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A cultura familiar pode ser determinante no ato de beber. Nos hábitos familiares como celebrar ocasiões especiais e nas rotinas diárias está muitas vezes incluído o ritual de beber sendo nestas situações os momentos em que para muitos ocorre a primeira experiência com o álcool. De fato, tal como mostrou estudo realizado por Mendes, Sousa, Pessoa e Fontes (2007), na infância, entre os seis e os nove anos, já se podem identificar proto-representações do álcool que, pela vivência familiar, ao relacionar o seu consumo com as festividades e celebrações o vão ligando indelevelmente à alegria, satisfação e contentamento.

Verificam-se outras situações em que os filhos adultos deliberadamente estabelecem rituais diferentes dos que viveram na sua infância, excluindo dos momentos festivos as bebidas alcoólicas. Nestes casos há menor probabilidade da transmissão do hábito de beber. Vários estudos procuraram perceber a influência dos pais e dos pares na iniciação do consumo de álcool tendo-se concluído que a influência mais forte vem dos pais (Oliveira, Werlang & Wagner, 2007; Barnes & Welte, 1986; Kandel & Andrews, 1987; Mares, Vorst, Engels & Lichtwarck-Aschoff, 2011).O papel dos pais estende-se também às expetativas criadas em torno do consumo pois as pesquisas indicam que as expetativas sobre o álcool presentes nas crianças surgem da observação dos pais e outros adultos (Christiansen, Smith, Roehling & Goldman 1989). Os filhos assimilam dos pais um comportamento de beber com as crenças e valores a ele associados. Apesar da

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influência familiar persistir na idade adulta esta é mais forte em idades mais precoces (Masten, Telzer, Fuligni, Lieberman & Eisenberger 2010; Velleman, 2009).

Uma vez realizado o primeiro contacto com o álcool, cabe a cada um decidir se irá manter ou não os seus consumos e o padrão com que o irá fazer. A qualidade da relação parental com o progenitor do mesmo sexo é importante no consumo abusivo de bebidas alcoólicas (Surkan, Fielding-Miller & Melchior, 2012). O vínculo da relação mãe-filho, a educação recebida na infância e as atitudes parentais em relação ao beber são também influenciadoras da relação que os adolescentes vão desenvolver com a bebida. Os adolescentes que têm uma relação mais positiva com os seus pais são os que iniciam mais tardiamente o consumo de bebidas alcoólicas (Paiva & Ronzani, 2009). A existência de laços familiares fortes, assim como o envolvimento em atividades familiares constituem um fator protetor em relação ao consumo de bebidas alcoólicas (NIAAA, 2003; Mares et al., 2011).

No entanto, o ambiente familiar pode constituir um fator de risco para o consumo. Viver numa família disfuncional pode constituir um risco para o consumo de bebidas alcoólicas (Paiva & Ronzani, 2009; Mangueira & Lopes, 2014). Adolescentes com famílias com história de alcoolismo estão mais vulneráveis ao consumo do tipo binge

drinking (Kuntsche et al., 2004;Benites & Schneider, 2014).

A falta de apoio e supervisão familiar assim como a existência de perceções de rejeição estão associadas a um maior consumo de bebidas alcoólicas (Mogro-Wilson, 2008; Barnow et al., 2004). O consumo de bebidas alcoólicas por um irmão mais velho em especial do mesmo sexo irá ter uma forte influência nos consumos dos adolescentes (Raphaelli, Nakamura, Azevedo & Hallal, 2015) podendo esta ser mais significativa do que a dos pais (McGue, Sharma & Benson, 1996; Scholte, Poelen, Willemsen, Boomsma & Engels, 2008).

Apesar do primeiro contato com as bebidas alcoólicas se verificar na infância, a experimentação e intensificação dos consumos ocorre habitualmente na altura em que se verifica uma autonomização dos pais e simultaneamente a iniciação de uma atividade laboral ou a integração no ensino superior sendo nesta altura maior a influência exercida pelos pares comparativamente ao meio familiar (Johnston, O'Malley & Bachman, 2000; Pimentel, Mata & Anes, 2013). Ao integrarem o grupo, os novos elementos assumem

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comportamentos similares aos dos já existentes no grupo, que muitas vezes é o consumo de bebidas alcoólicas (Sousa, 2011; Curran, Stice & Chassin, 1997).

A existência de uma forte rede social de amigos e familiar constitui um fator protetor de consumos de bebidas alcoólicas (Simões, Matos & Batista – Foguet, 2006). Por outro lado, o envolvimento em atividades sociais e o pertencer a determinados grupos sociais poderá influenciar os padrões de consumos.

2.2.3 Condicionantes sociais da transição

Os fatores existentes na sociedade referenciados como influenciadores do consumo de álcool são a acessibilidade às bebidas, condicionada pela legislação, custos e a publicidade.

A sociedade em que os jovens estão inseridos das quais faz parte a cultura de consumo de álcool, as normas e acessibilidade às bebidas alcoólicas vão afetar os padrões de consumo desta substância, sendo esta influencia mais evidente no final da adolescência (Brown Tapert, Granholm & Delis, 2000). Aquelas em que se verifica permissividade em relação aos consumos, como por exemplo as mediterrâneas, caraterizam-se por vários rituais sociais onde esta integrado o consumo de bebida alcoólicas. Outras, em que a religião predominante é o islamismo, verificam-se maiores restrições ao consumo. Muito se tem falado sobre a importância da exposição ao álcool através da publicidade agressiva nos diferentes meios de comunicação social assim como da acessibilidade às bebidas alcoólicas especulando-se sobre a influência que estes fatores têm nos padrões de consumo adotados pelos mais jovens. A perceção de uma maior disponibilidade do álcool pode estar ligada à ideia de aprovação social do consumo e a existência destas perceções está associada a padrões de consumo mais intensos (Kuntsche, Kuendig & Gmel, 2008). E, de certa forma, esta ideia poderá influenciar uma leitura enviesada sobre o consumo dos pares. Investigação realizada por Barroso, Barbosa e Mendes (2010) mostrou uma clara sobrestimação na perceção do consumo habitual pelos pares e uma correlação positiva entre o consumo e a sobrestimação do consumo dos outros. No que se refere às perceções dos jovens sobre a nocividade do álcool coloca-se a hipótese de que estes tendem a considerar que em geral o álcool é nocivo, mas sobretudo para as

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grávidas, crianças e jovens mais novos e inexperientes do que eles próprios (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências – SICAD, 2015)

Uma revisão sistemática da literatura realizada por Pinsky & Jundi (2008), refere que a redução da exposição à publicidade tem impacto positivo sobre o consumo de álcool, o que é corroborado por Saffer (2002) ao confirmar a influência dos meios de informação e comunicação nos consumos de álcool.

A literatura analisada mostra, contudo, que o efeito da publicidade sobre a ingestão de álcool é modesto sendo este mediado pelas expetativas existentes sobre o consumo de álcool (Velleman, 2009).

A acessibilidade às bebidas relacionadas com a redução de preços aos dias da semana, as

happy hours e ladies nights e as promoções que possibilitam a ingestão de maiores

quantidades de álcool por valores reduzidos (por exemplo beba dois pague um) funcionam como uma forma de publicidade que favorece o consumo de bebidas alcoólicas. As novas formas de apresentações de bebidas alcoólicas tais como as “litradas”, os shots a metro e preço reduzido das bebidas alcoólicas comparativamente aquelas que não contêm álcool são outros fenómenos da atualidade que promovem e facilitam o consumo de álcool. O impacto destas formas de publicitar e fomentar o consumo de álcool está ainda pouco estudado não tendo sido encontrados estudos que mostrem a sua influência no consumo de bebidas alcoólicas.