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Segundo a nossa forma de pensar, o ensino de PL2 é uma questão que merece ser considerada na formação do pedagogo do Brasil. Afinal, que conhecimentos são fundamentais para essa prática docente?

Como foi visto na segunda parte da dissertação, até a década de 90, mesmo na área de Lingüística Aplicada, não havia disciplinas acadêmicas que preparassem o professor para a sala de aula de PL2. E sabe-se que ainda hoje, existem programas curriculares que não estabelecem a necessária distinção entre PL1 e PL2.

[...] mesmo quando há consciência da necessidade de se diferenciar as situações, com raríssimas exceções, o professor que atua junto a uma comunidade ou grupo de alunos usuários de outra língua não teve a oportunidade de receber uma formação especifica para essas situações (GRANNIER - RODRIGUES, 2001, p. 4).

Numa visão mais avançada e aproximada desta pesquisa, Cunha e Santos (2002) declaram que os professores de PLE do Brasil se dividem em três situações de formação: graduados em Letras, geralmente professores em escolas de idiomas que não possuem experiência com PLE; leigos que trabalham ou não com esse

ensino no exterior; professores de Português como língua materna, em sua maioria, preocupados com a questão gramatical e estruturalista da linguagem.

Nessa direção, Almeida Filho (2007) evidencia a relevância de cursos de aperfeiçoamento para dois tipos de educadores:

• professores de PL136 que precisariam de um maior aprofundamento acerca do ensino de uma L2 (podemos incluir aqui os graduados em Letras e Pedagogia);

• professores de outras línguas como idioma estrangeiro (inglês, francês ou espanhol) que necessitariam além de saberes sobre a cultura brasileira, a formação em Língua Portuguesa, conhecimentos pedagógicos e referentes ao ensino de um segundo idioma.

A maioria dos pesquisadores em LA37

defende que o professor de PLE deve ser um especialista em Português, para conhecer bem os marcadores/ caracteres da língua (fonológicos, gramaticais, semânticos e pragmáticos) e as suas diferentes aplicações (formais e informais).

Concordamos com Almeida Filho (1997), Kunzendorff (1997) e Grannier – Rodrigues (2001) que não é suficiente para o educador de PL2 ser apenas falante nativo de Português. É necessário que ele compreenda a língua que vai ensinar, acreditando na relação entre ela e a L1 do discente; como se dá o processo de aquisição/aprendizagem de uma L2 e as abordagens metodológicas envolvidas na organização das aulas. O que implica no exercício de experimentar, julgar/avaliar, refletir, mudar, criar e recriar estratégias pedagógicas.

Abordar ou ocupar-se do ensino de uma nova língua significa, entre outras coisas tratar de enfocar, conceber, dar direção, aproximar-se de, acercar-se de, encaminhar, dar forma e sentido à tarefa de auxiliar profissionalmente aqueles que se candidatam a aprender essa língua-alvo. [...] Os professores de línguas precisam crescentemente poder explicar por que ensinam como ensinam, por que ensinam línguas assim e por que seus alunos aprendem como aprendem (ALMEIDA FILHO, 1997, p. 13).

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A realidade do mundo contemporâneo tem exigido de algumas escolas privadas a implantação do ensino de uma LE desde a primeira etapa do Ensino Fundamental (de 1º a 5º ano). Todavia, os pedagogos ainda desconhecem a importância desse trabalho para o desenvolvimento cognitivo das crianças (ALMEIDA, 2006).

37 Segundo Gimenez e Furtoso (2002, p. 42), estudiosos como Kunzendorff, Bittencourt e Ferreira defendem que o docente de PLE deve possuir conhecimentos em Linguística Aplicada, mas que esse ideal ainda está muito distante da realidade (substituição do técnico por graduado).

Nessa mesma linha de raciocínio, Moita Lopes (1996) assinala que a formação do professor/mediador de línguas deve abranger a teoria em torno da natureza do fenômeno linguístico, ou seja, entender que a aprendizagem sobre o novo idioma se dá num processo de construção, no qual a linguagem se caracteriza como resultado das interações sociais.

Acrescentamos a essa afirmativa que o pedagogo não deve se conformar com a idéia de que a criança tem muita facilidade para aprender uma L2 e, que por isso, ele não precisa intervir nesse processo.

[...] aprender a significar na língua estrangeira implica em entrar em relação com as outras pessoas, buscando experiências profundas, capacitadoras de novas compreensões e mobilizadoras de ações (MENEGHINI, 2004, p. 160).

Moita Lopes (1996) fortalece o nosso argumento ao expor que desde a formação acadêmica o professor/mediador de PL2 carece estar habituado a uma prática crítico-reflexiva, que proporcione a superação do dogmatismo presente na aplicação de métodos e técnicas pré-determinadas pela academia, normalmente utilizada por teóricos que desconhecem a realidade prática do ambiente escolar; isto é, o autor defende a ideia de que é preciso ser bem formado, para melhor formar.

Gomes de Matos (1997) e Bizon (1992) também definem que embora o docente esteja apoiado em materiais teóricos que tratam do EPLE, é importante que ele “mergulhe” nesse ensino, refletindo sobre o processo no qual ele e os alunos estão envolvidos e antecipando o que a teoria ainda não foi capaz de revelar.

Acreditamos que, cursar disciplinas que tratem da temática na graduação de Pedagogia, já possibilitaria noções sobre o que seja receber em sala de aula um aluno de outra nacionalidade. Colocamos, portanto, a necessidade da inclusão do aspecto relacionado à aprendizagem precoce de um segundo idioma, como sugestão, nas disciplinas Ensino de Língua Portuguesa I e II da UFRN, como uma maneira de fortalecer e apoiar a formação acadêmica dos estudantes de Pedagogia quanto ao EPL2.

O pedagogo também não tem que dominar o idioma materno de seu aluno estrangeiro, uma vez que essa não é uma responsabilidade da formação pedagógica. Todavia, é válido que ele se interesse pela cultura do sujeito que, por fazer parte de seus conhecimentos prévios e identidade, podem facilitar os

momentos de ensinar aspectos comunicativos que sejam muito diferentes nas duas línguas. Bizon (1992, p. 21 e 22) reforça essa idéia quando afirma:

O professor não precisa ser necessariamente bilíngue na sua língua materna e na do aluno, mas que tenha versatilidade e conhecimento de uso de recursos extra-linguísticos, fator esse muito importante, principalmente no início do processo de interação

Por fim, entendemos que não só a universidade se constitui como formadora do professor de PL2, mas a própria instituição escolar. Através do apoio diário da equipe pedagógica, da procura compartilhada por materiais sobre o assunto, da disponibilidade para discutir a respeito da prática educativa desse profissional e do auxílio junto aos alunos estrangeiros e seus familiares.

Verificamos que as ações de aprender e ensinar PL2 são fenômenos complexos, que abarcam a diversidade linguística, cultural e emocional de seus aprendizes e mestres. Por isso, torna-se imprescindível que o aluno seja considerado sujeito ativo e central do processo de ensino/aprendizagem; que a sua cultura e conhecimentos anteriores sejam eleitos como ponto de partida; que o currículo esteja adequado a essa nova situação e que a universidade e a escola possam caminhar lado a lado do professor, na busca pela igualdade de oportunidades a partir da aceitação das diferenças.

6 O ENSINO DE PL2 NA ESCOLA REGULAR DE PIPA: RELATOS E RECORTES