Parte do terceiro aspecto da missão da igreja apresentado por Padilla (1992) é o desenvolvimento, que se refere à responsabilidade que a igreja possui de ser um agente
que trabalha para o desenvolvimento integral do indivíduo e da sociedade na qual ele está inserido. Discorrendo sobre esse ponto, Padilla assevera que “a missão cristã se orienta para o desenvolvimento de toda a pessoa e de todas as pessoas” (PADILLA, 2005, p.152). Sobre esse aspecto da M.I. se instauram as maiores tensões e discussões, pois aqui de maneira mais clara e objetiva é colocada a questão da responsabilidade social da igreja, conferindo a ela a missão de agir não apenas nos “campos espirituais”, mas também no mundo físico-social.
O desenvolvimento dentro da M.I. é muito mais que a realização de atividades caritativas e programas de ajuda;ele carrega uma mensagem que toca nas estruturas sociais e propõe uma reformulação de valores. Embora este seja um dos elementos fundamentais da M.I., existe pouco material escrito que trabalhe esse conceito de forma específica. Padilla, em seu livro “Missão Integral: O Reino de Deus e a Igreja” (2014), dedica apenas uma parte do capítulo “Missão Integral” para tratar o Desenvolvimento, e ainda trata-o em conjunto com o tema Justiça. Entretanto, o presente subtópico objetiva tratar esse tema de maneira a expandir a compreensão do conteúdo do conceito do desenvolvimento.
Juarez de Paula, em seu capítulo “Desenvolvimento local Integrado e gestão compartilhada” (2008, p.190-206), apresenta uma compreensão de Desenvolvimento que muito tem a contribuir com a Missão Integral.21 Esse autor compreende que,
embora atualmente o desenvolvimento seja pregado a partir do pressuposto econômico, que tem se limitado quase que exclusivamente ao “fenômeno da dinamização do crescimento econômico”, para ele o “crescimento econômico é necessário, mas não é suficiente para gerar desenvolvimento.” (PAULA, 2008, p.190).
Em sua visão, desenvolvimento é muito mais que acúmulo de bens e rendas, pois embora o crescimento econômico tenha a sua importância, é necessário compreender o desenvolvimento de forma integral, entendendo que este tem como responsabilidade buscar “a melhora da vida que levamos e das liberdades que desfrutamos” (PAULA, 2008, p.190).
21 Deve-se desta a ue este a tigo de Jua ez de Paula se e o t a o li o Ja di da oope aç o:
E a gelho, edes so iais e e o o ias . Este li o su giu o o f uto do t a alho do o i e to Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS) que tem como sua razão de ser o fortalecimento da base evangélica da ação social; o compartilhamento de boas práticas, reflexões bíblicas e experiências históricas; e o encorajar e capacitar organizações, igrejas e pessoas para promoverem uma transformação Integral. Desta forma a utilização dos conceitos deste autor para trabalhar o tema dentro da MI é coerente e possível.
Este ato de buscar a “melhora da vida”, dentro da compreensão de Paula, significa buscar um desenvolvimento humano,social e sustentável. Buscar essa melhoria é o ato de comprometer-se com: a pessoa em sua totalidade (desenvolvimento humano), todas as pessoas (desenvolvimento social) e com as pessoas que vivem no presente e com as que viverão no futuro, (desenvolvimento sustentável).
Esta visão de Paula está estreitamente relacionada com o conceito de Padilla sobre Desenvolvimento, este que afirma que:
Nenhum desenvolvimento é verdadeiro se estiver concentrado no econômico e não der atenção adequada às questões mais profundas que afetam a humanidade e que têm a ver com o significado último da vida – “um estilo de vida feito para permanecer” – baseado em novos métodos de produção e novos padrões de consumo. Inclui também a criação de uma nova tecnologia subordinada ao ser humano e que respeite a natureza. [...] O desafio tanto para os cristãos no ocidente como para os cristãos nos países subdesenvolvidos é criar modelos de missão centrados num estilo de vida profético, modelos que apontem para Jesus Cristo como o Senhor da totalidade da vida, à universalidade da igreja e à interdependência dos seres humanos no mundo. (PADILLA, 1992, p.149-150).
Desfragmentando essa afirmação de Padilla, vemos que ele também trata de desenvolvimento humano, social, e sustentável. Ao falar sobre “novos métodos de produção e novos padrões de consumo” e “criação de uma tecnologia subordinada ao ser humano que respeite a natureza” ele está falando sobre o que Paula vai chamar de “Desenvolvimento Sustentável”. Ao falar sobre “criar modelos que apontem para Jesus como Senhor da totalidade da vida” ele está falando daquilo que Paula vai chamar de “Desenvolvimento Humano”. E ao tocar na questão da “interdependência dos seres humanos” ele está falando daquilo que Paula vai chamar de “Desenvolvimento Social”.
Ao colocar esse desenvolvimento Integral com parte da Missão da Igreja, questiona-se se ela não estaria fazendo uma confusão entre os reinos (o de Deus e o dos homens), se é correto atribuir à Igreja uma responsabilidade para com as estruturas sociais nesses processos de desenvolvimento. Padilla responde a essa questão com a seguinte afirmação: “Não estou confundindo os dois reinos: não espero que a salvação última do homem ou da sociedade resulte das boas obras ou da ação política. A única coisa que peço é que se tome a sério a pertinência do evangelho à totalidade da vida do homem no mundo”. (1992, p.53)
É devido ao fato de se entender a pertinência do evangelho para a totalidade do homem e do mundo que emerge a compreensão de que a igreja possui a missão de
buscar o desenvolvimento. Desconsiderar essa pertinência “é o mesmo que afirmar que Deus tem interesse em que o chamemos de “Senhor, Senhor”, mas não em que obedeçamos à sua vontade em relação a assuntos tão críticos como a injustiça social e a opressão, a fome, a guerra, o racismo, o analfabetismo e problemas similares”. (PADILLA,1992, p.53).
A M.I. entende o ser humano como um ser social, que mesmo convertido a Cristo, não pode abstrair-se das questões sociais; porém, sua relação com o mundo deve ser alterada, já que recebe de Cristo um modelo diferente de vida no mundo, e sua vida na polis passa a refletir o Reino de Deus no mundo.O convertido a Cristo sempre se converte numa situação social específica e nela testemunha sua conversão.
Portanto, falar em Desenvolvimento na M.I., é falar de desenvolvimento humano, social e sustentável. Segundo Paula, pensar a partir desse pressuposto sobre o desenvolvimento significa: “pensar um novo conceito de desenvolvimento que articula a dinamização do crescimento econômico com outros fatores, como o crescimento do capital humano, o crescimento do capital social, a conquista da boa governança e o uso sustentável do capital natural” (PAULA, 2008, p.191). Sobre cada um desses fatores o autor Juarez de Paula apresenta uma breve síntese que os relaciona ao desenvolvimento.
Sobre o Desenvolvimento do capital humano é dito que este busca “o crescimento das habilidades, conhecimentos e competências das populações” (PAULA, 2008, P.191). Este capital é tido como um dinamizador do desenvolvimento por criar melhores condições para este aconteça.
O desenvolvimento do capital humano ocorre por meio de investimentos nas áreas de educação e também nas estruturas que se relacionam coma qualidade de vida, tais como: saúde, alimentação, habitação, saneamento, transporte, segurança etc. Essas áreas servem como parceiras da educação para que esta possa alcançar seus objetivos.
Outro elemento dinamizador do desenvolvimento apresentado por Paula (2008) é o capital social. Este é definido por Fukuyama como “essencial para criação de uma sociedade civil saudável.” (apud Paula, 2008, p.192) A definição que este autor traz sobre o capital social é a seguinte:“O capital social pode ser definido como um conjunto de valores ou normas informais, comuns aos membros de um grupo, que permitem a cooperação entre eles” (apud PAULA,2008, p.192).
Buscar esse desenvolvimento no capital social é tratar a questão da confiança, cooperação,ajuda mútua e organização social, pois na medida em que se aumentar a capacidade de as pessoas convergirem em torno de interesses comuns, indicando assim
uma melhor organização social, melhores serão as condições de desenvolvimento, pois, segundo Paula: “Baixos índices de capital social também refletem em menores condições de competitividade, pois competitividade exige algum nível de cooperação.” (2008, p.192).
A boa governança é tida como fundamental dinamizador do desenvolvimento, porque o crescimento da capacidade de governar se configura como uma das bases para o desenvolvimento. Dentro da compreensão de Paula (2000) entende-se como boa governança aquela que desfruta de canais que viabilizam a participação da sociedade na gestão estatal, que possui uma política que tem em seu eixo existencial a representatividade, legitimidade e confiança dos governos. Boa governança é também estabelecer um modo de governar em que a prestação de contas, a transparência e a permeabilidade do Estado em relação ao controle social são reais e comuns.Paula entende que trabalhar para o desenvolvimento é “investir na boa governança, é buscar construir um governo catalisador, participativo, competitivo, orientado por missões e resultados, empreendedor e direcionado para as necessidades da população” (PAULA, 2008, p.193).
A boa governança se relaciona diretamente com o capital humano e social para dinamizar o desenvolvimento:
O bom governo depende em grande medida das qualidades e compromisso dos governantes, mas depende sobretudo da capacidade de escolha, participação e controle da sociedade civil. Isto, obviamente, está diretamente relacionado com os níveis de ‘empoderamento’ (empowerment) de uma dada sociedade, o que, por sua vez, depende dos níveis de capital humano e capital social (PAULA, 2008, p.193).
O quarto e último elemento dinamizador do desenvolvimento apresentado por Paula é “Capital natural”. Este se refere a um estilo de vida e economia que usa, de maneira sustentável, os recursos naturais. Buscar o desenvolvimento considerando esse enfoque não é assumir uma postura “conservacionista”, que faz da natureza uma divindade intocável que desconsidera as necessidades humanas, mas é, antes, atribuir o devido valor a estes recursos, dos quais dependem tanto a existência presente quanto a futura da humanidade, e estabelecer uma relação entre raça humana e meio ambiente na qual os ciclos naturais sejam respeitados, e se assuma uma dinâmica de produção na qual se faça mais com menos, e os desperdícios sejam eliminados.
Segundo Paula, “Precisamos pensar em como satisfazer nossos carecimentos de hoje sem prejudicar a possibilidade de satisfazê-los no futuro.” (2008, p.193). Esta
preocupação com o futuro implica em um desejo por mudanças nos padrões de produção e consumo, porém tal mudança só será possível “com elevados níveis de capital humano, capital social e boa governança” (PAULA, 2008, p.194).
Em síntese, pode-se dizer que para se obter um desenvolvimento que seja humano, social e sustentável, nos moldes propostos pela M.I., deve-se buscar o desenvolvimento desses quatro aspectos, aqui apresentados como basilares e dinamizadores do desenvolvimento, a saber: capital humano, social, boa governança e capital natural.
Essa estrutura pode ser melhor compreendida a partir do quadro abaixo, que relaciona todos os elementos envolvidos no conceito de desenvolvimento da M.I.
Desenho 2- Estrutura do conceito de Desenvolvimento da M.I.22