4. The Lightning Testimonies: Retelling the intolerable
4.2. Strategies of storytelling
Como o próprio nome sugere, esta categoria trata das convergências e divergências relacionadas às apropriação desigual do lazer, particularmente pelo gênero feminino. Em um primeiro momento trago situações ilustrativas dos Diários de Campo que explicitam algumas responsabilidades das mulheres com as quais mantive contato durante a estruturação da pesquisa. Diante destas (im)possibilidades, em um segundo momento, apresento as atividades de lazer (desigualmente) vivenciadas pelas integrantes, e que foram identificadas no estudo.
Para o MST, a luta pela terra é considerada uma luta da família, que inclui homens, mulheres, crianças, jovens e idosos/as com o objetivo de construir novas relações de gênero no interior do Movimento, deixando clara a necessária participação das mulheres. Historicamente, a divisão do trabalho nas sociedades tem ocorrido de forma a separar as tarefas a serem desempenhadas por homens ou mulheres, ou seja, as mulheres são consideradas incapazes (ou pouco) de desenvolver certas atividades. De acordo com esta visão enquanto os homens vão para as áreas de produção, as mulheres ficam em casa cuidando da educação, saúde e conforto dos filhos/as, do marido ou dos pais. Em um dos Diários de Campo, durante uma visita ao barraco de uma das companheiras do assentamento Mário Lago, podemos perceber que este estereótipo quanto ao papel da mulher no seio da família é reforçado.
Ao chegarmos ao Mário Lago descemos em um dos primeiros barracos da entrada principal do assentamento, local onde estavam os rapazes da reportagem. Fomos apresentados a eles, e começamos a conversar com uma assentada que era a dona daquele barraco. Ela estava feliz por nos rever novamente, e prontamente convidou para que pudéssemos tomar o café que ela tinha acabado de fazer. No barraco ao lado, havia pipoca, e fomos lá comer. A trabalhadora dona do barraco era muito simpática e nos acolheu muito bem. Quando indagada por Anton onde estava o marido dela, disse que ele havia saído para trabalhar e que voltaria mais tarde. A companheira lavava os utensílios domésticos, enquanto tomávamos café, comíamos pipoca e conversávamos com ela. Algumas de suas amigas também se encontravam presentes naquele momento. Passados poucos instantes, um dos rapazes responsáveis pela reportagem foi pegar o equipamento que utilizariam (IX-10). Cuidar de um filho pode ser uma tarefa ainda mais árdua, se a mulher não conta com o apoio do marido para lhe auxiliar. O caso de Bartolina reflete uma jornada ainda mais intensa, pois além da militância no MST, ela necessita dedicar atenção a sua filha pequena, além das responsabilidades relativas à graduação em Direito.
Bartolina estava na secretaria com sua filha de dois anos, e tinha que cuidar dela a todo o momento. Desde que frequento o Centro de Formação, ainda não tive a oportunidade de conhecer o pai da criança (XII-11).
Em algumas situações, mesmo com a presença do homem em casa, a mulher fica responsável por cuidar dos preparativos para a refeição. Dessa forma, o trabalhador fica liberado para descansar ou se divertir sem a preocupação de auxiliar nos afazeres domésticos (X-10).
As tarefas do Centro de Formação são divididas entre os companheiros quando não há a presença feminina neste espaço. Porém, quando encontramos uma grande quantidade de pessoas presentes no Sítio do Pau D’Alho, por ocasião de festejos, formações, cursos, os preparativos da alimentação ficam a cargo das mulheres.
Aos poucos foram chegando mais pessoas aquele espaço. Uma das companheiras que estava no Centro de Formação levantou para fazer café. Ela disse que a bebida foi feita no dia anterior, e ficou com ‘pena’ de nós. Disse para esperarmos que ela estava fazendo um café fresco (XII-2).
Chegando à Ciranda, cumprimentei algumas companheiras que estavam por lá preparando um pão caseiro para que todos/as pudessem comer. A mãe e a irmã do companheiro hospitalizado, desde que chegaram à Ribeirão Preto, assumiram a tarefa de preparar as refeições para os/as integrantes que frequentavam o Centro de Formação (XII-6).
A presença feminina no MST está presente não somente nos limites dos barracos, nota-se que o gênero possui representatividade na direção regional, na coordenação de setores, de núcleos de famílias, dentre outros tempos e espaços. Há uma tensão entre avanços e retrocessos no que se diz respeito às relações de gênero no interior do Movimento. A Ciranda Infantil “[...] é um espaço organizado por ocasiões de eventos, reuniões das instâncias representativas e outros momentos em que estão presentes as crianças de zero à treze anos. Este espaço possibilita condições para que as mulheres integrantes do MST possam participar de processos decisórios e produtivos dos assentamentos, e do Movimento como um todo” (V-1). A coordenação desse espaço educativo é realizada por uma companheira, e novamente podemos perceber um envolvimento feminino muito grande das mulheres na dinâmica deste. Como podemos observar:
Celso, muito entusiasmado, me falava sobre as atividades da Ciranda que dentre outras coisas, buscava valorizar jogos e brincadeiras populares, apresentando para este fim um cronograma definido para o desenvolvimento das atividades. A coordenação da Ciranda é realizada por uma companheira do assentamento Mário Lago, e conta com a participação e apoio de outras mulheres do assentamento, além dos/as universitários/as. De acordo com Celso, o envolvimento feminino com a
Ciranda é muito maior, haja vista a quantidade de representantes deste gênero quando são realizadas as atividades programadas (V-2).
Diante de tais situações relatadas, percebemos a consolidação de valores e atitudes que reforçam a ideologia da “dominação masculina”. Dessa forma, no lazer encontramos cenário bem próximo ao que venho, até então, expondo. A dedicação das mulheres aos afazeres domésticos, do cuidado com a família, da representatividade na direção/coordenação de setores/áreas, e em alguns casos, dos estudos, desproporcionalmente ao homem, acaba impondo restrições no acesso ao lazer.
No período de inserção para consecução da pesquisa, dentre as manifestações culturais que encontramos as mulheres efetivamente participando e construindo-as, podemos citar a festa no Sítio do Pau D’Alho. A seguir temos o trecho do Diário de Campo V que faz alusão a este momento de lazer das trabalhadoras:
O espaço da quadra estava decorado, pois na semana anterior havia sido realizada uma festa naquele local. Fitas de papel crepom ornamentavam a parte superior da quadra, e havia cartazes da jornada de lutas das mulheres e dos 25 anos de existência do MST. Era a decoração produzida por ocasião do curso para as mulheres, e da festa que ocorrera após o encerramento das atividades do mesmo (V-12).
Assistir partidas de futebol não foi privilégio somente dos companheiros. Algumas companheiras, ainda que de forma esporádica, se dedicaram a esta atividade de lazer, arriscando análises sobre a partida.
Algumas análises sobre o jogo ocorriam, e a participação feminina neste processo era interessante. As duas estudantes que estavam no quarto naquele momento arriscavam comentar o jogo. Acredito que permaneciam ali pela companhia recíproca entre elas e nós, mas também pela falta de opção em realizar uma outra atividade (VI-25).
Além disso, há a disposição de jovens do gênero feminino, como Elizabeth que pensava em desenvolver ações de lazer no assentamento do qual fazem parte. Educanda do curso de Agroecologia, ela se preocupava com a sociabilidade dos/as trabalhadores/as no Mário Lago, pretendendo contribuir com a comunidade através do seu trabalho de conclusão de curso:
O repasse deveria ser feito ao Anton que já havia voltado da USP, porém estava envolvido com outras tarefas, e para a Elizabeth, educanda do curso de Agroecologia e assentada do Mário Lago que estava com vontade de ajudar na organização do torneio. O TCC dela seria com a temática do lazer e futebol na sociabilidade do assentamento, o qual eu havia sido indicado para orientá-la. Além
disso, ela gostava muito de futebol e seria uma boa oportunidade para que a sua participação na organização do torneio servisse de estímulo para o desenvolvimento de ações no assentamento (XI-9).
Entretanto, existem alguns espaços que podemos notar a dificuldade na inserção feminina. O bar, local predominantemente frequentado pelos trabalhadores do MST, no assentamento Sepé Tiarajú é exemplar a este respeito. O Diário de Campo VII traz uma passagem referente a uma situação envolvendo uma companheira do grupo GEQA:
Continuamos no bar conversando também, Pablo e Camilo resolveram fumar um ‘paieiro’. Roseli e Celso logo chegaram ao bar, estavam voltando do banho que tomaram na casa de um dos assentados. A presença de Roseli naquele momento era motivada por estarmos ali. Provavelmente se não estivéssemos no bar ela também não estaria. Com a chegada dos dois, Camilo pediu uma dose de pinga para tomarem enquanto continuávamos conversando (18).
Em alguns momentos no acampamento, onde a concentração de homens é grande, também notei que “A presença feminina no momento era pequena. Estavam ali algumas universitárias e duas acampadas. Preferiam ficar no barracão assistindo o filme” (VII-14).
Limitações que se manifestam às vezes dentro da própria casa, como pude observar durante a reunião de integrantes (homens e mulheres) e universitários (homens) para um churrasco. Não participar dos jogos de truco, nem ao menos perguntar sobre a possibilidade de, foi um impedimento da vivência do lazer para estas mulheres:
Durante todo o tempo dos jogos de truco não houve nenhuma rodada com a participação feminina. Elas ficaram assistindo aos jogos e conversando. Uma das companheiras preferiu ficar deitada na rede enquanto o seu marido jogava truco, enquanto a outra lava utensílios domésticos (VII-20).
A visão masculinizada do mundo pode estar velada nas palavras dirigidas a irmã de um companheiro do MST. Esta situação está registrada no Diário de Campo X nas duas unidades de significado que seguem:
Fui apresentado à outra irmã do companheiro, que naquele momento estava fritando mandioca. O namorado dela estava deitado assistindo televisão. A outra irmã que havia me cumprimentado logo que chegamos, estava conversando com um rapaz que estava de bicicleta no lote em frente ao barraco onde ela morava (10)
Na saída, Hélder falou para a irmã de Pablo: -‘Entra logo para casa’.
E completou:
Naquela situação saímos rindo, mas havia sido somente uma brincadeira com a irmã do Pablo que estava ‘paquerando’ em frente ao seu lote (11).
C) Formação humana no dia-a-dia do MST: organização, cuidados ambientais,