Uma das estratégias retóricas mais utilizadas e importantes do período era a atribuição de modelos para ilustrar o ideal de uma pessoa ou instituição468. Observamos que o Spectador e o Verdadeiro Liberal veicularam em seus periódicos modelos de soberanos para D. Pedro seguir, o que nos dá indícios de suas ideias sobre a missão da monarquia e do governo.
O modelo para Chapuis seria o Rei da Baviera469. Segundo ele, quando subiu ao trono, o rei bávaro teve como primeira atitude “o alívio dos povos”. Para isso,
Ele tem nomeado comissões para fazer reformas, e as tem presidido com assiduidade. Seu zelo não se limita a palavras, e a promessas, este Príncipe dá ele mesmo o exemplo da economia [...] Tem diminuído pensões não merecidas, ou concedidas a homens ricos; ao mesmo tempo que tem cuidadosamente conservado, e aumentado as pequenas pensões dos pobres, das viúvas, dos órfãos, e dos jovens estudantes470.
465 JÚNIOR, João Feres. El concepto de América em el mundo atlántico (1750-1850): Perspectivas
teóricas y reflexiones substantivas a partir de una comparación de múltiples casos. In: SEBASTIÁN, Javier Fernández (Org.). Diccionario Político y Social del Mundo Iberoamericano. Madrid: Centro de Estudios Políticos y Constitucionales, 2009, pp.62-64; JÚNIOR, João Feres; MÄDER, Maria Elisa. América/Americanos. In: JÚNIOR, João Feres (Org.). Léxico da História dos Conceitos Políticos
do Brasil. Minas Gerais: Editora UFMG, 2009, p.25.
466 FONSECA, Silvia Carla Pereira Brito. A América como um Conceito: contribuição para o estudo da
imprensa republicana fluminense e pernambucana entre 1829 e 1832. In: Cadernos do CHDD, ano IV, número especial. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão; Centro de História e Documentação Diplomática, 2005, p.70.
467 FONSECA, 2005, p.69.
468 Um modelo seria a representação do ideal que uma pessoa ou instituição deveria ter. Para
apresenta-lo, normalmente é utilizado um exemplo semelhante ao alvo, mas que contenha todas as qualidades e características que devem ser seguidas. Para valorizar seus modelos, os oradores tendem a omitir ou inventar características que possam torna-lo mais perfeito. PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005, p.414.
469 Quando Chapuis publicou tais notícias, no ano de 1826, o rei bávaro era Luís I. Não sabemos se
os fatos são verídicos, mas, caso não sejam, não prejudica a formação de um modelo à ser seguido por D. Pedro I.
O rei também seria religioso, pois “A bondade natural do Príncipe é fortificada por um verdadeiro sentimento de religião”471. Nem mesmo sua debilitada condição física o impediria de trabalhar em prol dos povos, pois, como havia dito o rei, ele devia
Sacrificar a minha vida ao meu povo; mui ditoso se abreviando os meus dias abreviar os seus sofrimentos. A perda de um Rei repara-se no dia seguinte; mas são necessários longos anos para reparar os males, que uma má administração pode causar a uma nação472.
O rei da Baviera não permitia abuso de poder por parte de seus funcionários. Consta que o rei havia dito ao Intendente Geral da Polícia que não queria que a polícia penetrasse na intimidade dos cidadãos para descobrir “segredos das famílias”. Por causa dessas atitudes preocupadas com o povo, o rei havia sido conhecido como “rei dos camponeses” e declarado que esse era o “mais belo sobrenome, o único que ambiciono”473. Com isso, o rei modelo para Chapuis seria um rei zeloso com as finanças, bondoso com os pobres e ciente de que, mais importante que a realeza, era o povo, pois a “perda de um Rei repara-se no dia seguinte”, e os males causados ao povo duravam vários anos474.
Enquanto Chapuis exaltava o rei da Baviera, Plancher tinha como modelo Napoleão Bonaparte475. Segundo ele, Napoleão havia sido o “Gênio Salvador da França, na formidável época da Anarquia Jacobina”476. Ele havia salvado a França da anarquia quando “mil Cidadãos” eram “sacrificados por infames Demagogos”. Foi capaz de parar a revolução, fazer “entrar a França na Sociedade da Europa”, estabelecer a tranquilidade e finalizar a anarquia revolucionária477. Foi ele quem
[...] mostrou o Código das leis, e a Religião, a moral, a Justiça banidas então subirão de novo sobre altares; facções incendiarias cingiam de famintos punhais os pórticos do Cidadão tranquilo, do Amigo das ciências, e das Artes; ele desembainhou a espada, e os assassinos beijarão o pó tremendo com receio da vingança478.
Ambos os jornalistas propunham modelos de rei distintos. Chapuis preferia um rei que se preocupava com a liberdade dos cidadãos, coibindo os abusos dos funcionários públicos e se preocupando, em primeiro lugar, com a felicidade do
471 O Verdadeiro Liberal, nº 07, 16 de março de 1826. 472 O Verdadeiro Liberal, nº 10, 23 de março de 1826. 473 O Verdadeiro Liberal, nº 13, 30 de março de 1826. 474 O Verdadeiro Liberal, nº 10, 23 de março de 1826.
475 Essas eram as opiniões de Plancher sobre o período napoleônico. Vale lembrar que, diferente do que se
pode imaginar, Bonaparte não era uma unanimidade entre os franceses.
476 O Spectador Brasileiro, nº 20, 13 de agosto de 1824. 477 O Spectador Brasileiro, nº 161, 12 de agosto de 1825. 478 O Spectador Brasileiro, nº 20, 13 de agosto de 1824.
povo. Já Plancher preferia um rei capaz de manter a ordem e que governasse de acordo com a “massa de uma Nação”. Esse rei deveria ser forte e capaz de fazer a nação entrar em conformidade com a Europa.
Suas ideias sobre os reis ideais nos dão indícios sobre o principal debate travado na época. Se Chapuis defendia um rei capaz de garantir a liberdade do povo, Plancher preferia um rei forte o bastante para garantir a ordem. Opunham-se entre a esfera da liberdade e a esfera do poder479, e projetavam modelos distintos. Esse debate é o que mais marcou a diferença entre áulicos e liberais, o debate sobre a abrangência da liberdade e seu conflito com o governo ou da importância da ordem e sua relação com a soberania. É em vista dele que devemos analisar seus projetos políticos em conjunto, o que será feito no próximo tópico.