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O discurso da culpabilização atravessava a fala dos professores. Para a maioria, a culpa pelos problemas que a escola enfrenta, hoje, é multifatorial e dela se excluíam, pois dentre os principais culpados se encontravam a má educação dos estudantes, a falta de investimentos do Estado na educação, a falta de apoio dos gestores e dos colegas, dentro da própria escola, e dos estudantes, que não aprendem. Para os professores, os alunos não se implicam no processo, pois não se comprometem com os estudos, não têm nenhum interesse e, além disso, não respeitam ninguém. É como se nada disso dissesse respeito ao professor, como se nesses casos não houvesse nenhuma implicação do trabalho pedagógico ou não tivesse, como educador, nenhuma participação nos destinos da escola e do aprendizado dos alunos.

Tem alguma coisa muito séria acontecendo no fundamental. Os alunos chegam aqui (no Ensino Médio) sem saber interpretar um texto. O que está acontecendo? Eu aprendi a interpretar um texto no terceiro ano. (Profa. Mara).

O sentimento de não saber o que fazer fica muito evidente e o professor se vê e aos seus pares como uma vítima e, como tal, está sempre em posição defensiva, como o ataque ao estudante, sob forma de revide, o que impede o reconhecimento

das potencialidades dos alunos. A posição defensiva visa retirar o professor de suas responsabilidades e do envolvimento que lhe é devido.

Uma coisa que me irrita é quando eu passo a atividade e eu peço os cadernos para dar o visto e o aluno pergunta: - Uai, professor, você vai ler tudo? Eu digo claro! Uai, alguma coisa aconteceu! Alguém não corrige os exercícios? (Prof. Tito).

Em determinados momentos, no grupo, parecia que os recursos psíquicos dos Mestres para lidar com as moções aversivas presentes no real da escola, estavam se esgarçando, eram cada vez mais delicados, muito precários. Os professores falavam como se estivessem no último fôlego do bom senso e a um passo da desestabilização psíquica. Assim, culpavam o outro pela falta de apoio e pelo seu desgaste diário na prática com os alunos.

Houve uma discussão sobre a atitude de se retirar ou não o estudante indisciplinado de sala de aula e o levar para a direção. Os professores divergiram em suas opiniões, como acontece em tantas outras situações do dia a dia na escola.

Acho que é pior chamar a direção para resolver, você tem que resolver a situação. (Prof. Tito).

É um erro chamar a direção para resolver as situações em sala. (Prof. Joel). A situação foi gerada em sala tem que resolver lá. (Profa. Mara).

Mas a direção tem que saber e nos ajudar eu não vou aguentar tudo sozinha. (Profa. Lia).

Assim como o aluno fica estigmatizado como sendo “insuportável” e culpado pelo próprio insucesso, o professor também fica com certo estigma quando adota conduta de encaminhamento do estudante para a direção ou orientação pedagógica, sendo acusado de depender das ações da gestão escolar, por não saber agir com firmeza com seus alunos em sala.

No caso abaixo, o professor reclama da falta de autoridade para com alguns estudantes. A fala relata um episódio de indisciplina e violência de um aluno contra uma colega, acontecido na sala aula de um dos docentes componentes do grupo.

A menina falou: Professor, pede para ele sair..., eu falei... saia ela não quer sua companhia, será possível? Ele deu um coice. Eu disse: não senhor! Você vai pra coordenação pra aprender a respeitar seus colegas. (Prof. Tito).

Outra fala se reporta ao discurso da exclusão e da culpabilização quando percebem que a educação, por si só, não é um dispositivo que garante mudança em um cenário de caos social. Os docentes relatam de maneira dura e até mesmo hostil, suas impressões sobre um ex-estudante da escola, que fora morto pela polícia na ocasião em que o grupo de escuta clínica acontecia.

A maldade está neles desde pequenos. O menino já é ruim; ele faz isso com um animal... e com um ser humano! É um psicopata. Já é ruim. Morreu pela polícia. Fez, pagou em qualquer idade. Aquele coração gelado era um bandido que era aluno da escola. (Profa. Mara).

Na escuta do grupo de professores percebeu-se um discurso quase homogêneo e em acordo com o discurso social a respeito do descontentamento com a educação, principalmente no que toca aos estudantes. Notou-se que os docentes esperam encontrar em suas salas crianças ideais, com famílias e condições de aprendizagem também ideais, mas ao se confrontarem com o real da prática docente sentiam-se frustrados e desanimados, sem a compreensão de que os estudantes são sujeitos em desenvolvimento e não estão prontos, como prometido na literatura. Muitos alunos não têm uma educação familiar coerente e consistente, e apresentam problemas sociais e econômicos importantes, cujos efeitos comparecem na escola e frustram os professores.

Ao se reportarem aos problemas socioeconômicos dos alunos, os professores, de maneira recorrente, usam um tom acusatório, parecendo culpabilizar os estudantes por suas condições de vida muito precárias. Toda a conversação gira em torno de discursos que não discutem soluções. Entretanto, o repertório de tais debates poderia ser trabalhado como material para pensar o desenvolvimento da reflexão em busca de soluções em conjunto como, por exemplo, a colaboração em equipe no ambiente de trabalho, com vista à superação ou, no mínimo, ao enfrentamento das questões que têm efeitos no processo de ensino-aprendizagem. Havia uma relação de poder cristalizada, que não admitia o diálogo, com vista a agir em busca de mudanças efetivas.

Se 10% dos alunos são interessados é muito. Eles não querem aprender. A gente fica falando sozinho lá na frente.

Não estou dizendo que todo mundo que mora nesse condomínio é marginal, é preconceito meu, eu sei que é.

Eles não respeitam nem os pais, em casa, quanto mais aqui, na escola. Nós, os professores, eles passam por cima, têm que falar mais alto pra ver se eles respeitam a gente (Prof. Joel).

Uma fala resumiu bem o discurso da culpabilização do aluno e deixou transparecer a frustração e a reação da docente, embora, na sua opinião, ela tenha se “desdobrado” para dar conta de seu trabalho.

Eu lavei minhas mãos, o resultado foi esse, de 43 alunos, 6 passaram. (Profa. Mara).

Foi possível perceber, assim, o quanto a escola abrigava o mal-estar e quão difícil era, para os professores, encontrar os meios e as ações necessários para atravessá-lo.

6.7 OS IMPASSES DO ATO DE EDUCAR

Educar nunca foi, nem nunca será uma tarefa fácil, ao contrário, é desafiadora, pois há algo de ineducável no sujeito, que é da ordem do desejo e das pulsões. Todavia, há sempre uma quota de idealização no ato educativo, pois educar compreende também se implicar com o outro, transmitir marcas simbólicas, dar ao sujeito condições de acesso à linguagem e sustentar a atribuição de sentido ao mundo, pelo sujeito, de maneira singular.

Como, no entanto, há sempre um fracasso inerente ao ato educativo, a falta proporcionada pela lacuna e ausência de sentido que, na maioria das vezes, ocorre no ato de educar, desencadeia preocupações e sofrimento no educador. Assim, a Profa. Lara comentou:

O Brasil gasta mais dinheiro com um presídio. É o país do remendo! Como manutenção de escola não é prioridade, se fosse, as coisas poderiam estar melhores.

E a professora seguiu criticando o que considerava os impasses da educação, compreendidos em termos de falta de investimento, de cuidado, de iniciativas e de políticas educacionais consistentes por parte do Estado: