O início do século XIX marcou a ascensão da Inglaterra como potência mundial. A ascensão inglesa fez com que o liberalismo econômico ganhasse destaque e se mostrasse ao mundo como grande promessa comercial. Essas ideias apareceram quase como unanimidade para os intelectuais brasileiros do século XIX427. Porém, em 1826, Plancher e Chapuis trouxeram propostas distintas para a economia, suscitando um importante debate na imprensa que opunha fisiocratas e liberais. Para Plancher, a referência econômica que o Brasil devia ter era a Inglaterra. Ela oferecia “ao mundo um espetáculo bem digno de fixar a atenção dos homens do
424 Segundo Marcello Basile, nem mesmo os exaltados tinham concepção uniforme sobre o assunto.
Cf. BASILE, Marcello Otávio Neri de Campos Basile. Anarquistas, Rusguentos e Demagogos: os liberais exaltados e a formação da esfera pública na corte imperial (1829-1834). 2000. 303 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2000, p.86.
425 YOUSSEF, 2011, p.79.
426 A relação entre a escravidão e a política vem ganhado força nos últimos anos. Para Tâmis Parron,
existia uma “rede de alianças políticas e sociais costuradas em favor da estabilidade institucional da escravidão”. Essa linha interpretativa por demais rica, deve enfrentar alguns desafios, como a relação entre a escravidão e a política no Primeiro Reinado, quando essas alianças ainda não estavam consolidadas.
427 Segundo Júlio Bentivoglio, o liberalismo econômico não tinha uma compreensão uniforme pela
elite brasileira. As peculiaridades brasileiras foram adicionadas ao sistema econômico clássico, gerando um liberalismo modificado pelas circunstâncias brasileiras. BENTIVOGLIO, Júlio Cesar. Liberalismo brasileiro no Oitocentos: pensamento político e ideias liberais nos debates parlamentares. In: CAMPOS, Adriana P.; SILVA, Gilvan V. da; NADER, Maria Beatriz et al. (Org.). A cidade à prova
do tempo: vida cotidiana e relações de poder nos ambientes urbanos. 1ed. Vitória: GM Gráfica e
Estado”. Era “uma Nação elevada acima de todas as outras pelo poder de sua indústria e de seu comércio”428. Sua elevação se devia à “liberdade das transações civis e comerciais”429, e o comércio era “a mais abundante” força de desenvolvimento do Estado430, a “fonte da vida das Nações, de suas riquezas e de sua consideração para com os Estrangeiros”431. De acordo com Plancher, o desenvolvimento inglês se devia, em grande parte, a Adam Smith, o “precursor de uma época mais iluminada”, que lutava sozinho contra “os prejuízos do século”. Ele e seus seguidores eram “considerados como sonhadores, e visionários perigosos”, mas, com o sucesso econômico inglês, se transformaram em “Legisladores” e “benfeitores do gênero humano”, sendo suas obras o “Evangelho econômico de sua Pátria”432.
No oposto do livre comércio inglês estava o arcaico, o supersticioso que oprime e impede o comércio, a “quem sempre teve uma aversão inextinguível”. Dentre esses países arcaicos estariam a Índia, Egito, Espanha e Roma. Do outro lado estavam os Estados modernos, como Inglaterra, Estados Unidos, Países Baixos, Prússia e Suécia433.
Em vista disso, o periódico fazia recomendações ao Brasil. Deviam ser quebradas as “cadeias que embaraçam os progressos”, pois a liberdade de comércio era o “único fundamento da felicidade pública”. Era necessário “um sistema sábio, prudente, justo, e equitativo, um sistema libertador”, capaz de conciliar os interesses nacionais. Teria que incentivar as Associações, e melhorar o sistema de comunicação entre as províncias, para que os produtos pudessem chegar em melhores condições e serem mais competitivos no mercado europeu. Era, enfim, necessário incentivar o comércio e liberalizar a economia434.
Chapuis tinha posição diametralmente oposta à de Plancher. Para ele, o Brasil devia se especializar na agricultura, e se afastar o quanto possível dos ingleses. Em sua visão, apenas os “estados cultivadores” contém “um princípio de força, sempre
428 O Spectador Brasileiro, nº 05, 05 de julho de 1824. 429 O Spectador Brasileiro, nº 05, 05 de julho de 1824. 430 O Spectador Brasileiro, nº 53, 03 de novembro de 1824. 431 O Spectador Brasileiro, nº 05, 05 de julho de 1824. 432 O Spectador Brasileiro, nº 05, 05 de julho de 1824. 433 O Spectador Brasileiro, nº 173, 12 de setembro de 1825.
434 Respectivamente, O Spectador Brasileiro, nº 220, 04 de janeiro de 1826, nº 246, 10 de março de
renascente, e independente de socorros estranhos”, e, por isso, eram “sempre superiores aos estados mercantes, a quem o tráfico do comércio, e os talentos fortuitos de alguns dos seus membros” podem, temporariamente, “fazer-lhes representar o papel de potência preponderante” como a Inglaterra, mas “não podendo continuar no papel de potência preponderante se arruinará para o conservar”435. Exemplo disso era a bancarrota que a Inglaterra, segundo o periódico, estava sofrendo em 1826436. A agricultura devia ser protegida a todo o custo, e a escravidão ser mantida para sustentá-la, pois a abolição imediata destruiria toda a fonte de progresso do Estado437.
Chapuis nutria um sentimento extremamente negativo pela Inglaterra. Para ele, lá habitavam “lobos vorazes, sequiosos de ouro, que andam envolvidos em peles de mansos cordeiros”438. Em sua opinião, os ingleses visavam e tentavam, de toda maneira, provocar a falência do Brasil. Exemplo disso era a exigência pelo fim da escravidão, que, se escondendo atrás dos ideais de “humanidade e filantropia”, buscavam fazer prevalecer seus interesses econômicos. O que eles queriam, na verdade, era aumentar o mercado para seus produtos agrícolas, como o açúcar, o café e o algodão. Prejudicando a economia brasileira, terminando com a escravidão e isolando o país do restante do mundo, teria um concorrente a menos, pois sabiam que, quando a Europa quisesse buscar outros fornecedores, a América seria a primeira opção. Para evitar isso, a Inglaterra buscava prejudicar a economia brasileira439.
A visão negativa que Chapuis tinha dos ingleses não foi característica exclusivamente sua. Segundo Gladys Sabina Ribeiro e Vantuil Pereira440, alguns brasileiros viam a Inglaterra de maneira negativa por causa de sua frequente intromissão em questões econômicas e políticas. A defesa do distanciamento dos ingleses e a valorização da economia agrícola fazia parte de um projeto nacionalista
435 O Verdadeiro Liberal, nº 02 de março de 1826 436 O Verdadeiro Liberal, nº 01, 2 de março de 1826 437 O Verdadeiro Liberal, nº 08, 18 de março de 1826 438 O Verdadeiro Liberal, nº 04, 9 de março de 1826 439 O Verdadeiro Liberal, nº 08, 18 de março de 1826.
440 RIBEIRO, Gladys Sabina; PEREIRA, Vantuil. O Primeiro Reinado em Revisão. In: GRINBERG,
– por mais que ele não fosse brasileiro441 – que buscava a nacionalização e a independência econômica.
Além disso, Chapuis também defendia um peculiar projeto econômico para o século XIX, a fisiocracia. Tal sistema havia sido criado antes da Revolução Francesa, e não foi aplicado em nenhum lugar do mundo em sua completitude442, restando apenas alguns resquícios durante os oitocentos.
Por outro lado, Plancher portava o projeto tradicional da elite brasileira, o liberalismo baseado em Adam Smith443. No entanto, em detrimento do sonho liberal, a elite intelectual se chocava com a realidade brasileira, marcada pela agricultura e por uma sociedade ainda tradicional. Dormiam com Quesnay e sonhavam com Smith, pois almejavam um liberalismo que não existia e viviam em uma economia basicamente agrícola e mais próxima da fisiocracia do que desejavam444.