transições e as respostas humanas a estes eventos tendo desenvolvido uma teoria de médio alcance, explicativa das mudanças de papéis requeridas às pessoas durante os processos de transição, sejam de desenvolvimento, situacionais ou de saúde-doença. Esta dispõe de um enquadramento que permite descrever a experiência dos indivíduos que se estão a confrontar, a viver ou a lidar com um acontecimento, situação ou fase de desenvolvimento que requer novas competências, sentimentos, objetivos, comportamentos ou funções (Meleis, 2015).
No desenvolvimento da sua teoria Meleis, foi influenciada por diferentes teorias pré- existentes sendo um exemplo o paradigma interacionista desenvolvido pelo Dr. Ralph Turner, considerado o pai da Teoria dos Papéis. Esta inclui o tipo e a natureza das questões sobre como ajudar os indivíduos e famílias na sua transição de um papel para outro (Meleis, 2015). Nos seus primeiros trabalhos Meleis, definiu como transições insalubres ou transições ineficazes as que estavam relacionadas com a insuficiência de
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papel. Para a autora a insuficiência de papel foi definida como qualquer dificuldade no conhecimento e/ou desempenho de um papel de comportamento identificado pelos profissionais ou outros significativos. Esta conceptualização levou Meleis a definir a meta de transições saudáveis como o domínio de comportamentos sentimentos e símbolos associados com novos papéis e identidades e processos não problemáticos (Meleis et al., 2000).
Outro paradigma que inspirou o desenvolvimento da teoria das transições é a “experiência vivida” que confronta as visões percebidas com as visões recebidas. Este paradigma foi importante para melhor compreender as questões relacionadas com a natureza e a experiência vivida de resposta à mudança e a experiência de estar em transição (Meleis, 2015). A teoria das transições foi também influenciada pelo feminismo pós-colonial uma vez que permitiu considerar as condições moldadas pelas desigualdades de poder numa sociedade ou em instituições de tratamento e como estas desigualdades podem influenciar os recursos utilizados bem como os cuidados de enfermagem prestados.
As teorias de enfermagem têm como objetivo relacionar os conceitos “pessoa”, “ambiente”, “saúde” e “enfermagem” a fim de explicar o desenvolvimento de inter- relações, a prática e a fundamentação sobre os cuidados prestados pelos enfermeiros. Meleis e Trangenstein (1994) propõem a seguinte articulação entre os conceitos metaparadigmaticos: o enfermeiro interage (interação) com um ser humano numa situação de saúde/doença (pessoa) o qual é uma parte integrante do seu contexto sociocultural (ambiente) e está em alguma espécie de transição ou antecipando essa mesma transição. As interações enfermeiro-utente organizam-se em torno de uma intenção (processo de enfermagem) e o enfermeiro utiliza ações (terapêuticas de enfermagem) para promover, recuperar ou facilitar a saúde (Meleis & Trangenstein, 1994; pág 256).
As ações de enfermagem devem ser sensíveis à compreensão da transição a partir da perspetiva de quem a experiencia, deduzindo a partir desta, sobre as necessidades do utente (Zagonel, 1999). Assim, compete ao enfermeiro preparar e informar os utentes, através de um processo de aquisição de novas competências relacionadas com a experiência de transição (Meleis, Sawyer, Im, Messias & Schumacher, 2010) dotando-o de mecanismos que permitam ultrapassá-la e capacitando-o para a tomada de decisão de
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modo concluírem o processo transicional de forma saudável (Meleis & Trangenstein, 2010).
O conceito de saúde, de acordo com Meleis (2012), mais do que a ausência de doença compreende a homeostase e adaptação. A saúde é multidimensional e individualizada envolvendo todos os sistemas em que a pessoa se insere. Deve ser vista de uma forma situada e tem por objetivo proporcionar à pessoa um meio para se autorrealizar traduzindo-se na capacidade dela própria se realizar enquanto ser humano de natureza biológica, psicológica social e cultural.
O utente é um ser com necessidades humanas básicas que se encontra em permanente interação com o meio, mas que devido à doença ou outros fatores de vulnerabilidade pode entrar em desequilíbrio com o meio que o cerca (Meleis, 2012).
O ambiente no qual as pessoas vivem e se desenvolvem é constituído por elementos humanos, físicos, políticos, económicos, culturais e organizacionais, que condicionam e influenciam os estilos de vida e que se repercutem no conceito de saúde. Na prática dos cuidados, os enfermeiros necessitam de focalizar a sua intervenção na complexa interdependência pessoa/ambiente (Ordem dos Enfermeiros, 2001).
O conceito central da Teoria de Meleis são as transições. A transição é uma passagem ou movimento de um estado, condição ou lugar para outro, podendo afirmar-se que a vida se constitui como uma transição (Meleis, 1997, 2007). Demonstra uma mudança no estado de saúde, nos papéis relacionais, expetativas ou habilidades e requer que a pessoa incorpore um novo conhecimento, altere o seu comportamento e as definições de si própria no contexto social (Meleis, 1997, 2007).
As transições incluem seis componentes centrais que se articulam entre si, sendo estes: os tipos e padrões de transição, as caraterísticas das experiências de transição, os contextos da transição facilitadores e inibidores, os indicadores processuais e os indicadores de resultados esperados e as intervenções de enfermagem (Meleis et al., 2000).
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Figura 1 – Modelo de Transições em Enfermagem, adaptado de Meleis et al (2000)
De acordo com Meleis (2007), as transições quanto ao tipo podem ser desenvolvimentais, situacionais, de saúde doença e organizacionais.
As transições desenvolvimentais são descritas como compreendendo processos de maturação desde o nascimento até à morte. As situacionais consistem em eventos esperados ou não que desencadeiam alterações e levam a pessoa a enfrentar e a adaptar- se à nova situação que desencadeou a mudança. Por sua vez, a transição saúde-doença inclui as mudanças biopsicossociais e espirituais que influenciam a adaptação do indivíduo ao ambiente e a transição organizacional está relacionada com o contexto social, político, económico e ainda com as mudanças na estrutura e na dinâmica da organização.
O modelo de transição engloba múltiplas possibilidades. Em relação ao padrão estas podem ser únicas ou múltiplas. As transições múltiplas podem ser sequenciais, simultâneas e relacionadas ou não relacionadas (Meleis et al., 2000). Segundo Chick e Meleis (1986), as transições podem ser iniciadas por acontecimentos não controlados individualmente sendo disso exemplo o nascimento, a saída dos filhos de casa ou a morte, ou podem ser provocadas (casamento, gravidez, mudança de profissão).
As transições são complexas e multidimensionais sendo o seu grau de perturbação influenciado pela perceção que cada um tem dos eventos de transição uma vez que estes vão influenciar as respostas e reações. Assim, e no que respeita às caraterísticas das
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experiências de transição, são consideradas as seguintes propriedades: consciencialização, envolvimento, mudança/diferença, período de tempo e eventos críticos (Meleis et al., 2000).
O conhecimento está relacionado com a perceção, saber e reconhecimento da experiência de transição, ou seja, a consciencialização. O nível de conhecimento reflete, por vezes, o grau de congruência entre o que sabe sobre o processo e as respostas, e quais os constituintes não esperados das respostas e perceções pessoais que acompanham uma tal situação (Meleis et al., 2000). Para as autoras quando não se verifica a aquisição de conhecimento poderá significar que o indivíduo não iniciou o processo de transição.
A transição tem também como propriedade o “envolvimento”, ou seja, o grau no qual a pessoa demonstra envolvimento nos processos inerentes à transição. São exemplo deste ajustamento a procura de informação extra, o uso de modelos de papéis, preparação ativa, ser pró-ativo na atividade de mudança (Meleis et al., 2000).
As transições são simultaneamente o resultado de alterações e resultam em alterações. Os efeitos e significados das mudanças envolvidas dependem da temporalidade, ou seja, de quando os envolvidos percebem que importa iniciar a mudança, da importância percebida e das expetativas pessoais, familiares e sociais. A mudança obriga a ruturas nas rotinas e alterações nos relacionamentos.
A diferença pode surgir quando se confronta a realidade com as expetativas iniciais. As expetativas frustradas ou divergentes podem ocorrer quando o que se imagina ser a experiência, diverge da realidade vivida ou não está em conformidade com as expetativas dos outros. Por outro lado, a confirmação das expetativas acontece quando o que se imagina coincide com a realidade vivida e está em conformidade com as expetativas dos outros sendo disso exemplo, o consumo de bebidas alcoólicas pelos adolescentes/jovens. Os primeiros contactos com as bebidas alcoólicas confirmam as suas expetativas de socialização sendo estes consumos aprovados e aplaudidos pelo grupo de amigos o que poderá influenciar a progressão dos consumos e simultaneamente implicar diferenças nas formas de relacionamento interpessoal.
As propriedades da transição não são isoladas pois condicionam e são condicionadas pela duração da transição e outros eventos críticos que possam ocorrer. Os incidentes e
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eventos críticos (pontos críticos ou eventos de vida) estão associados a acontecimentos marcantes. Estão por vezes ligados a tomada de consciência das mudanças e diferenças ou a um maior ajustamento na capacidade de lidar com a experiência de transição (Meleis et al., 2000).
Pelo fato de surgirem novas caraterísticas, o ser humano terá de iniciar um processo de adaptação que será diferente de acordo com a mudança a realizar. A forma como os seres humanos respondem às transições e o modo como o ambiente influencia essas respostas são questões fundamentais para a enfermagem assim como as estratégias e a estrutura física, cognitiva e emocional que possuem para responder à transição com que se deparam.
Meleis et al. (2000), referem existir fatores ou condições que vão influenciar o processo transacional inibindo-o ou facilitando-o. De acordo com as autoras, as condições da transição podem ser agrupadas em pessoais, sociais e comunitárias.
No que se refere às condições pessoais estas dividem-se em significados, crenças culturais e atitudes, nível socioeconómico, preparação e conhecimento (Meleis et al., 2000). Meleis et al. (2000) e Meleis (2010) realçam nas condições pessoais o significado atribuído aos eventos precipitantes de uma transição e ao processo de transição em si. Os significados atribuídos às transições variam de pessoa para pessoa e influenciam o resultado das mesmas (Zagonel, 1999).
Como condicionantes sociais, segundo Meleis et al. (2000), podemos apontar a marginalização, os papéis definidos socialmente e os estigmas. As condições comunitárias dizem respeito aos recursos que a comunidade tem ao seu dispor e que facilitam ou inibem o decorrer das transições. As condições facilitadoras são o suporte de companheiros e familiares, o conselho de fontes fidedignas, modelos de papéis, respostas a dúvidas e informações relevantes junto de profissionais de saúde. As condições inibidoras são a informação contraditória e insuficiente, os estereótipos, suporte inadequado e insuficientes recursos acompanhados de falta de planeamento. As transições poderão ter dois tipos de padrões de resposta sendo estes os indicadores processuais e os de resultado. Os indicadores processuais refletem a necessidade de o indivíduo se sentir e manter integrado num contexto em que esteja inserido uma vez que a transição implica a criação de novos significados e perceções (Meleis et al., 2000). Os
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indicadores de processo indicam também o desenvolvimento de confiança e coping. Estes estão presentes quando os indivíduos que experienciam a transição apresentam um conhecimento mais aprofundado e maior compreensão acerca dos aspetos essenciais e críticos da situação de transição.
Os indicadores de resultado são aqueles que permitem referir se a transição foi um evento saudável. Estes dividem-se em mestria e identidades flexíveis e integradoras. As primeiras referem-se ao desenvolvimento de competências que irão permitir gerir a nova situação. As identidades flexíveis e integradoras serão resultado da incorporação de novos conhecimentos decorrentes do processo transacional (Meleis et al., 2000).
Por sua vez, as intervenções de enfermagem constituem o suporte de todo o processo de enfermagem (Meleis, 1991). Incluem atividades que se encontram num continuum, dependendo das capacidades e competências do utente. Incluem a supervisão e /ou ensino de atividades que pretendem substituir o próprio utente mediante as incapacidades que pode manifestar.
Os enfermeiros lidam com pessoas que se encontram a experienciar transições, a antecipar transições e a completar o seu processo (Meleis & Trangensstein, 1994 citado por Meleis, 1997) pelo que facilitar a transição é o foco central da enfermagem. De fato, as transições podem deixar as pessoas vulneráveis e durante estas podem acontecer perdas de ligações, suportes sociais e objetivos significativos (Meleis, 2007). Conhecendo o processo de transição os profissionais de saúde podem atuar no período anterior à transição esperada preparando os indivíduos para a mudança de papéis e prevenindo as consequências dessa mudança de papéis. Face a estas transições a pessoa necessita mobilizar as suas forças internas e externas para enfrentar, superar e adaptar-se às mudanças que se instalam (Meleis, 2007).
O consumo de álcool, desde a sua experimentação a um possível consumo de risco, pode e deve ser analisado à luz desta teoria. As condicionantes sociais e pessoais que levam à experimentação, o modo como o significado e expetativas que estas experiências iniciais vão influenciar os trajetos de consumo futuros, as consequências para a saúde e para o desenvolvimento pessoal que o encontro com a bebida alcoólica pode produzir, as estratégias pessoais e as intervenções de enfermagem que ajudam a um consumo de baixo risco, constituem um sistema complexo para a compreensão do qual um enquadramento conceptual que utilize a teoria das transições é facilitador.
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