4.4 A LTERNATIVE PERSONELLPRODUKSJONSSTRATEGIER
4.4.4 Strategi 3. Økt tjenestetid for kategorien yngre yrkesbefal
A perspectiva construcionista, que nos serve de embasamento, enfatiza que os acontecimentos são construídos sócio-historicamente, circulando sob inúmeras versões. Ou seja, parte do pressuposto de que as pessoas e o mundo não possuem uma natureza determinada, mas são constituídos nas práticas sociais em períodos históricos específicos. Nessa perspectiva, o conhecimento é entendido como resultado de um contexto histórico e cultural e deve ser analisado em sua eficácia, função e utilidade, em vez de entendê-lo como um conhecimento universal. Outro aspecto relevante no construcionismo diz respeito à realidade que, nessa perspectiva, não existe independentemente do conhecimento que se produz sobre ela; é formada nas diferentes versões construídas coletivamente. Em outras palavras, a “realidade” é construída a partir de nossas práticas cotidianas, sendo a linguagem um instrumento imprescindível nessa construção.
Dentre os vários aspectos envolvidos na produção de conhecimentos enfatizamos nessa pesquisa dois deles: consideramos que a ciência não é o espelho da realidade, sendo isso uma alternativa ou reação ao representacionismo, ou seja, o conhecimento não é a representação da realidade. O segundo aspecto de interesse para esta pesquisa é o da desconstrução da retórica da verdade que nos serve de base para a discussão da naturalização. Entendemos que a verdade é a verdade dos conceitos e concepções, das negociações sociais produzidas; não há uma verdade pura e essencial. Nessa perspectiva, entendemos que o conhecimento é um empreendimento coletivo, algo que se produz socialmente; implica socialização de conhecimentos e não algo que se apreende do mundo. O construcionismo apresenta, portanto, como pressuposto metodológico uma postura dessencializadora e desnaturalizante. Tendo por base essa perspectiva, buscamos entender a maneira pela qual as
pessoas produzem sentidos e se posicionam nas relações sociais, a forma como produzem e dão significados a determinadas práticas. Temos também a preocupação em desnaturalizar e problematizar determinadas construções do cotidiano, pois consideramos que não há objetos naturais e permanentes. Para nós, aquilo que é considerado como óbvio ou natural ou que se tornou uma verdade nem sempre foi assim, ou seja, certos processos, ideias ou conceitos tornaram-se algo essencializado, banalizado ou naturalizado, não sendo problematizados. O desafio, nesta pesquisa, é entender alguns aspectos dos processos que levam à naturalização do fenômeno de corrupção e do tipo político corrupto.
Nos processos sociais que possibilitam a emergência de ideias e conceitos estão presentes diversas estratégias ideológicas, conforme discutido por Thompson (2000). No que concerne à corrupção, consideramos particularmente pertinentes cinco modos de operação da ideologia10 apontados pelo autor: a universalização, o expurgo do outro, a eternalização, a padronização, a eufemização e a naturalização. Destacaremos a estratégia de naturalização, por compreender que esta pode ser entendida como fundamental no processo de constituição do fenômeno corrupção. Thompson define a naturalização como
[...] um estado de coisas que é uma criação social e histórica de grupos humanos pode ser tratado como um acontecimento natural ou como um resultado inevitável de características naturais, do mesmo modo como, por exemplo, a divisão socialmente instituída do trabalho entre homens e mulheres pode ser tratada como resultado de características fisiológicas nos sexos, ou de diferenças entre sexos (THOMPSON, 2000, p. 88).
Essa definição, associada à perspectiva construcionista, possibilita dimensionar a corrupção como construção coletiva que deriva de modalidades sociodiscursivas e de processos de legitimação social.
“Naturalizar quer dizer tratar algo como normal, como dado e como parte do dia a dia; tão óbvio quanto o sol da manhã e a chuva da tarde” (SPINK, 2006, p. 8). Nesse sentido, a corrupção é instituída como algo que sempre foi assim ou que todo mundo faz, que todo político é assim. Consideramos que a naturalização é como um véu que encobre a possibilidade de consciência política.
Nesse processo de naturalização da corrupção, a mídia ocupa uma posição de destaque, como anteriormente discutido, e, nesse contexto, cabe problematizar o caráter ideológico das comunicações midiáticas. Spink (2006) afirma que é possível trabalhar os conteúdos ideológicos pela análise das estratégias midiáticas que “[...] obstaculizam a
10O conceito de ideologia tratado aqui é o significado a serviço do poder ou “[...] o sentido, mobilizado pelas
capacidade reflexiva pelo uso de estratégias que levam à naturalização de repertórios interpretativos” (p.25).
De modo a analisar essas estratégias, a autora utiliza o esquema proposto por Norman Fairclough (apud SPINK, 2006), que inclui: a conversacionalização, a marquetização e o uso de tropos de linguagem. A conversacionalização gera a banalização própria do senso comum; a marquetização constrói o receptor como consumidor, produzindo posições de pessoa que reconfiguram modos de subjetivação; e, finalmente, os tropos são os usos figurativos da linguagem, como a metáfora, a sinédoque e a metonímia.
Nesta tese incorporamos a essas estratégias a nominalização e a passivização, recursos gramaticais que deslocam a ação e os acontecimentos, dirigindo a atenção do leitor para determinados temas em detrimento de outros, ou seja, “[...] concentram a atenção do ouvinte ou leitor em certos temas em prejuízo de outros” (THOMPSON, 2000, p. 88). A passivização é a colocação dos verbos na voz passiva e a nominalização se refere a atribuir nomes as ações.
O processo de naturalização está também associado à quantidade de notícias. Os jornais apresentam muitas notícias sobre corrupção– um escândalo na sequência de outro; praticamente não há um dia em que não se encontre na mídia uma informação sobre o tema corrupção. A avalanche de notícias faz com que diminua a atenção a cada caso particular.[...] A superficialidade com que as notícias são publicadas e a rapidez com que são lidas e legitimadas são aspectos destes tempos pós-modernos. [...] (REIGOTA, 2006, p. 62).
Esse aspecto faz com que, de certa forma, haja uma diminuição da atenção e o leitor fique em dúvida se aquela notícia já foi lida, se é novidade ou não. Essa superexposição remete ao seu inverso: o que não é exposto, o que está invisível.
Reigota (2006) considera que “[...] aquilo que não é noticiado pode ser (e geralmente é) muito mais interessante do que o que é facilmente disponibilizado como informação” (p. 60), e discutindo a quantidade de notícias cita uma canção que pergunta “quem lê tanta notícia?”11 e afirma:
No momento em que a quantidade de notícias se ampliou de forma evidente, a mesma questão continua pertinente, não somente pela hiperexposição, mas também e principalmente pelo que ela esconde, camufla ou ignora. (p. 60)
Entendemos que, com o advento dos meios de comunicação, existe uma maior divulgação de notícias, porém isso nem sempre é acompanhado por um aprimoramento
11
naqualidade das informações e discussões, estimulando reflexão e formação de consciência política.
Abramo (2005), ao discutir os problemas dos índices de percepções de corrupção, afirma que o principal problema desses índices refere-se ao que é informado sobre a prática do fenômeno corrupçãoe que a divulgação desses índices forma as opiniões. O autor afirma que os governos temem que a opinião das pessoas seja demasiadamente influenciada pelo noticiário, consequentemente, se a mídia divulga casos de corrupção, as pessoas comuns tenderiam a considerar que a corrupção está aumentando – quando, muitas vezes, o aumento do noticiário pode significar não isso, mas um melhor funcionamento dos mecanismos de controle. Afirma também que as opiniões colhidas entre a população geral são muito volúveis, lembrando que, no caso brasileiro, praticamente toda pesquisa que se faz leva à conclusão de que a corrupção está piorando.
Tomando-se uma série histórica de tais levantamentos, e considerando apenas tais opiniões, é-se forçado a concluir que o Brasil tem piorado tanto que a esta altura já teria sido integralmente tomado por quadrilhas. Obviamente, isso não é plausível (ABRAMO, 2005, p.36).
O processo de naturalização promove a legitimação de um dado fenômeno, à medida que se fala com naturalidade, se repete sem questionamento, sem observar as contingências históricas e sociais, sem um aprofundamento de determinados discursos, objetos ou situações. Quando determinados atos, comportamentos ou discursos tornam-se percebidos como algo comum, insignificantes ou cotidianos, cria-se terreno propício para que essa naturalização leve à legitimação desses atos, comportamentos ou discursos. Nesta tese pontuamos que, ao se acreditar na naturalidade da corrupção, retirando-a de seu contexto histórico e social, enfatizando e dando visibilidade à presença da corrupção quase que exclusivamente nos meios políticos, promove-se a visão de que a corrupção é algo imanente à política.
Filgueiras (2008a) destaca a centralidade da economia nesse processo de associação da corrupção ao contexto político.
A economia, ao colonizar o discurso político, nas democracias contemporâneas, promove uma despolitização do político e uma naturalização do conceito de corrupção, conforme uma linguagem que se define no liberalismo de mercado. Foi produzindo um discurso que tende a perceber que a corrupção é um fenômeno natural à política, conforme a intencionalidade da ação (p. 15).
Enfatiza ainda que o processo de naturalização tem efeitos nefastos para a sociedade, como, por exemplo, a perda da credibilidade nas instituições políticas e administrativas. Lembra que, ao naturalizar a corrupção como ineficiência do Estado, essa perspectiva não valoriza a política e não promove o desenvolvimento de criticidade. A naturalização da corrupção como problema da política ocasiona uma perspectiva estreita e restrita, por não considerar outros aspectos intrínsecos ao problema, como os culturais, sociais e também os propriamente políticos.
5.2 A MÍDIA E A ÊNFASE NA CORRUPÇÃO POLÍTICA
Coerente com a perspectiva construcionista, partimos do pressuposto de que a naturalização da corrupção como “corrupção política” é uma construção social e aventamos a hipótese que ela tem papel importante nesse processo.
Ainda para sustentar o argumento de que a mídia promove a centralidade da política na questão da corrupção, investimos na busca de matérias e reportagens tendo “corrupção” como descritor em jornais on-line. A escolha da Folha de S.Paulo se deve ao fato de que, desde a década de 1980, este é o jornal mais vendido no país entre os diários nacionais de interesse geral e diz ter como princípios editoriais: pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência. Da mesma forma que os principais jornais do Brasil, é uma empresa familiar e faz parte de um conglomerado midiático, chamado Grupo Folha, composto por quinze empresas, e tem quatro jornais diários, um instituto de pesquisa, uma empresa de transporte e distribuição, duas empresas especializadas em publicações, editoriais e gráfica, um banco de dados, uma agência de notícia e um provedor de internet, o UOL (Universo OnLine).
O jornal é organizado em cadernos temáticos diários e suplementos, tendo circulação nacional e conteúdo online.12 Circula com13 sete cadernos diários: Poder, Mundo, Ciência, Cotidiano, Esporte, Mercado e Ilustrada. Nesta pesquisa, optamos por trabalhar com o caderno Poder, porque este é o espaço utilizado pelo jornal para tratar e apresentar matérias e reportagens relacionadas ao temapolítico nas três esferas de poder.Segundo o jornal FSP, o caderno “[...] investiga e fiscaliza as ações do poder público e faz de forma didática a tradução
12
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/institucional/conheca_a_folha.shtml>. Acesso em: 26/02/2013>.
das decisões governamentais e legislativas, mostrando como afetam a vida do leitor e do contribuinte.”14
Para fins desta pesquisa utilizamos o site do jornal FSP e a versão Folha OnLine. No site existe um dispositivo que permite que sejam realizadas pesquisas por palavra-chave. No primeiro momento da coleta de dados, registramos os números absolutos de citações com a palavra-chave corrupção, sem ênfase em nenhum dos cadernos. Registramos os dados por ano no período compreendido entre 2000 e 2012. Posteriormente realizamos o mesmo levantamento limitando a busca ao caderno Poder, também dentro do período temporal citado.
Os dados foram organizados na tabela abaixo, com as seguintes colunas: na primeira apresentamos o número de citações no site completo, em todos os cadernos; a segunda coluna mostra o número de citações no caderno Poder; e a terceira coluna apresenta a porcentagem de citações no caderno Poder.
Tabela 1 - Corrupção no jornal Folha de S.Paulo. ANO Total de citações no site da Folha Total de citações no caderno Poder Porcentagem de citações no caderno Poder 22000 11.495 11.380 99,0 22001 14.489 11.396 78.65 22002 16.104 14.657 91,01 22003 12.629 12.426 98,39 22004 9.614 9.425 98,03 22005 8.735 8.263 94,60 22006 13.530 13.530 100,0 22007 11.387 11.017 96,75 22008 15.306 14.934 97,57 22009 12.275 11.951 97,36 22010 5.710 4.668 81,75 22011 2.497 946 37.88 22012 2.667 1.316 49.34
Fonte: levantamento efetuado no site da Folha Online, em 26 fev. 2013
Em nove dos 13 anos pesquisados, 90% das ocorrências da palavra “corrupção” se situam no caderno Poder; em dois anos, há mais de 70% de ocorrências nesse caderno. Os dados permitem afirmar que o assunto corrupção é predominante na discussão sobre política. Revelam, portanto, uma significativa associação entre corrupção e política.
Ainda de modo a verificar a associação entre corrupção e política na mídia, fizemos um levantamento a respeito dos escândalos. Frequentemente os casos sobre o tema são apresentados e fortemente divulgados na mídia com o título de escândalo e acrescidos dos acontecimentos: como o escândalo do mensalão, escândalo dos aloprados, escândalo das ambulâncias e escândalo dos correios, entre tantos outros. O batismo do escândalo é assumido posteriormente por todos os outros meios de divulgação. O nome dado ao escândalo pode advir da operação policial deflagrada para investigá-lo, ser originário do nome da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada ou ainda estar associado a alguma expressão que tenha ganhado impacto na divulgação dos fatos.
De modo a verificar a associação de escândalos divulgados na mídia com política, fizemos um levantamento do número de matérias na Folha OnLine, no período entre 2000 a 2012, usando como descritor as palavras escândalo e Brasil, utilizando o mesmo procedimento descrito anteriormente para a ocorrência do termo “corrupção”. Esses dados estão sistematizados na Tabela 2, na qual constam as seguintes colunas: na primeira apresentamos o número de citações no site completo, em todos os cadernos; na segunda, o número de citações no caderno Poder, que, como já descrito anteriormente, concentra as notícias sobre política; e na terceira a porcentagem de ocorrências no caderno Poder.
Tabela 2 - Escândalo no jornal Folha de S.Paulo. ANO Total de citações
no
site da Folha
Total de citações no
caderno Poder Porcentagem de citações no caderno Poder 2000 188 105 55,85 2001 196 154 78,57 2002 264 112 42,42 2003 304 146 48,02 2004 470 225 47,87 2005 743 335 45,09 2006 1.326 929 70,06 2007 640 375 58,59 2008 594 324 54,54 2009 580 336 57,93 2010 1.206 474 39,30 2011 1.200 317 26,42 2012 1.593 513 32,20
Os dados obtidos indicam que, com exceção dos anos 2001 e 2006, o número de ocorrências com a palavra “escândalo” no caderno Poder é bem menor que no site completo, permitindo afirmar que nem todo escândalo é sobre política. Ou seja, existe a divulgação de escândalos que fazem parte da vida social, envolvendo pessoas, celebridades, e não somente políticos eleitos.
Diante dos dados sobre os sites e o jornal FSP, podemos afirmar que a mídia jornalística enfatiza a corrupção como um fato político, invisibilizando a corrupção cotidiana praticada por outras pessoas que não fazem parte das esferas políticas, imprimindo a ideia de que a corrupção quase não existe fora da questão política.
Entendemos a mídia como guardiã necessária à democracia, porém, não podemos deixar de tecer críticas. Reconhecemos que deve agir como vigilante e oferecer múltiplos pontos de vista, mas observamos que existem também interesses, inclusive mercadológicos e políticos, que afetam as decisões sobre o que e como publicar uma notícia. Acreditamos, como discutimos anteriormente, que a mídia produz eventos, influencia outros e determina verdades ou relevâncias. Como afirma Correia (2009),
Quando analisamos detalhadamente a noção de relevância vemos que esta é uma qualidade que não emana directamente do acontecimento, como se o acontecimento se conseguisse isolar a si próprio como acontecimento. A relevância de um acontecimento é atribuída em função de contextos sociais e culturais (...) Em suma, a mídia torna algo relevante de acordo com variados e diversos interesses. O jornalismo não procede, pois, à seleção dos factos apenas em função de uma qualidade – a “relevância” dos factos – que seria evidente em si mesma, independente das condições sociais e históricas e dos interesses dos agentes sociais envolvidos (p. 7-9).
Afirmamos, portanto, que a associação da corrupção à política é predominante e passaremos a discutir agora outro aspecto relevante do nosso argumento sobre a construção e naturalização do tipo político corrupto.
5.3 NOVAS FORMAS DE VISIBILIDADE DA CORRUPÇÃO: A POLÍTICA DA