEAU, 1994, p. 101 ) – no caso, o poder proprietário é o da própria natureza, que metaforiza o poder proprietário na vida em geral, em circunstâncias as mais variadas, nas micropolíticas do cotidiano. A passagem nos sugere, assim, a ativação da nossa capacidade tática sempre que nos defrontarmos com situações que a exijam. E Emília representa, nesse enfrentamento, a inserção de um elemento novo: a mulher, a voz feminina, num tempo em que a hegemonia do masculino era ainda mais forte e gerava representações que, introjetadas, alcançam até mesmo o libertador discurso freiriano, pois não raras vezes, em sua obra, ele fala de homem, ou de homens, e não de homens e mulheres, condicionamento que ele próprio denuncia depois, no início dos anos 90, ao questionar a regra gramatical que privilegia o masculino - ainda que a referência seja a um número maior de mulheres do que de homens:
[...] Que lástima que o educador, para não cometer um ‘pecado’ contra a ‘pureza casta’ da escola, não diga aos alunos que a gramática, só, não vale para explicar a regra segundo a qual se há mil mulheres num salão e apenas um homem a concordância se faz no masculino. Todos vocês e não todas vocês. ( FREIRE, 1991, p. 113 )
Ainda aqui o autor de Pedagogia do oprimido é vitimado por esse condicionamento: ele diz ‘educador’ e ‘alunos’...
A observação serve para iluminar a pluralidade de saberes que circula nas práticas de Emília: através desse indivíduo metafórico, Lobato provoca os nossos condicionamentos, pois, de saída, humaniza um brinquedo. Desobjetifica o objeto boneca, tira-o da condição pano-e-vegetal, e a macela, de que é revestido, transforma-se, por assim dizer, em matéria pensante e atuante. E no feminino.