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In document Tre perspektiver på Coworking (sider 19-0)

A M.I. surge a partir de uma hermenêutica contextual; toda a sua fundamentação teórica e sua práxis missiológica partem dessa forma de leitura. Sanches (2009) sinaliza esse fato ao dizer que a teologia da M.I. nasce de uma leitura integral de dois elementos, a saber: contexto e Palavra de Deus.Sanches (2009) deixa isso claro em sua afirmação que diz que a teologia da M.I.:

Se faz a partir de um círculo hermenêutico, que contempla o contexto: a realidade sócio-histórica da América Latina e a situação eclesial- cultural do evangelicalismo latino-americano e sua necessidade de transformação em função da vida; outro eixo, a palavra de Deus, que também deve ser lida contextualmente em vista da vida e da vontade de Deus para ela no mundo. Contexto e palavra pedem para ser lidos de modo integral, a fim de que gerem uma missão também integral. O círculo que contorna esses pontos, integra-os e dá sentido a eles, é o Reino de Deus como chave hermenêutica. (SANCHES,2009, p.112). O círculo hermenêutico foi objeto central de discussão no terceiro volume das publicações dos boletins da FTL. Neste volume, Enio R. Mueller, em seu artigo intitulado “Evangelização e hermenêutica”, apresenta de forma didática esta maneira de se relacionar texto e contexto. Neste artigo ele conceitua a hermenêutica da seguinte forma: “processo de interpretação, sendo, a rigor, parte integrante do dia a dia de todos.” (MUELLER, 1984, p.9). Dentro dessa lógica, o ato de ouvir e tentar entender se configura como um exercício hermenêutico. Porém, a tarefa enfrentada pelo círculo hermenêutico não se limita a uma compreensão textual, mas se estende à contextual (a realidade contemporânea).Portanto estão envolvidos nesse processo dois horizontes, a saber: o bíblico e o contemporâneo, o universo daquele que falou/escreveu e o universo daquele que ouve/lê. Sendo assim o processo hermenêutico é tido como a comunicação entre esses dois horizontes.

Para que ambos sejam compreendidos, deve-se considerar cinco elementos que Mueller (1984) conceitua como aspectos importantes da proposta hermenêutica. São eles: autocompreensão dos escritos bíblicos; questão cultural; papel do Espírito Santo; chave hermenêutica; círculo hermenêutico.

Sobre o primeiro aspecto, a autocompreensão dos escritos bíblicos, a M.I. em seu círculo hermenêutico parte da compreensão de que a Bíblia é a palavra de Deus, fonte de autoridade, lente que interpreta a realidade e oferece respostas da parte de Deus a esta que a questiona com suas demandas e realidade. Mueller afirma que:

Por arrogante que pareça ser,as Escrituras se apresentam como palavra de Deus revelada aos homens, e até que haja provas em contrário devem ser tratadas da forma como elas mesmas pedem para ser tratadas. Este é um dos primeiros princípios de uma boa hermenêutica. (MUELLER, 1984, p.17)

A questão cultural é tida como um aspecto importante pelo fato de estarem inseridos em culturas tanto a mensagem bíblica, como os seus intérpretes. Considerar esse ponto é se comprometer em fazer uma leitura integral das duas esferas culturais que envolvem esses dois horizontes.E de maneira mais específica do contexto brasileiro, põe-se o desafio de se fazer uma leitura que faça uma diferenciação entre a mensagem bíblica e o cristianismo-cultura16.

O terceiro aspecto a ser considerado é o papel do Espírito Santo.Este possui, dentro da compreensão da M.I., a função de facilitador no processo de fusão dos horizontes. Segundo Mueller, o papel do Espírito Santo no processo hermenêutico

É de grande importância. Poderíamos dizer que o Espírito atua como uma espécie de catalisador no processo, um “facilitador de fusão”. O Espírito é o elemento comum, tanto na Palavra como no intérprete, possibilitando uma comunicação a um nível único (MUELLER, 1984, p.19)

Esta fusão entre os dois horizontes é o elemento fundamental e dinamizador do círculo hermenêutico, que será apresentado mais abaixo.

Quanto ao aspecto “chave hermenêutica” a M.I. apresenta o Reino de Deus17 como sendo esse eixo central para a interpretação texto-contextual: “a

perspectiva do Reino de Deus e do seu cumprimento é central para a autocompreensão bíblica, sendo uma chave para se ver os textos à luz do todo”(MUELLER,1984, p18). Não apenas Mueller vai nessa direção, mas Sanches também entende o Reino como a chave desse círculo hermenêutico, ao dizer que:

O Reino de Deus como chave hermenêutica, que é apreendido pela fé, procede de Jesus Cristo e, ao mesmo tempo nos remete a Ele. Esse Reino é dinâmico e transformador. É ele que, por meio do Espírito, possibilita a compreensão integral do contexto, da Palavra, gera a missão e mantém um movimento sempre contínuo de atualização. (SANCHES, 2009, p.112)

E é a este movimento contínuo de atualização que chamamos de círculo hermenêutico. Neste círculo o leitor de hoje vai ao texto bíblico com suas demandas e

16 A expressão cristianismo- ultu a usada po Padilla e seu li o Miss o I teg al: E saios do Rei o

para se referir ao evangelho que é misturado aos elementos da filosofia grega e da herança cultural europeu-americana. (Padilla, 1992, p.106)

seus questionamentos, busca encontrar as respostas que norteiem sua práxis para e no seu contexto. Porém este círculo hermenêutico também acontece no sentido oposto, no qual a realidade atual é lida a partir do texto, e este assume uma função profética quando o contexto diverge da realidade do Reino. Segundo Juan Stan:

A tarefa hermenêutica é ler a Palavra de Deus a partir do contexto de nossa missão cristã para que a obediência cristã se faça dentro da história, frente ao “campo missionário” que é realidade humana (“o mundo”). O “problema hermenêutico” deixa, assim, de ser uma questão meramente teórica ou cognoscitiva para tornar-se uma questão a nível de missão e de ação. Não é apenas um assunto de interpretação de palavras e textos, mas também a interpretação de uma tarefa, de uma missão. A hermenêutica passa a ser, então, o diálogo entre o texto bíblico e o contexto missio-histórico (STAN,1984, p.106)

Essa circularidade no processo interpretativo produz uma mudança contínua em nossas interpretações bíblicas, pois as realidades contextuais do presente estão em constante mudança, pondo sempre novos questionamentos e demandas, estes que por sua vez, fazem com que se volte ao texto e se busque novas interpretações que deem conta de equacionar as relações entre o ser humano e Deus, e do ser humano com os seus semelhantes.

Desta forma pode-se ver este processo, do círculo hermenêutico, que foi adotado pela M.I. como sua metodologia, da qual se origina sua teologia e missiologia, da seguinte forma:

Círculo hermenêutico

Desenho de autoria própria

Juan Luis Segundo possui uma afirmação que consegue expressar a dinâmica do círculo hermenêutico de forma clara:

Que as perguntas que surgem do presente sejam tão ricas gerais e básicas, que nos obriguem a mudar nossas concepções, com as quais nos acostumamos, sobre a vida, a morte, o conhecimento, a sociedade, a política e o mundo em geral. Somente uma mudança tal ou pelo menos a suspeita geral acerca de nossas ideias e juízo de valor (...) nos permitirá alcançar o nível teológico e obrigar a teologia a descer à realidade, fazendo a si mesma novas, e decisivas perguntas (...) (que) a interpretação da Escritura (...) mude junto com os problemas em vez de meramente repetir respostas velhas conservadoras e que não servem mais. (LUIS, 1974, p.13.).

Ao observar esse círculo hermenêutico pode-se notar que ele é contínuo e não possui um ponto de partida fixo. Dessa forma,é possível iniciar seu processo interpretativo tanto do contexto para a Palavra de Deus, como da Palavra de Deus para o contexto. Deve-se destacar que essas direções diversas da interpretação não representam uma infidelidade, ou menosprezo às Escrituras; antes se configuram como uma maneira de ser fiel ao texto e relevante ao contexto, e como uma maneira de questionar biblicamente, com novas releituras da Palavra, as tradições e interpretações humanas, que estão sociologicamente condicionadas. E é da leitura integral desses dois horizontes (Palavra de Deus e Contexto) que emerge a Missão Integral.

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