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5. Discussion

5.4 Fractionation

Reflexão sobre o estágio na UIA

Neste documento de síntese reflexiva sobre a minha experiência numa Unidade de Internamento de Adolescentes (UIA), em contexto de hospital, vou optar por descrever as principais atividades desenvolvidas, entre 4 e 24 de Novembro de 2013, e através da reflexão sobre as práticas demonstrar em como estas contribuíram para a concretização projeto específico.

Preconiza-se que o internamento na UIA esteja relacionado com a idade “de modo a responder á necessidade dos adolescentes terem um espaço próprio”, sendo que habitualmente admite utentes a partir dos 8 anos de idade inclusive, tendo o serviço seguido as orientações da Direção Geral da Saúde de 2005 que aponta para “normas de funcionamento e de procedimento adequado ao grupo etário, com ênfase particular em matérias de humanização como privacidade e confidencialidade, participação nas atividades do serviço, gestão de espaços de convívio, visitas”12.

Entre as atividades desenvolvidas observei e participei na prestação de cuidados de enfermagem especializados aos adolescentes e família, integrando a equipa multidisciplinar, como por exemplo no acolhimento ao utente. No processo de admissão e acolhimento do adolescente no serviço, este é previamente referenciado de modo a adequar o espaço à sua situação clínica, idade e para ficar num quarto com utentes do mesmo sexo. Pela minha observação, raramente é possível prever a hora de chegada, porque depende do serviço de origem, frequentemente o utente chega no momento de passagem de turno de enfermagem, tendo como consequência um acolhimento inicial onde a interação é mais superficial, mas que pode ser reforçada com a transmissão de informação entre enfermeiros, nomeadamente identificando as intervenções já efetuadas.

No acolhimento entreguei o Guia de Acolhimento com informação para pais e acompanhantes e um Inquérito de Avaliação da Satisfação dos adolescentes em relação ao serviço adotado na UIA, com esclarecimento sobre as informações existentes nos mesmos. Refletindo posteriormente sobre estes dois documentos, pergunto-me o porquê do guia ser

1 Centro Hospitalar, EPE. (2010). Admissão na unidade de Adolescentes. Procedimento

Sectorial Área de Pediatria Médica. ADD.1047.

para os pais, e não existir um para o adolescente e, neste sentindo talvez, (se me tivesse apercebido anteriormente, com o efetuar de admissões logo nas primeiras semanas de estágio), devesse ter sugerido uma reformulação; tal como uma reformulação do inquérito, que está direcionado à comunicação entre adolescente e enfermeiros e assistentes operacionais, descurando toda a restante equipa interventiva seja médica, psicóloga, dietista, educadora, assistente social, assistente técnica, entre outros.

A dinamização do espaço jovem (sala de atividades) é uma característica da UIA, que pretende ir de encontro às necessidades específicas deste grupo etário, através da programação e desenvolvimento de atividades lúdicas e sessões de educação para a saúde dirigidas aos jovens, no sentido de promover quer a ocupação dos seus tempos livres como também para contribuir que estes possam obter informação que lhes permita adquirir ganhos em saúde. Neste sentido, integrando-me no seu objetivo, elaborei e apresentei uma sessão de educação para a saúde, dirigida aos adolescentes internados e disponíveis para participar, sobre o

Cyberbullying. Sendo o uso das tecnologias de informação e comunicação algo tão frequente

entre os jovens, é pertinente o objetivo geral de sensibilizar os adolescentes para adoção de comportamentos saudáveis na sua utilização.

A sessão decorreu em cerca de 30 minutos e tinha como objetivos específicos identificar as características do cyberbullying, alertar os adolescentes para os perigos resultantes da exposição de informação privada nas redes sociais, contribuir para a adoção de estratégias de proteção contra o cyberbullying e promover a partilha de ideias e interajuda entre o grupo. A sessão foi considerada bastante positiva pela enfermeira de referência e pelas 5 adolescentes raparigas que estiveram presentes. Estas tinham idades diversas entre os 12 e 16 anos, sendo que se verificou na adolescente mais velha um maior conhecimento sobre o tema com oportunidade de partilha sobre a sua experiência prévia. As 2 adolescentes mais novas não tinham conhecimento prévio, nem preocupações evidentes sobre o tema, embora utilizassem as tecnologias de informação, uma delas de forma autónoma e sem supervisão de familiares conforme constatei no internamento, o que me fez refletir sobre a necessidade de intervenção também junto dos pais.

Os adolescentes constituem um grupo que se insere numa faixa etária com necessidades específicas de saúde, pelo que a filosofia inicial da UIA se baseia na “oferta de

e espiritual, constituindo um espaço de internamento para jovens, independentemente do tipo de patologia (médico/cirúrgica)”3. Entende-se que a doença e a hospitalização representam

um fator de stress e crise importante para o jovem e para a família, logo o adolescente e o sistema familiar sofrem uma rutura do seu equilíbrio e da sua dinâmica funcional.

A necessidade de hospitalização de um adolescente é frequentemente encarada com perplexidade e medo, em vários tipos de transição (desenvolvimental, situacional e de saúde- doença), neste sentido, o cuidar do adolescente reveste-se de particularidades que assentam no seu percurso de vida em plena evolução, destacando neste contexto, as minhas intervenções de enfermagem ao nível da relação e comunicação, que facilitavam a expressão de sentimentos, necessidades ou preocupações dos adolescente e assim poderia minimizar os fatores de stress, com vista à adaptação à doença e internamento hospitalar e ao aumento de bem estar. Do ponto de vista da transição situacional, procurei a facilitação nas visitas dos amigos e o desenvolvimento em parceria com o adolescente e família de atividades de ocupação dos tempos livres, já que esta foi uma das suas necessidades identificadas, sendo que a família nesta UIA está presente.

A necessidade de privacidade, foi bastante referenciada neste contexto de estágio, principalmente porque as instalações não o permitem; há apenas 1 quarto individual, as instalações sanitárias, embora separadas por género, são partilhadas, não existem cortinas e biombos em todos os quartos, cujas portas têm janelas. Neste sentido é sempre necessário salvaguardar a privacidade, programando adequadamente os cuidados, por exemplo, proporcionar roupa no pós-operatório, ou, por outro lado, não interferir e salvaguardar quando o adolescente quer ter os seus momentos sozinho.

Um aspeto bastante valorizado nesta UIA prende-se com a alimentação do adolescente, existindo o cuidado de proporcionar, dentro da prescrição, a tomada de decisão sobre a sua dieta, com base nos seus gostos pessoais, personalizando-a, fazendo a articulação com a nutricionista e desta forma o adolescente sentir alguma autonomia, alimentar-se melhor e obter maior satisfação.

Ao nível da transição saúde-doença, os adolescentes referiam como problemático as manifestações da patologia (nomeadamente a dor) sendo que a maioria das atitudes

terapêuticas pretendiam o seu alívio e as restantes eram programadas de modo a serem efetuadas segundo a disponibilidade e o consentimento do jovem, por exemplo, aguardar pela chegada da mãe, quando esta se ausentava.

Como profissional de saúde que cuida do adolescente hospitalizado, pretendi ao longo do estágio, adquirir competências e também aprofundar os meus conhecimentos no atendimento ao adolescente e das suas alterações decorrentes dos processos de adoecer e da hospitalização através da observação participante e de reuniões com os enfermeiros do serviço, de modo a poder prestar um atendimento adequado às necessidades deste grupo etário. Quando questionei a equipa de enfermagem sobre “quais são as principais preocupações neste serviço em relação aos cuidados ao adolescente? Ou “a equipa tem formação específica na área da adolescência?” penso que também estou, para além de obter contributos para mim própria, a promover a reflexão sobre o atendimento neste grupo etário. Os elementos questionados referiram que não têm formação específica nesta área, mas cada um com um interesse especial e com capacidade própria no atendimento, no entanto percecionam-se sem dificuldades no atendimento, com uma aprendizagem contextual, não uniforme, o que está evidente nas diferentes formas de registo de enfermagem no processo clínico, ou seja, um maior ou menor registo de identificação, intervenção e avaliação dos aspetos de interação e relação do adolescente com os profissionais, família e outros adolescentes em relação aos aspetos da patologia.

De uma forma geral penso que apresentei uma atitude flexível, com abertura, sensibilidade, e competências para saber avaliar o comportamento dos adolescentes, as suas manifestações e preocupações, procurando estabelecer um ambiente facilitador do desenvolvimento dos mecanismos necessários à adaptação à hospitalização porque, relembrando Maas e Zagonel (2005) estes fatores levam-nos a reconhecer a importância de uma boa relação, com confiança e interação, evidenciando uma visão humanística4.

Foi um estágio com alguns constrangimentos, e que de certo modo foi contrário a algumas das perspetivas que tinha, o que é perfeitamente possível, quando fazemos projetos

4 Maas, T. & Zagonel, I (2005). Transição de saúde-doença do ser adolescente hospitalizado.

para um local onde não trabalhamos e só temos parte da informação. Este foi o contexto onde esteve mais evidente a atual “crise” que o país atravessa. Se por um lado idealizamos um serviço amigo dos adolescentes, por outro, diversas forças o fazem corresponder a um serviço que abrange outras idades e onde, lado a lado com adolescentes com doença cirúrgica aguda, se torna necessário colocar uma jovem com doença crónica grave do foro neurológico. Não digo que o interesse do doente não estivesse em primeiro lugar, associado à falta de vagas noutro local, mas a disponibilidade para o atendimento ao adolescente na vertente da sua transição desenvolvimental ou de saúde-doença fica sem dúvida comprometida.

31 de Dezembro de 2013 Maria Inês Pereira Serrão