3. Materials and methods
3.1 Study area and sampling procedures
Reflexão sobre o estágio na USF
O presente documento é apresentado no âmbito do Estágio com Relatório que decorreu entre 7 de Outubro e 1 de Novembro de 2013 em contexto de ACES. Os objetivos gerais do estágio consistiam em desenvolver competências de Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde da Criança e do Jovem e promover boas práticas de atendimento ao adolescente. Especificamente na USF onde estagiei pretendia principalmente, desenvolver competências de apreciação e interpretação do crescimento e do desenvolvimento da criança e do jovem, e num segundo objetivo específico, promover comportamentos de saúde e estilos de vida saudáveis no adolescente, no âmbito dos programas em curso na unidade de saúde. Esta USF, com 10765 pessoas inscritas, é bastante recente, com inauguração em Agosto de 2013 e como tal encontra-se num período experimental e de adaptação aos novos espaços, aos novos elementos na equipa de saúde e à nova população/cliente, para alguns profissionais que anteriormente não trabalhavam na localidade, o que inicialmente poderia ser uma dificuldade na minha própria integração na equipa, mas que dada a dinâmica da coordenadora de enfermagem e a sinergia já estabelecida entre a equipa, não veio a acontecer. Isto é, o acolhimento proporcionado, no sentido de poder observar, colaborar e participar nas atividades foi excelente, proporcionando-me momentos de reflexão em equipa sobre os cuidados de enfermagem. Estas reflexões, que se efetuavam frequentemente e com a discussão de casos (por exemplo, de uma criança de 6 meses com Síndrome de Down, de outra criança com 8 anos com obesidade, e de uma família desestruturada, em processo de responsabilidade e guarda parental), partilha de informação atualizada, reorganização de cuidados, gestão de horários, articulação com outros parceiros (UCC, UCSP, Hospital de referência, escolas), fizeram-me perceber e integrar a enorme responsabilidade profissional existente, assim como a exigência e a eficiência que esta equipa pretende obter com o seu trabalho.
A equipa desta USF tem como missão “prestar cuidados de saúde personalizados, globais, equitativos e de qualidade”, promovendo a participação e
autonomia dos cidadãos”.1 Sendo que, como observei, os cuidados de enfermagem
integram-se nas condições de vida das famílias e dos grupos sociais, com uma proximidade acentuada, promotora de um maior contacto ao longo de todo o ciclo de vida das pessoas, seja por estarem inseridos no seu ambiente, poderem conhecer e compreender melhor a situação de cada um, seja pela disponibilidade demonstrada, adequando eficientemente os cuidados de enfermagem.
Ao longo do tempo de estágio, integrei as minhas atividades no âmbito do Plano de Ação da USF no que respeita ao Programa de Saúde Infantil e Juvenil, onde a porta da USF está sempre aberta à população. A disponibilidade anteriormente referida é largamente demonstrada pela relação que se estabelece com a criança/jovem e família, onde se reorganizam os cuidados em torno das necessidades individuais dos utentes.
Numa perspetiva de disponibilidade, mas também de oportunidade para a intervenção de enfermagem, efetuam-se atividades, por exemplo, de esclarecimento de dúvidas a outros utentes nos intervalos de consultas previamente marcadas, de marcação de consultas de enfermagem no imediato, de se mobilizar rapidamente alguém da equipa de enfermagem para, no domicílio, efetuar atempadamente o diagnóstico precoce aquando da chegada de uma notícia de nacimento e aproveitar esse momento para o atendimento global à família, incluindo não só a consulta de saúde infantil, mas a consulta de saúde materna e paterna (esta última não está legitimamente descrita, mas porque não, quando estamos a promover a parentalidade e a avaliar a interação entre pai/RN?).
Claro que o custo da disponibilidade não deixa de ter alguns constrangimentos, quando por exemplo, ultrapassa os períodos de descanso da equipa; mas talvez seja um “mal necessário” num momento inicial de adaptação da população a uma nova organização de saúde, cujo objetivo é comprovar a sua qualidade e, intencionalmente, melhorar a acessibilidade a cuidados de saúde que respondam às necessidades da população inscrita.
O programa de Saúde Infantil e Juvenil da USF foi elaborado segundo as orientações mais recentes da Direção Geral da Saúde, tendo como objetivo “detetar e dissipar precocemente os problemas de saúde, promover comportamentos promotores da saúde bem como o desenvolvimento de capacidades parentais e apoio familiar”.2 Consistentes com os meus objetivos do Estágio com Relatório em
contexto de ACES, e com as competências que pretendia desenvolver de Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde da Criança e do Jovem, esta foi mais uma fonte de motivação e facilitadora da minha integração na equipa de saúde. Neste sentido tive oportunidade de observar, colaborar e participar ativamente nas intervenções e atividades nas consultas de saúde infantil, treinar a avaliação do crescimento e desenvolvimento utilizando a escala Mary Sheridan, adotada pela USF e principalmente, porque é necessário um planeamento do futuro, efetuei os cuidados antecipatórios promotores da parentalidade e do crescimento e desenvolvimento da criança e do jovem; por exemplo, no que respeita à nutrição, à higiene, ao repouso, ao exercício físico, ao brincar, à prevenção de acidentes adequados ao estadio de desenvolvimento da criança, e efetuando o respetivo registo no suporte informático SAPE, onde também fica logo prevista ou marcada a consulta seguinte.
A maior parte das consultas de enfermagem de saúde infantil em que participei, teve como utente o RN e família (incluindo avós), onde foram avaliados os aspetos relacionais, com especial atenção ao estado emocional da mãe, à dinâmica familiar e rede de suporte, identificando as suas necessidades de informação e educação, seja pelos comportamentos observados ou pelas dúvidas e preocupações demonstradas, seja pela deteção dos sinais de alerta (por exemplo um bebé inconsolável ou apático), para além do exame físico ao bebé e estado vacinal, entre outros. Nestas consultas tive a preciosa ajuda da enfermeira de referência. Inicialmente, com a necessidade própria de treinar a avaliação dos reflexos no bebé, não me apercebia que era necessário dar mais algum tempo para os pais manipularem o filho (e evitar estar eu a acariciar intencionalmente no sentido de o avaliar), isto porque se corria o risco de perder alguns dos momentos de avaliação da interação/relação familiar. Pelo que a enfermeira me alertou para outras formas
de aproximação, conversando primeiro com os pais enquanto eles despiam o bebé, o que se revelou um sucesso nas consultas em que tive oportunidade de efetuar autonomamente, porque me permitiu um espaço para, no mesmo momento, efetuar registos das observações enquanto os pais demonstravam o carinho pelo RN.
De modo a reduzir o número de deslocações aos serviços de saúde, adequar a acessibilidade e de acordo com a disponibilidade da família, conciliava-se a calendarização destas consultas com o esquema cronológico preconizado no Programa Nacional de Vacinação (PNV), conforme as orientações da DGS.3,4
Participei também em algumas consultas de enfermagem a crianças mais velhas, adequando sempre a minha linguagem ao seu nível de desenvolvimento, e neste âmbito participei com a enfermeira de referência, especialista no brincar, na mobilização deste instrumento terapêutico ao longo das consultas de saúde infantil, que por vezes se iniciavam logo na sala de espera. O brincar, apesar de parecer uma ação natural, tinha a intencionalidade de estabelecer uma relação de confiança entre criança/pais (numa perspetiva de parceria e integração de cuidados) e enfermeiro, de modo a não ser traumática, por exemplo, a exposição corporal para o exame físico, e obter a sua participação na aplicação da escala de avaliação de desenvolvimento, ou para a avaliação da tensão arterial a partir dos 3 anos., O brincar, considerado uma necessidade básica e uma experiência humana rica e complexa não pode ser descurado e assume-se como essencial ao desenvolvimento infantil porque ajuda a criança na sua adaptação e demonstração da realidade onde vive, proporcionando ao enfermeiro informação valiosa sobre a mesma.
Esta equipa de saúde articula-se com a Equipa Local de Intervenção da UCC, no que respeita a crianças/famílias com incapacidade, em situação de risco ou maus tratos, no entanto durante o período de estágio não foi necessário efetuar novas sinalizações, mas efetuado o contacto com a enfermeira da referida equipa quando eram detetadas situações de risco, tendo sido confirmado que as famílias já estavam referenciadas e acompanhadas, pelo que foi registado no processo informático.
3 Direção-Geral da saúde. (2013). Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil. Lisboa:
DGS.
No que se refere ao utente adolescente, apenas participei num exame global de saúde, onde a adolescente estava acompanhada pela mãe. Foi assegurada a privacidade e confidencialidade e efetuado um momento de consulta a sós, proporcionando o esclarecimento de dúvidas e a entrevista sobre temas potencialmente mais sensíveis como a sexualidade e os consumos nocivos e, objetivamente promover a autoestima do adolescente e a sua autodeterminação nas escolhas relativas à saúde. Sobre esta consulta, optamos por uma estratégia de inicialmente comunicar com a jovem e mãe, estabelecendo uma relação de confiança, e depois encaminhámos a mãe para o gabinete médico, com o consentimento da jovem em falar connosco a sós mais um pouco; isto porque, não as conhecendo previamente, a jovem poderia não estar à vontade para demonstrar um desejo de maior privacidade.
Relativamente aos cuidados antecipatórios e à promoção da saúde em grupo, o trabalho desta equipa também se articula com a equipa de saúde escolar da UCC, sendo que participei em 2 sessões de informação/educação para a saúde numa escola da localidade, envolvendo as crianças do 1º ano do 1º ciclo do Ensino Básico, no tema da saúde oral em colaboração com as professoras.
Ao nível individual, nos cuidados antecipatórios à criança/jovem e família, independentemente do tema, procurava para além da comunicação verbal, entregar a informação escrita, nomeadamente os diversos folhetos/panfletos existentes da USF, DGS ou outras instituições relevantes, como a APSI no que respeita à prevenção de acidentes e à segurança da criança. Especificamente em relação à diversificação alimentar no lactente, tive a necessidade de elaborar um novo folheto, por um lado, com as diretrizes mais atuais e por outro, para promover uma maior coesão na informação que a equipa de saúde transmite aos utentes. Neste sentido, em colaboração com a enfermeira de referência, elaborei e apresentei em sessão formal à equipa de saúde, duas propostas de folhetos sobre a diversificação alimentar, um dirigido a pais de lactentes alimentados com leite materno e outro destinado aos pais com filhos alimentados com leite adaptado. A sessão decorreu de forma bastante positiva e tendo os folhetos sido aprovados, penso que contribui para melhorar a qualidade dos cuidados prestados pela equipa da USF.
Avalio muito positivamente este período de estágio porque por um lado, inicialmente senti alguns constrangimentos em sair da minha “zona de conforto” do meu local de trabalho hospitalar para integrar uma equipa de cuidados de saúde primários, e iniciar um momento novo do curso de especialização, que é o estágio numa perspetiva de profissional experiente, mas que neste local poderá considerar- se iniciado. Por outro lado, tive a oportunidade de colaborar com enfermeiras sensíveis às necessidades de cada cliente, com intervenções, na minha perspetiva, derivadas de todo um processo de tomada de decisão com vista ao bem-estar da criança/jovem e família, coordenadas por uma enfermeira especialista com quem aprendi a desenvolver várias competências técnicas e relacionais de EEESCJ. Especificamente, ao nível de competências comuns de enfermeiro especialista, interiorizei competências no domínio do desenvolvimento das aprendizagens profissionais, pela sua atuação na minha supervisão e orientação, ou seja, foi um modelo facilitador da aprendizagem, que me permitiu gerar respostas de elevada adaptabilidade individual e organizacional e, que pretendo seguir no meu contexto profissional, na supervisão em enfermagem.
31 de Dezembro de 2013 Maria Inês Pereira Serrão