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Os liberais se autodenominavam jornais de “oposição”386. Constantemente criticavam as atitudes do ministério e davam publicidade a excessos de poder dos funcionários públicos. Contudo, o que deixou claro seu papel de “oposição” foram as notícias referentes à Guerra da Cisplatina.

385 BENTIVOGLIO, Júlio. Cultura Política e Consciência Histórica no Brasil: uma contribuição ao

debate historiográfico sobre a formação dos partidos políticos no Império. In: Diálogos, v. 14, n. 13, p.535-556, 2010.

386 O Verdadeiro Liberal, nº 3, 07 de março de 1826; Atalaia da Liberdade, nº 10, 10 de março de

O alto custo econômico, os insucessos militares e as pressões diplomáticas387 fizeram com que a Guerra da Cisplatina se transformasse em um dos principais pontos de crítica ao governo de D. Pedro I. Essa crítica iniciou-se já no começo do confronto, com Chapuis e João Maria na imprensa em 1826.

O ataque liberal na imprensa não passou despercebido pelos áulicos que revidaram. Preocupado em manter a boa imagem do governo pedrino, em 1825 Cairu iniciou a publicação do Triumpho da Legitimidade, mas se resumiu a justificar a guerra e debater com o periódico argentino Argos. Já o Spectador se concentrou na crítica interna dos liberais, e teve atuação destacável como defensor das ações militares brasileiras.

Para o periódico áulico Spectador, a guerra seria curta, pois Buenos Aires vivia em constante estado de agitação e guerra civil, o que causaria o desmembramento do país. Em 1826 chegou a anunciar que “Mendonça, e Córdova se desligaram da Confederação, e retiraram os seus contingentes” e “já não havia nem um real do derradeiro empréstimo pedido à Inglaterra”388.

O Spectador também defendia os comandantes brasileiros. Visconde de Laguna, comandante do 5º Regimento da Cavalaria, por exemplo, era conhecido pelos soldados como “um General tão benemérito, cujos cuidados, e desvelos para com o Exército do Sul, são bem notórios, e que lhes cumpre louvar durante a sua existência”389. E a marinha cumpria com “estreiteza e bom êxito” o “bloqueio”, o que muito contribui “para o feliz resultado das disposições do nosso Gabinete”390.

A guerra, ao menos segundo as páginas do Spectador, rumava para um final feliz. Para acelerar a vitória, acreditava que deveria haver “união para haver força”, e os brasileiros deveriam seguir “uma só vontade” para “acabar com os rebeldes, e salvar a Honra Nacional”391.

387 A escalada do conflito, sua resolução e seus problemas foi analisado mais detidamente em:

FERREIRA, Aline Pinto. Domínios do Império: o Tratado de 1825 e a Guerra da Cisplatina na construção do Estado do Brasil. 2007. 269 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2007; FERREIRA, Gabriela. Conflitos no Rio da Prata. In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo. O Brasil Imperial. v.1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

388 O Spectador Nacional, nº 255, 05 de abril de 1826 389 O Spectador Nacional, nº 250, 20 de março de 1826 390 O Spectador Nacional, nº 248, 15 de março de 1826 391 O Spectador Nacional, nº 220, 04 de janeiro de 1826

Os liberais foram mais pessimistas em relação à guerra. Diferente dos áulicos, que tratavam a guerra como uma agressão aos brasileiros392, o Atalaia a justificava como uma defesa do direito de conquista do Brasil sobre a Cisplatina393, o que desnacionalizava o conflito. Ao tratar sobre o andamento da guerra, o Atalaia chegou a afirmar que “as forças Patriotas [cisplatinas e argentinas] estão a ganhar efetivamente sem perderem uma só vez”. Essas notícias, segundo o periódico, não chegavam ao conhecimento do Imperador, pois os ministros temiam represálias. Argumentava também que os soldados brasileiros se preocupavam mais com “las Señoritas”, e o Conselho de Guerra nada fazia sobre isso394. Dessa maneira, buscava desmerecer os soldados, que mais se destacavam por sua atitude galanteadora para com as mulheres da Cisplatina, e o Conselho por não tomar nenhuma atitude em relação ao comportamento dos soldados brasileiros.

O pessimismo do Atalaia quanto à Guerra da Cisplatina ficou evidente durante toda a existência do jornal. O periódico alertava os leitores sobre o desastre da marinha resultante da imperícia do “Sr. Lobo” em bloquear os portos inimigos, e acreditava que, enquanto ele continuasse no comando, o Brasil só sofreria derrotas. A solução seria “entregar o Comando em Chefe da Esquadra do Rio da Prata ao Ilustre Diogo Jorge de Brito395”, conservando no arsenal da marinha “o experiente e honrado Pedro Antônio Nunes”396.

O aparecimento dos nomes de Brito e Nunes adquire grande importância para nossa análise. A ausência, nos jornais liberais, de ligações políticas explícitas, torna suas redes de relacionamento no Rio de Janeiro uma incógnita. Diogo Jorge de Brito principalmente, foi um dos poucos, senão o único, a ser sistematicamente elogiado por Chapuis e João Maria.

O Verdadeiro Liberal comungava das ideias do Atalaia. Acusava os jornais fluminenses de parcialidade ao não publicar as verdadeiras notícias, e se propôs a

392 Triumpho da Legitimidade, nº 01, 09 de dezembro de 1825. 393 Atalaia da Liberdade, nº 03, 22 de fevereiro de 1826

394 Atalaia da Liberdade, nº 06 de 01 de março de 1826

395 Brito foi um militar de destaque durante o Primeiro Reinado, sendo nomeado chefe de esquadra,

capitão de mar e guerra, comandante dos guardas-marinha e diretor da academia da marinha. Foi Ministro da Marinha em 1828, e escreveu diversas obras oficiais relacionadas a navegação. BLAKE, Augusto Vitcorino Alves Sacramento. Diccionario Bibliographico Brazileiro. 2º vol, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1895, p.180

396 Pedro Antônio Nunes foi um militar brasileiro que passou pelos cargos de Chefe de Divisão e se

destacou como Capitão-de-Mar-e-Guerra durante a Independência. Cf. Diário Fluminense, nº 103, 9 de maio de 1826; Atalaia da Liberdade, nº 06, 01 de março de 1826.

imprimir suplementos com notícias extraídas dos jornais de Buenos Aires397. Nas notícias transparecia o pessimismo em relação ao conflito, pois os “negócios do Sul podiam ir melhor”, mas não “estão no caso de se perderem as esperanças”. Mesmo as vitórias que o exército brasileiro conquistava eram desmerecidas. O jornal chegou a noticiar uma batalha onde duzentos soldados inimigos morreram, enquanto apenas cinco soldados brasileiros foram mortos, entretanto,

[...] não deve admirar, pois todos sabem, que os sitiadores inteiramente descobertos devem perder muito mais gente, do que os sitiados, que estão sob o abrigo dos seus entrincheiramentos398.

Também criticava duramente os comandantes. O primeiro alvo do periódico foi o comandante de armas da Cisplatina, Francisco de Paula Magessi Tavares de Carvalho. Para ele, Magessi “não está em estado de corresponder ao que dele se espera”, tornando necessário um general “que trabalhe em pessoa, o que não fazia o General Lecor, que mandarão retirar, e não fará o General Magessi, que lá ficou”399.

Outro alvo era Rodrigo Lobo. Ele seria incompetente e covarde, pois teria fugido de uma batalha contra o Almirante Brown400. Além do mais, Lobo não seria capaz de realizar o bloqueio, no que perguntava “porque então se obstinam em conserva-lo a testa das forças navais naqueles lugares?”. Afirmava que a esquadra necessitava de um novo chefe, “porque o que a comanda não parece em estado de o ser”401. A resolução do problema seria, assim como para o Atalaia, colocar Diogo Jorge no comando da marinha. Jorge era tido o comandante necessário, corajoso e valoroso, uma vez que havia lutado “apoiado em muletas, ainda enfermo das feridas que recebera”402.

Pari passu, o Atalaia e o Verdadeiro Liberal iniciavam as críticas contra a guerra. Segundo esses periódicos, as vitórias não vinham, a guerra se arrastava e os comandantes eram incapazes. Tornava-se necessário trocá-los, – principalmente o comandante Rodrigo Lobo - e inserir homens valorosos como Diogo Jorge Brito, para que assim o Brasil fosse capaz de vencer o conflito.

397 O Verdadeiro Liberal, nº 02, 04 de março de 1826. 398 O Verdadeiro Liberal, nº 02, 04 de março de 1826. 399 O Verdadeiro Liberal, nº 05, 11 de março de 1826 400 O Verdadeiro Liberal, nº 09, 21 de março de 1826 401 O Verdadeiro Liberal, nº 14, 01 de abril de 1826 402 O Verdadeiro Liberal, nº 09, 21 de março de 1826

A ligação dos liberais com Brito é uma pista sobre suas relações políticas. Por mais que o militar não tenha tido atuação política destacável no Primeiro Reinado, ocupando apenas o cargo de Ministro da Marinha, a relação entre eles é confirmada com a publicação de uma carta de Brito no Verdadeiro Liberal, na qual ele agradecia os elogios e relatava acontecimentos da guerra403.

A inclusão da guerra da Cisplatina em nossa análise se justifica por ela ter representado um dos principais pontos de oposição dos liberais na imprensa fluminense, como foi demonstrado. Essa oposição foi sistematizada na segunda metade do Primeiro Reinado404, mas já em 1826 Chapuis e João Maria incomodavam o governo. Eles iniciaram, portanto, as críticas que seriam retomadas e aprofundadas posteriormente e, nesse sentido, contribuíram para o desmonte da persona do Imperador e começaram a agitar a cena pública fluminense.