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Feita a análise de dados, respondo agora a pergunta de pesquisa que orientou este trabalho. Esta será respondida com base nas duas vivências analisadas: a primeira e a última.

- Como o Pensar Alto em Grupo sobre a leitura de lendas indígenas amazônicas – aplicado em sala de aula e orientado pela minha prática pedagógica – pode contribuir para a formação do aluno leitor e para a valorização da cultura indígena?

Dividi essa macro-questão em duas sub-perguntas:

1ª- Quais ações da minha prática pedagógica, no evento de letramento do Pensar Alto em Grupo, puderam contribuir para a formação do aluno como leitor?

2ª- A leitura reflexiva das lendas amazônicas realizada no Pensar Alto em Grupo, em sala de aula, pôde contribuir para a valorização da cultura indígena?

Respondo minha questão de pesquisa discutindo alguns saberes necessários à prática pedagógica (Freire, 1996), pois avalio que contribuí para a formação de alunos da EJA como leitores e para a valorização da cultura indígena. Diante disso, comento, a seguir, alguns desses saberes e a relação deles com minhas ações, em sala de aula.

1- “Ensinar exige pesquisa” (p.14).

Com a consciência de que eu, como educadora, posso melhorar cada vez mais, com muita humildade, tenho sempre que buscar maneiras, métodos para melhorar o ensino de leitura. E é isso o que estou fazendo, com esta pesquisa. É a “consciência do inacabamento” (p.21), que possibilta ao ser humano entender que a pesquisa e o conhecimento são necessários a todo profissional.

2- “Ensinar exige criticidade” (p.15).

A partir do momento que reflito acerca de minhas ações, em sala de aula, questionando-as, estou sendo crítica comigo mesma.

3- “Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos” (p.15).

Ao longo desta pesquisa, relatei, que gosto muito de lecionar para turmas de EJA e que aprendo muito com meus alunos. Portanto, se aprendo é porque eu os ouço e, com este trabalho, o que mais me propus a fazer foi dar voz aos alunos, respeitando o conhecimento, a “autonomia do ser de cada educando” (p.24).

4- “Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação” (p.17).

Quando me propus a investigar minhas ações, mediando discussões dos alunos em vivências do Pensar Alto em Grupo, com a turma do 3ºT/C, corri riscos em virtude da grande quantidade de alunos e da minha inexperiência. Entretanto, tenho que ter a consciência de que a mudança pode gerar riscos, acertos, incoerências e isso pode ocorrer quando se lida com algo novo, como era, para mim, o instrumento pedagógico Pensar Alto em Grupo.

A prática do Pensar Alto em Grupo possibilitou-me observar que ocorre uma grande mudança no aluno: de um sujeito receptivo, passivo, quando ele tem espaço para a sua voz que é ouvida e valorizada, passa a ser sujeito ativo. E, eu como educadora, ao repensar minha prática pedagógica, vejo que passo a ser participante de uma nova prática, alicerçada no diálogo, na interação, no respeito, na conscientização de que contribuo - e muito - como educadora, para a formação não de alunos, mas de pessoas opinativas, engajadas e reflexivas.

Não foi fácil utilizar esse instrumento pedagógico com uma sala de aula com praticamente 22 alunos. Houve incoerências, mas serviram para a aprendizagem e para eu procurar não cometê-las em práticas futuras. Afinal:

“...esse instrumento pedagógico possibilita ao novo profissional a construção do sentido de um texto de forma colaborativa, participativa, ao promover interação entre todos os alunos utilizando o diálogo, permitindo que o aluno tenha voz para que expresse sua subjetividade e faça do texto um estímulo de reflexão sobre os acontecimentos da vida e do mundo e de todos neles envolvidos” (Moretto, 2006).

5- “Ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo” (p.38).

As minhas ações, em sala de aula, contribuem para a formação dos alunos como cidadãos e isso pode fazer a diferença para eles e para o convívio em sociedade.

Como professora, hoje percebo que erramos muito quando nos colocamos diante de nossos alunos como autoridade interpretativa, quando passamos exercícios mecânicos sobre textos, somente para trabalhar gramática ou repetir o que o próprio texto transmite, impondo as leituras. Não damos voz aos nossos alunos e não basta querermos que nosso aluno seja leitor, nós professores também

temos de o ser. A escola também pode contribuir muito, desenvolvendo projetos que envolvam prazer na leitura, bem como facilitando o contato dos alunos com os livros da biblioteca e propiciando espaço para momentos exclusivos de leitura. Além disso, é preciso que a escola não valorize tanto, praticamente de forma exclusiva, o uso de livros didáticos, como se estes fossem a única e melhor forma de se trabalhar com o corpo discente.

6- “Ensinar exige disponibilidade para o diálogo” (p.50).

Percebo que o diálogo entre professor e aluno permite que este se sinta valorizado e veja, na sala de aula, um ambiente para expor opiniões, fazer questionamentos. O que não acontece em aulas tradicionais que propiciam, por não dar voz aos alunos, um silenciamento.

Nas aulas de leitura pautadas na prática tradicional de ensino ocorre o que Coracini (2002) afirma:

“... o professor conduz o aluno para a sua leitura que, na verdade, acredita ser a única possível e, portanto, a única correta; o aluno a aceita sem questionar, mesmo porque se vê acuado pelo sentimento de ignorância com relação à língua, sentimento esse que reforça a assimetria e garante o caráter fixo dos lugares a serem ocupados em sala de aula pelos agentes do processo do ensino-aprendizagem...” (p.31).

Vejo que todas as discussões ocorridas em sala de aula sobre lendas indígenas, por meio do Pensar Alto em Grupo, contribuíram muito para uma reflexão da cultura indígena, visto que praticamente nada é discutido com os alunos sobre o indígena, como foi exposto na introdução deste trabalho.

Não houve uma maior conscientização e reflexão sobre a cultura indígena porque, eu poderia ter feito mais questionamentos, proposto a leitura de outros textos, pedido pesquisas, feito perguntas que levassem os alunos à reflexão, levantando questões. Para que não permaneça, por exemplo, a visão de que o índio é um ser humano extremamente indefeso, inocente, como se existissem dois extremos, de um lado bandido, o vilão: o branco; de outro, o mocinho, o pobre coitado: o índio.

Vejo que o professor tem nas perguntas, poderosas aliadas em sua prática pedagógica, por provocarem reflexão e estimularem o raciocínio dos alunos. Elas “são a essência do diálogo” (Mackay, 2001:7, 8).

(p.52).

Pretendo, sempre que possível, lecionar para alunos da EJA. Eu os vejo, apesar de terem muitas dificuldades, mais comprometidos com a educação, com vontade de aprender, porque, independentemente da idade, muitos deles têm sonhos profissionais, como cursar uma faculdade.

Freire (1996) acentua que refletir, analisar nossa prática como educadores, é uma “responsabilidade ética” (p.9). Analiso, portanto, que sou consciente dessa responsabilidade desde o momento em que passei a fazer parte do GEIM (Grupo de Estudos da Indeterminação da Metáfora), coordenado pela Profª Drª Mara Sophia Zanotto, pois estou buscando métodos que possibilitem melhorar minha prática docente com a finalidade de contribuir para a formação de meus alunos como leitores.

Acredito que o educador que quer bem aos educandos, questiona sempre suas ações, procurando melhorar cada vez mais.

Essa “responsabilidade ética” também faz com que eu compreenda cada vez mais que “ensinar inexiste sem aprender e vice-versa” (p.12). Esse aprender consiste em buscar conhecimentos, mas, principalmente em respeitar os alunos como seres humanos, com seus saberes, suas experiências de vida e propiciar espaços para que suas vozes sejam ouvidas e, fundamentalmente respeitadas.

A partir desta pesquisa, amadureci muito como educadora. As incoerências servem de aprendizado para que em práticas futuras eu procure, se possível, não cometê-las mais.

Esta pesquisa é muito relevante, pois mostra que é necessário que o professor faça uma reflexão constante sobre sua prática pedagógica e busque alternativas para melhorar o ensino de leitura; bem como possa refletir sobre a importância de trabalhar com a pluralidade cultural em sala de aula. Avalio que com este trabalho, uma porta se abre rumo à conscientização do quão necessário é dar voz aos alunos, valorizar os conhecimentos prévios e de mundo deles, sobretudo para discutir sobre aspectos culturais.

Creio que com o decorrer deste trabalho, ficou claro que tenho imenso carinho por trabalhar com os alunos da modalidade de ensino EJA, por isso apresento a seguir como finalização de minhas considerações, o depoimento de uma senhora de 64 anos de idade, alfabetizanda da EJA, que tanto me chamou a atenção no livro Educação de Jovens e Adultos: currículos e práticas pedagógicas,

de Valdo Barcelos (2010:23)

Tentei voltar a estudar por três vezes...na primeira fiz a minha matrícula e nem fui até a escola...na segunda fui até o portão do colégio e voltei para minha casa...na terceira entrei até dentro do colégio...até andei pelo corredor...quando tocou uma sineta saí correndo porta afore e ganhei a rua...na quarta tentativa em que me matriculei repeti tudo o que tinha feito nas outras vezes e fui mais longe...achei a sala de aula onde eu deveria estudar e entrei...levei um baita susto...a professora tinha chegado mais cedo...a danada...e já estava lá dentro...e eu como sou muito envergonhada não tive coragem de voltar para trás e fiquei sentada lá no fundo daquela sala...as minhas pernas tremiam...não via a hora da infame da sineta tocar de novo e eu me mandar dali...a professora conversou com todos nós...era uma mulher normal...assim até que nem eu...tinha filhos...era casada...fui ficando...ficando...voltei no outro dia...no outro...e estou aqui até hoje...ninguém mais me tira da escola...ainda mais que já sei até ler...

Eu também fui gostando de lecionar para EJA...fui gostando...fui gostando tanto que pretendo, enquanto for professora não viver sem esse privilégio.

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