4 Analyse av aktørenes tolkningsrammer
4.3 Stortingsbehandlingen
4.3.2 Stortingsdebatten
O conceito de imaginação social nasce da ideia de que existe um conjunto de relações imagéticas que funcionam como uma essência ideológica de uma comunidade ou grupo. Essas representações, nascidas da construção coletiva, modelam as visões de mundo e as condutas de um grupo, bem como os estilos de vida presentes e permitidos naquela comunidade. Trata-se de uma construção que carrega ideologias e utopias e também símbolos, mitos, alegorias e rituais compartilhados por um dado grupo e que ajudam a determinar a construção dos sujeitos e as relações estabelecidas por esses sujeitos com o grupo, entre si e com aqueles que, a partir desse mesmo ferramental, passam a ser entendidos como o outro.
A rede imaginária possibilita-nos observar a vitalidade histórica das criações dos sujeitos — isto é, o uso social das representações e das ideias. Os símbolos revelam o que está por trás da organização da sociedade e da própria compreensão da história humana. A sua eficácia política vai depender da existência daquilo que Baczko chama de comunidade de imaginação ou comunidade de sentido. As significações imaginárias despertadas por imagens determinam referências simbólicas que definem, para os indivíduos de uma mesma comunidade, os meios inteligíveis de seus intercâmbios com as instituições. Em outras palavras: a imaginação é um dos modos pelos quais a consciência apreende a vida e a elabora. A consciência obriga o homem a sair de si mesmo, a buscar satisfações que ainda não encontrou. (MORAES: 2004.)
A histórica cultural nos mostra que entre as funções e mecanismos dos imaginários sociais está a efetiva intervenção na representação, nos símbolos e nas
práticas coletivas. Sendo assim, percebe-se que o estatuto de poder vigente naquele grupo se apoia nas construções simbólicas que o imaginário carrega. Durkheim (apud Baczko: 1985) evidencia a correlação entre as estruturas sociais e os sistemas de representação coletiva, afirmando que essa correlação assegura a coesão social do grupo. Em consonância com esse pensamento, Mauss afirma existir uma íntima e fatal relação entre comportamento e representação coletiva, mostrando que as relações de poderio se dão também no campo do simbólico.
Isso fica claro em algumas falas coletadas por nós, sobretudo quando os
Players discutem a maneira como eles esperam ser vistos dentro desse universo. Para
a maioria, cada raça representa um tipo de poder simbólico específico e a escolha dessa ou daquela personagem implica em como você vai ser recebido pelo grupo. Essa relação de poderio se dá no campo do simbólico, haja vista que todos os personagens de um jogo são projetados em igualdade de condições de competição, o fator extra é justamente a ação do jogador. Seu comportamento com os outros jogadores também se dá por meio de construções simbólicas, muito mais do que em uma avaliação racional/técnica diante das potencialidades da personagem dentro do jogo.
Player 11: “Véio”, não tem como você respeitar a porcaria de um
Elfo. Isso é coisa de frangote.
Player 12: Eu sempre achei elfo meio afeminado demais.
Player 11: Então, eu não confiaria num líder de clã que não fosse
humano ou anão. O cara não teve nem capacidade de ser a coisa certa, vou lá confiar que ele vai fazer as escolhas certas?
Player 14: Eu até concordo com você, player 11, sinto mais confiança
em humanos do que em outras raças, mas não sei se isso é tão significativo não. O cara pode ser um elfo e ser durão também.
Player 11: Se quisesse ser durão, tinha escolhido anão. Certeza. (Fala coletada durante o Grupo Focal 368)
Para Baczko, a associação entre imaginação e poder era algo paradoxal, já que colocava em contato termos cujas acepções remetiam a universos diferentes. Um real, sério e efetivo, e um outro cuja compreensão mais corriqueira o designava como uma faculdade produtora de ilusões. Isso se dava pela necessidade que algumas correntes de pensamento do século XIX sentiam de separar o “real” do “ilusório”. A construção de objetos como o “homem real”, despojado do seu imaginário, alinhavam-se perfeitamente ao sonho coletivo de uma história transparente.
É como se fosse possível separar a vida “real”, vivida num correr linear de tempo, de todas as significações que nós, enquanto indivíduos e enquanto grupo, atribuímos a esses fatos. Como se tais ações não fossem efetivamente guiadas por essas representações, como se essas representações não fornecessem modelos e legitimassem condutas. O que os estudos de Baczko e outros historiadores mostraram é que:
A imaginação social, além de fator regulador e estabilizador, também é a faculdade que permite que os modos de sociabilidade existentes não sejam considerados definitivos e como os únicos possíveis, e que possam ser concebidos outros modelos e outras fórmulas. (BACZKO: 1985)
Trata-se de considerar a imaginação social e o imaginário social como um arcabouço de elementos que se reorganizam de tempos em tempos. Os elementos mudam de carga simbólica para se adequarem à realidade que os circunda, mas também pode ser o motivador de mudanças nessa mesma realidade. Vislumbra-se uma proximidade entre o campo da imaginação e a vida cotidiana, trazendo para o centro da discussão um elemento ignorado por diversas correntes de pensamento que, cartesianamente, separavam real e imaginado em campos opostos e não miscíveis.
A imaginação e o imaginário trocam seu caráter periférico por um caráter central na construção dos modelos. Para Castoriadis, trata-se de um imaginário radical onde emerge o mundo do sujeito e do social-histórico, um imaginário onde a matriz ontológica se foca no fluxo e não no objeto, em um imaginário como algo fixo e determinado. Essa inversão de pensamento implica em um novo discurso sobre o sujeito, uma nova compreensão do homem a partir da imaginação, ampliado e não limitado ao plano físico ou biológico.
Os domínios do psíquico e do social-histórico introduzem um novo tipo de ser, mais próximo das multiplicidades inconsistentes que das realidades meramente conjuntivas. É preciso entender a especificidade não apenas “fenomenológica e descritiva, mas lógica e ontológica” desses dois estratos do ser. Ao examinar o sujeito além da fronteira do biológico, trazemos novamente à baila construções simbólicas consideradas apenas ficção ou fantasia. Aproximar real e imaginado deixa de ser tarefa dos tolos e passa ser uma estratégia de investigação da formação do real social.
Essa aproximação parece mais livres de amarras no mundo dos games. É interessante observar como, mesmo podendo optar por qualquer construção social e de poder, nossos Players acabam por repetir a mesma ordem social do seu real-físico em seu real imaginado. Fica claro, tanto em falas coletadas quanto nos vídeos enviados pelos Players, a relação dialética existente entre o real e o imaginário, usando o fantástico como veículo dessa dialética.