A professora nos relatou que no início do ano quando recebeu os alunos estrangeiros pensou: “o que vou fazer com eles?”. (DIÁRIO DE CAMPO, 19/11/2007).
Apesar da insegurança inicial relatada pela educadora PAE, o discurso em torno dos professores estarem preparados para o trabalho pedagógico com o aluno estrangeiro apontou para uma despreocupação da escola em relação a uma formação específica para esses profissionais, o que pode ser observado nos trechos subsequentes:
Entrevista com a diretora D, dia 30/11/2007:
(122) P: [...] D. + como é que a direção + né + aqui representada por você + age a respeito do professor que recebe essas crianças estrangeiras em sala de aula? Há algum tipo de preparação + de conversa + de apoio + da sua parte em relação a esse professor? [...]
(125) D: Não é nada disso. Não há preparação + por quê? Por aquilo que una vez eu já te disse aqui: a gente vê a criança + a gente não vê o idioma. [...]
(127) D:E criança é criança + aqui ou na China + em qualquer lugar. Então assim + o que o que nós avaliamos... não é que avaliamos + o que é que nós pensamos dessa criança? Pensamos que ela tem os ELEMENTOS NECESSÁRIOS para estar lidando com essa nova situação. O professor que trabalha aqui sabe que vai ter crianças estrangeiras na sala dele.
Verificamos na fala da diretora D. o pensamento de que a criança possui as mesmas condições para aprender uma nova língua ou uma nova cultura, independente de sua nacionalidade, e que também pelo fato de a escola receber
esse alunado com frequência, os professores não seriam surpreendidos, nem precisariam de qualquer preparação para lidar com discentes estrangeiros. Acerca dessa problemática, o sujeito da pesquisa assegurou que:
Entrevista com a professora PAE, dia 28/11/2007:
(126) PAE: [...] não existe uma preparação prévia. Eu lembro assim que + né? D. me chamou + me apresentou ao pai dele ((de AE1)) + falou para mim assim: “que ele ficaria + que ele::: ” A gente pensou no dicionário + D. falou: -“PAE+ qualquer coisa eu estou aqui + posso te ajudar”.
Na entrevista com PAE, ela reafirmou não ter recebido nenhum tipo de orientação anterior, todavia percebemos que a diretora D, também de origem argentina, se disponibilizou para ajudá-la e foi efetivamente consultada para que houvesse entendimento nos contatos iniciais com os meninos estrangeiros.
Conscientes, portanto, de que uma formação pedagógica que contemple o ensino de PL2 na escola regular pode trazer reais contribuições à adaptação, inclusão e aprendizagem das crianças estrangeiras, perguntamos aos entrevistados sobre que providências eles consideravam necessárias à educação do Rio Grande do Norte. Nessa ocasião, verificamos respostas diferenciadas, porém significativas. A diretora afirmou que:
Entrevista com a diretora D, dia 30/11/2007:
(183) D: [...] eu acho que é uma questão que + que é una conversa de longa data + que é + é o pensamento sobre esse educar. Então + eu acho que + não adianta você querer pensar só na criança estrangeira. Não adianta! Você querer montar uma escola + pensando: “há + porque eu vou receber um público estrangeiro”. [...] (185) D: “E eu vou fazer todo um programa de inclusão”. Não existe isso! É do mesmo jeito que quando você trabalha com criança de rua+ monta um projeto bonito querendo incluir a criança de rua e::: não consegue! Por quê? Porque você não está pensando na criança + você está pensando é::: no projeto de INCLUIR crianças de rua. Igual com o estrangeiro. A escola em nenhum momento está pensando em INCLUIR essas crianças estrangeiras. [...]
(187) D: A escola está funcionando como escola: repensando essa educação. [...]
A diretora D. ressaltou a importância de se superar as “receitas prontas”. Que embora uma instituição escolar possua um projeto bem estruturado, essa
organização teórica não tem peso algum se não houver uma mudança de mentalidade e, consequentemente, uma modificação da prática educativa.
Ela acrescentou ainda que a escola, na qual trabalha, não está preocupada com a inclusão dos alunos estrangeiros. Porém, sua fala acentuou a necessidade de repensar a educação e de enxergar a criança na sua totalidade, condição sine qua non para esse processo.A educadora PAE, por sua vez, mostrou-se mais insegura ao se posicionar diante da questão, afirmando:
Entrevista com a professora PAE, dia 28/11/2007:
(278) PAE: Bom + é::: ((suspira profundamente)) difícil pensar na + na::: na questão do estrangeiro quando a gente sabe que as escolas não::: são de um modo que + não atendem nem as necessidades dos brasileiros + né? [...]
(282) PAE: [...] eu acho + que cabe à escola + na verdade é ter que pensar no momento em que isso aconteceu [...] Pensar [...] acho que precisamente assim + como receber essa criança + sabe? A interação::: se tem alguém bilíngue + às vezes é bom. [...] Só que a gente sabe que não é uma realidade. [...]
(308) PAE: [...] Eu acho que não há uma preocupação pública + não é? Por isso é que eu te digo: eu creio que a responsabilidade vai recair MUITO sobre as escolas. [...]
(316) PAE: Então assim P. + concretamente eu não sei te dizer o que é que deveria ser feito. Eu acho que isso é uma realidade é::: TÃO + TÃO RECENTE + embora os estrangeiros já estejam aí a pelo menos há duas décadas + né? Que até agora realmente não houve a preocupação nem + nem assim + a nível escolar + menos ainda da Secretaria sobre o que fazer com essas crianças + né? [...] E aquela história: espanhol mal + que mal você consegue + por aproximação + se comunicar e entender. Mas... eu não sei te dizer o que aconteceria se recebêssemos uma + uma criança que fala inglês + por exemplo + né?
PAE indicou concretamente a necessidade de uma renovação das políticas educacionais e o redimensionamento das práticas docentes numa direção que contemple os direitos do estrangeiro à educação de qualidade e capacite os profissionais para o trabalho com essa realidade.
Esclarecemos que, para que essa transformação educacional aconteça, a instituição educacional deve incentivar os professores a buscarem informações sobre o espaço sócio-cultural de origem de seus alunos imigrantes e colaborar na formação pedagógica e didática específica para esse trabalho, através da interlocução com a academia, estudos e discussões coletivas.
6.2 RECORTES DO ENSINO DE PORTUGUÊS PARA CRIANÇAS