4.5 Diskusjon
4.5.3 Østavind
Escutar o que o outro tem a dizer na escola, consistiu em um desafio, pois notadamente esta escuta envolve a trama do inconsciente em que habita o sujeito de desejo, já que a palavra carrega sentidos subjetivos, afetos singulares. Todavia, o desafio foi aceito mesmo sabendo que haverá sempre um déficit de compreensão, uma falta de sentido, um equívoco instalado entre quem fala e quem escuta.
Dentre as tantas queixas, os professores reclamavam que não eram escutados pela equipe e por toda a comunidade escolar, apontavam que as palavras que proferiam não tinham o menor valor. Existia também uma dificuldade em atribuir sentido às ideias do outro, dos pares, da equipe, de maneira a agregá-las para a cooperação, para a colaboração.
Cobrei da direção. Ele (o aluno) está na minha sala! Ele não vai ficar lá. (Prof. Joel).
Essa fala remete à indignação de um dos professores do grupo pela falta de apoio sentida por parte dos colegas da direção da escola, quando teve um sério impasse com um estudante por desrespeito e indisciplina. O professor se negava a continuar com o aluno em sala de aula enquanto o problema não fosse resolvido pela direção.
Para os docentes, na maioria das vezes, a saída face aos desafios era o autoritarismo, a imposição das ideias pessoais, verticalizadas, de cima para baixo. A “gestão” funcionava como um Outro institucional que ditava as ordens, as quais todos cumpriam calados e sem saber muito bem o porquê.
Eu tinha acabado de sair da coordenação... é que a gente está pegando nessa tecla (do respeito) que eles (os alunos) não respeitam o mínimo. Na direção, eu perguntei ao aluno: você está falando que eu estou mentindo? Mandei fazer o registro e não quero ele na minha sala! (Prof. Tito).
Ao discorrerem a respeito da burocracia escolar, Pereira, Paulino e Franco (2011) se referem à “cultura do silêncio” (p. 49) e afirmam que a maioria dos profissionais que atua fora de sala de aula, como diretores, coordenadores pedagógicos e outros, pode até possuir boa vontade, mas ao longo de suas trajetórias adquirem certo “verniz de conhecimento técnico” e optam por condutas autoritárias, muitas vezes centralizadoras, encobertas, com invólucros de afetividade, com o objetivo de acobertar ações desconectadas, ineficazes e, por vezes, pouco criativas, que calam os sujeitos, pois, no geral, fogem aos debates. Para os autores, esse modelo de gestão fomenta a hostilidade, a indiferença e mesmo a desautorização dos professores. Para corroborar esta ideia, citam Resende (1995, p. 147) que afirma que “a burocracia é um lindo mecanismo para a evasão de responsabilidades e culpas”.
O aluno que foi pego com o aparelho no ouvido... O menino ligou o fone na cara do professor. A direção passou em cada sala e de nada adiantou. (Prof. Guto).
Esse recorte de fala exemplifica muito bem como a falta de esclarecimentos e consentimentos a respeito das normas estabelecidas pode ser um fator que fomenta a indisciplina e, em alguns casos, a violência. Para o professor, o ato de “ligar o aparelho na cara dele” soou como violento. Para o adolescente, apenas um hábito de rotina. Certamente a regra a respeito do uso de aparelho eletrônicos em sala de
aula não teve a mesma atribuição de sentido para professores e alunos. Assim, a própria organização da escola se configurava como elemento desagregador da harmonia e da colaboração entre os membros da comunidade escolar.
O mal-estar docente, instalado nas relações interpessoais, contaminava o meio escolar, e foi assunto tratado em tom crescente, sendo falado na medida em que os docentes se sentiam confiantes em apontar como a violência dos estudantes e os problemas entre colegas denotavam uma determinada desarmonia no trabalho colaborativo e no planejamento das ações em conjunto.
Em 1914, Freud, em suas “Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise”, aponta que quando o sujeito não recorda o que foi recalcado ou esquecido, quando não vem à tona o conteúdo recalcado, ele atua. Nomeadamente, Freud (1914) associa os atos ou a atuação do sujeito aos conteúdos psíquicos recalcados. E, na sequência desta observação, acrescenta que o sujeito silencia os conteúdos recalcados, mas o repete como ato de maneira natural sem saber que o faz. De modo equivalente, recordar e atuar estão ligados à transferência entre o analista e seu paciente. A análise da repetição deriva desse mesmo pensamento que, por meio do ato ou do sintoma, de certa maneira, está a serviço do tratamento. Assim, o sintoma jamais poderá ser eliminado e, uma vez que seu papel é o de elaborar o sofrimento, há que se ter acesso e possibilidade de trabalho com seus conteúdos inconscientes, mas isso só será possível ao serem pronunciados, ao se tornarem presentes na fala do sujeito.
O menino me disse: Eu não chutei! Eu espanquei? Eu disse: você está dizendo que eu estou mentindo? Eu fiquei muito nervoso, levei ele pra direção e não adiantou, ninguém fez nada, foi no último horário. Ele não quer mais nada! Devia se mancar, o professor tá aí, mas não... Eu não queria que ele voltasse pra minha sala..., mas voltou, se ele quiser fazer ele faz... só não vai fazer nada na minha sala. Ai eu engrossei. Pra ele é natural ter atrito. (Prof. Joel).
No que concerne a este núcleo de significação, as falas mais recorrentes dos Mestres circularam em torno da desvalorização da profissão, da ausência de autoridade para com os estudantes, do desrespeito dos alunos com os professores e com os colegas de classe, da sobrecarga de atividades advindas da hiper-demanda escolar. A este respeito, uma professora usou a metáfora da lupa para dizer que se sentia vigiada e demandada pelos colegas, pais, estudantes, o tempo todo, sem descanso.
A profissão é estressante demais. Nós somos olhados com lupa o tempo todo. (Profa. Lara).
Os docentes reclamaram, ainda, das condições de trabalho, da falta do reconhecimento por parte dos estudantes, dos pais e dos gestores da escola. O sentimento de desamparo também foi repetidamente lembrado e falado, além dos conflitos pessoais em relação à própria escolha profissional, os confrontos diários com os estudantes, as péssimas condições de trabalho advindas da desorganização institucional. Todas essas queixas, a respeito da desarmonia nas relações interpessoais na escola, deixaram claro o sentimento de desamparo que assola o psiquismo do professor, deixando-o vulnerável às frustrações vivenciadas nas experiências cotidianas e à mercê das pulsões destrutivas, que os leva a produzir e repetir os sintomas do mal-estar na educação.