• No results found

Como mostramos nos capítulos anteriores, o fim de 1824 e o ano de 1825 foi um período no qual a cena pública fluminense foi dominada pelos áulicos. A forte atuação política do Spectador Brasileiro, o caráter oficioso do Diário Fluminense e o

374 CHAPUIS, Pedro de. Reflexões sobre a Carta de Ley de sua Magestade Fidelissima o Senhor

Rei D. João VI de 15 de novembro de 1825, e sobre os seus decretos de 15, e 19 do mesmo mez e anno. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1826.

375 Segundo Patrick Puigmal, o êxodo dos bonapartistas franceses teve como principal destino a

América. O Brasil recebeu um grande número, principalmente de militares, os quais tiveram atuações importantes na política e no círculo militar brasileiro. Cf. PUIGMAL, Patrick. Brasil Bajo Influencia Napoleónica y Francesa. Los Mensajeros de la Independencia: militares, libreros y periodistas. In:

História. n. 46, pp.113-151, janeiro/junho de 2013; PUIGMAL, Patrick; NUNEZ MUÑOZ, Raúl. La

imagen de chile y de los chilenos a través de los escritos de la oficialidad napoleónica durante la independencia: 1817-1830: “De mujeres hermosas y bondadosas a indios salvajes y sin virtudes”. In:

Alpha, n. 31, p. 243-255, dezembro de 2010.

376 Após a queda de Napoleão, existiu na França a fase do “Terror Branco”, momento no qual os

antigos bonapartistas foram perseguidos e prejudicados pelos novos estabelecidos. Cf. SCHWARCZ, Lilia Moritz. Espelho de Projeções: os franceses no Brasil. In: Revista USP, n.70, p.54-69, setembro/novembro de 2008; DIAS, 2006.

surgimento de dois jornais áulicos, O Grito da Razão378 e O Triumpho da

Legitimidade Contra a Facção de Anarquistas379 só confirmaram essa hegemonia.

Coincidência ou não, a viagem de D. Pedro à Bahia em fevereiro de 1826 foi seguida do surgimento de jornais “oposicionistas” no Rio de Janeiro. Surgiu o Atalaia da Liberdade, escrito pelo português João Maria da Costa, foi publicado pela Tipografia Nacional o panfleto supracitado de Chapuis e posteriormente seu jornal O Verdadeiro Liberal. Essas publicações modificaram a cena pública fluminense, e na primeira metade de 1826, quatro jornais políticos foram impressos regularmente380 no Rio de Janeiro.

QUADRO 8 – JORNAIS EXISTENTES NA PRIMEIRA METADE DE 1826 NO RIO DE JANEIRO

Jornal Ano de Criação Redator

(1) Spectador Brasileiro 1824 Plancher (1)

(1) Triumpho da Legitimidade [...] 1825 José da Silva Lisboa (1)

(1) Atalaia da Liberdade 1826 João Maria da Costa (1)

(1) O Verdadeiro Liberal 1826 Chapuis (1)

Fonte: Todos se encontram disponíveis no site da Biblioteca Nacional Digital. Foram citados apenas os jornais que tiveram mais de um número e com objetivos propriamente políticos.

A publicação do panfleto Reflexões sobre a Carta de Ley [...] de Chapuis - onde o francês criticou o tratado de independência - causou agitação nos espaços públicos

378 Não conseguimos encontrar estudos sobre esse periódico, nem mesmo menções. Seu redator

havia redigido um jornal com o mesmo nome na Bahia, mas após a Revolta dos Periquitos migrou para o Rio de Janeiro. Não obtendo sucesso com seu novo periódico – extremamente relacionado a notícias baianas e com reflexões políticas de “má qualidade” – encerrou sua publicação. Como era composto quase exclusivamente por notícias referentes à Bahia, não se relacionar diretamente com os jornais fluminenses e ter sido escrito no início de 1825, esse periódico não teve relação com o debate por nós analisado nessa pesquisa e, mesmo em sua singularidade, não trouxe grandes contribuições para a linguagem política áulica. Por isso ele não foi tratado como uma fonte a ser analisada.

379 Esse jornal era escrito por José da Silva Lisboa, atual barão de Cairu e futuro Visconde de Cairu.

Tinha como objetivo, quase que exclusivamente, responder as acusações do jornal argentino Argos. Nesse debate acabou contribuindo para a construção e fortalecimento da linguagem política áulica. Cairu também foi reconhecido e contestado pelos liberais, além da sua participação no debate através de seu panfleto. Por isso ele é um dos autores centrais do universo áulico.

380 Também existiu o Despertador Constitucional, que, publicado no Rio de Janeiro por Domingos

Alves Branco Muniz Barreto, secundariamente tratou de assuntos políticos. Contudo, seu jornal não foi regular e não houve relação direta com os outros jornais analisados.

fluminense. Em resposta, os áulicos se organizaram, e Silva Lisboa, futuro Visconde de Cairu, publicou seu panfleto Inviolabilidade da Independência e Gloria do Império do Brasil [...]381 sendo apoiado por frei Sampaio que, por meio de suas cartas enviadas ao Diário Fluminense e do panfleto Contradicta à Chapuis382, também

atuou na cena pública. Esses dois, somados ao jornal de Plancher, sustentaram o projeto político áulico, defendendo-o dos ataques de Chapuis e João Maria. Para isso, esses redatores alteraram e cunharam novos significados para conceitos então discutidos na imprensa brasileira, como liberdade, soberania, república, ordem e monarquia.

Juntos, os áulicos buscaram consolidar uma linguagem política pedrina383, que

cunhada ainda durante o processo de independência, teve que ser reformulada e reforçada para sustentar o governo do Imperador. Por outro lado, João Maria e Chapuis formaram o grupo dos “liberais”. Através de seus jornais, Atalaia da Liberdade e O Verdadeiro Liberal, além do panfleto Reflexões sobre a Carta de Ley, de Chapuis, participaram ativamente na constituição e redefinição do contexto linguístico brasileiro no ano de 1826, trazendo novos assuntos para a discussão como o federalismo, e modificando outros, como soberania e liberdade. Formaram grupos políticos heterogêneos e desconexos, mas com características e vocabulários políticos em comum. Reconheciam-se como aliados384 e se diferenciavam uns dos outros através de apelidos pejorativos. Eram verdadeiras

381 LISBOA, José da Silva. Inviolabilidade da Independência e Gloria do Império do Brasil

sustentada apezar da carta de ley: reflexoens contra as reflexoens de M. Chapuis. Rio de Janeiro:

Imperial Typographia de Plancher, 1826.

382 O autor não se identificou no panfleto, porém através de sua escrita e dos assuntos tratados é

possível identificar que se trata de frei Sampaio. SAMPAIO, Francisco de. Contradicta à Mr.

Chapuis. Rio de Janeiro: Typographia Imperial e Nacional, 1826.

383 Para se consolidar, um amplo vocabulário político foi formado e pode ser identificado – com

pequenos graus de variação – em autores anteriores e posteriores aos áulicos por nós analisados. Todos tinham em comum a defesa de um governo forte pautado na centralização do poder em D. Pedro I. Sobre linguagens políticas secundárias, conferir: POCOCK, J. G.A. Linguagens do Ideário

Político. São Paulo: Edusp, 2003, especialmente os dois primeiros capítulos.

384 Já em seu primeiro número, o Verdadeiro Liberal trouxe um resumo dos jornais publicados no Rio

de Janeiro. Nesse resumo, dividiu os periódicos em categorias: “Liberais”, nos quais eram incluídos o

Atalaia da Liberdade e o Despertador Constitucional, e os jornais “servis”, onde estavam o Triumpho

da Legitimidade e o Spectador Brasileiro. Por sua vez, o Spectador publicou uma série de cartas de Hum Servil que chamava os periódicos Verdadeiro Liberal e Atalaia da Liberdade de “Liberais, aliás jacobinos” e denominava os defensores de governo “servil”. Cf. O Verdadeiro Liberal, nº 01, 02 de março de 1826; O Spectador Brasileiro, nº 257, 10 de abril de 1826.

forças políticas385, que em menos de quatro meses atuaram no Rio de Janeiro,

agitaram a imprensa e desapareceram.

Nesse combate impresso, Chapuis e Plancher foram os “líderes” de seus grupos, como analisaremos nos tópicos subsequentes. Ambos tiveram atuações intensas e marcantes, se envolvendo em todas as discussões – ainda que de maneira genérica em algumas - e protagonizando as acusações de anarquismo e servilismo. Por outro lado, Cairu e frei Sampaio se limitaram a responder a Chapuis através de seus panfletos e cartas, ou a denegrir a forma de governo republicano. Já João Maria, acabou ficando na sombra de seu aliado não tendo atuação tão destacada quanto a de Chapuis.

A análise dos grupos em conjunto só foi possível quanto aos seus projetos políticos. Isso se deu por constatarmos que os liberais não tiveram visão homogênea sobre questões sociais e econômicas. O caráter e os objetivos pontuais das publicações dos áulicos Cairu e Frei Sampaio entre os anos de 1825 e 1826, também dificultou a análise conjunta dos áulicos. Dessa maneira, buscando minimizar os prejuízos da compreensão de seus vocabulários políticos, separamos a análise em assuntos pontuais, como Guerra da Cisplatina, escravidão e economia, e na análise conjunta de seus vocabulários políticos.

Por fim, destacamos que Chapuis e Plancher foram os principais atores dos espaços públicos na primeira metade de 1826. O protagonismo de ambos os jornalistas se evidenciou por tratarem mais exaustivamente de assuntos correntes na cena pública fluminense, como escravidão e economia, e por serem os mais lembrados pelos adversários. Vindos da França, foram os protagonistas da cena pública brasileira de 1826.