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A mídia faz circular versões de casos, descrição das práticas consideradas corruptas e dos atores utilizando as características pessoais e circunstanciais das pessoas envolvidas. Na descrição dos atores, alguns elementos se destacam: posição ocupada; redes e alianças; nomeação e características pessoais (idade, partido político, foto e história de vida). Esses elementos compõem a matriz na qual é construído, ou circula, o tipo “político corrupto”, e dela fazem parte não apenas pessoas, como também as instituições e os documentos que servem de prova.

Como já discutimos, a construção do tipo considera a frequência dos elementos na matriz. No caso do “tipo político corruto”, os elementos que são apresentados com frequência fundamentam a caracterização do tipo. Ressaltamos que as descrições criam tipos, a categorização, a aglutinação e a repetição dessas descrições os naturalizam.

A partir dessa ideia de matriz, elencamos as seguintes categorias para entender as estratégias midiáticas de construção e/ou circulação de tipos como o “político corrupto”: posicionamentos pessoais perante a acusação; consequências para a vida pública; relação com a justiça, publicização do envolvimento; e presença ou ausência de provas.

Em relação ao posicionamento pessoal, as informações constantes do site sugerem que, na maioria das vezes, o político não se posiciona e quando o faz é para negar envolvimento ou culpa. Vale destacar que no site há menção de que frequentemente as pessoas envolvidas são inocentadas pelos pares, criando a ideia de que todos concordam e/ou são cúmplices. A primeira característica do tipo, portanto, é que ele não tem culpa.

Em relação às consequências pessoais, a forma como a mídia apresenta essa categoria mostra que os políticos quase sempre são reeleitos na eleição imediata ou na próxima, e poucos sofrem um prejuízo significativo. Essa categoria mostra que o tipo político corrupto é inatingível e refratário.

A relação com a justiça é uma categoria muito importante na construção do tipo. Existe um investimento midiático em apresentar os pareceres ou processos de forma confusa, ambígua, mantendo termos técnicos que obstaculizam uma compreensão clara do caso e sua

solução. Existe uma invisibilização da solução, com pouco espaço para definição do resultado final. Nessa categorização, a justiça é apresentada como confusa e diferenciada para políticos e os cidadãos comuns.

A categoria publicização e sigilo caracteriza os políticos como beneficiados por sigilo, coisa limitada a eles, sem uma elucidação do porquê esse direito de sigilo é concedido ou necessário ao andamento do processo.

A categoria documentos e provas mostra que na divulgação dos escândalos a apresentação de provas não obtém destaque, sendo item pouco discutido no site. E, quando aparece no corpo de um texto, surge negativando a existência delas. Existe no senso comum uma expressão sobre o crime perfeito, que diz que não há crime perfeito, pois sempre são deixadas provas ou marcas. No caso dos políticos envolvidos em crimes ou escândalos, essa crença se modifica, uma vez que, para os políticos, parece que não existem provas, pois raramente são reveladas e apresentadas.

A falta de espaço textual para esse tema aponta para uma não relevância, como se não fosse importante discutir o assunto “provas”; paradoxalmente, esse é o item que fundamenta todas as práticas dos profissionais envolvidos, sejam eles os outros políticos, por meio de CPI, os policiais federais que investigaram o caso, o poder judiciário, uma vez que, no caso da máfia das ambulâncias, se entendeu como um crime que resultou em severas punições.

Tratar um crime sem discutir provas deixa a ênfase do caso na denúncia. Ao leitor resta uma falta de profundidade, pouca possibilidade de fazer por si próprio a análise, sugerindo também falta de credibilidade e desconhecimento do processo como um todo.

Chaia e Teixeira (2001) destacam a complementariedade dos campos políticos e midiáticos, pois a alimentação dos escândalos também se deve à concorrência política, e afirmam:

Como os cidadãos pouco sabem sobre o que realmente ocorre nos centros decisórios do poder e cada vez mais desconfiam das boas intenções da classe política, a imprensa e o Ministério Público acabaram se tornando referências positivas justamente por andarem em tensão com o mundo político e revelarem não só as mazelas de senadores, como também as tramas que muitas vezes percorrem as entranhas do poder (p. 73).

Acreditamos que a ênfase sobre escândalos tem se concentrado muito mais na denúncia que no acompanhamento do caso propriamente dito. A denúncia mobiliza as atenções do leitor e gera opiniões, implicando posicionamentos. No caso específico desse escândalo, a importância da denúncia aparece de uma forma típica: existe a menção de dois

senadores, que foram envolvidos no esquema, não por participação, mas para prejudicar ou comprometer da candidatura destes, favorecendo o rival político. A denúncia do referido escândalo tomou os jornais, no nosso estudo a FSP, por um período e a pauta se esgotou antes mesmo da solução do caso, como discutimos anteriormente.

Casos e escândalos sobre corrupção se empilham, acumulando informações, na maioria das vezes sem aprofundamento. A ênfase em revelar um novo esquema, envolver outros e mais políticos, toma mais espaço nas pautas do que oferecer o acompanhamento do caso. Escreve-se mais sobre os casos do que sobre pessoas específicas, tratando os envolvidos de maneira generalista e não personalizada. Essa é uma característica determinante na construção do tipo político corrupto. Consideramos também o que nos aponta Chaia e Teixeira (2001):

O desenvolvimento temporal do escândalo midiático também depende de outras instituições como Justiça, instituições políticas e até policiais. Tal escândalo possui um começo e um fim, e se desenrola como um enredo de novela, envolvendo os espectadores e leitores que acompanham todas as etapas da “história”. O término do escândalo pode implicar uma confissão, resignação, um inquérito oficial e um julgamento. Também existe a possibilidade desse escândalo desaparecer gradualmente da mídia, uma vez que já que não desperta interesse público (p. 65).

Outro aspecto na análise do tipo político corrupto a ser destacado diz respeito à memória. A quantidade de notícias, o acúmulo de casos e escândalos e a despersonalização do político, definido como tipo, muitas vezes levam ao esquecimento dos nomes dos personagens envolvidos, o que permite que não sejam rejeitados nos pleitos seguintes. Na perspectiva socioconstrucionista, base teórica desta tese, a memória é compreendida como processo e produto relacional, sendo definida como ação social. Consideramos o caráter ativo e construtivo da memória, enfatizando que fazer memória implica construir e significar o passado de acordo com o presente, sempre sendo uma versão do passado em nosso presente. Postulamos a ideia de que a memória é construída num processo de interação social realizado por meio de estruturas simbólicas coletivas, fortemente ligadas às condições existentes e experiências do passado e que têm papel importante na manutenção social. Isso porque, ao lembrar do passado, as pessoas o recriam continuamente. Assim, o ato de lembrar é sempre uma construção do passado. A memória vai representar não a ida ao passado, mas sim a presença do passado no presente através de situações e momentos éticos, sociais e morais, buscando, de certa forma, construir um futuro.

Abstrair a memória das práticas sociais que a instituem pode produzir “efeitos de verdade”, como nos diz Foucault (1979), que institucionaliza uma determinada versão dos acontecimentos. Certamente isso é relevante em qualquer situação, pois, ao se estabelecer uma versão como verdadeira se exclui outras tantas possibilidades de versões e se afirma um posicionamento político. No caso dos escândalos e da naturalização do tipo político corrupto, tem consequências nocentes. Os discursos ou a memória de um acontecimento podem ser múltiplos, simultâneos, com diferentes cristalizações. Uma versão pode ter efeitos de uniformização simplificação ou naturalização de um acontecimento ou um tipo. A amnésia eleitoral permite que sejam eleitos políticos envolvidos em escândalos, prejudicando o sistema eleitoral, embora estejam surgindo novas formas de controle, como o caso da Lei da Ficha Limpa; o processo de consciência política e participação ativa nos pleitos é uma longa jornada.

Em suma, o tipo “político corrupto” que circula na mídia é o político que nunca assume sua culpa, sempre é inocentado pelos pares, acaba sendo reeleito, com frequência fica impune na justiça; e ainda contra o qual quase nunca se conseguem provas de culpa. E as pessoas acabam esquecendo os seus nomes e suas atitudes, naturalizando o tipo, conforme apresentado nesta análise.