mesma coisa - pálida e magra; mas você não deve pensar que ela esteja de fato doente. Tenho certeza de que o calor é o responsável por sua condição, e não a natural e bela atividade de sua mente. É claro que não sobrecarregarei seu cérebro. Somos bastante importunadas por gente que assume a responsabilidade do mundo quando Deus a negligencia. Eles nos dizem que Helen está "fazendo coisas em excesso", que sua mente está ativa demais (essas mesmas pessoas achavam que ela não tinha mente alguma poucos meses atrás!) e sugerem muitos remédios impossíveis e absurdos. Mas até agora ninguém parece ter pensado em cloroformizá-la, o que é, penso eu, o único modo eficaz de parar o exercício natural das faculdades dela. É esquisito como as pessoas se prontificam sempre com conselhos em qualquer emergência real ou imaginária, e por mais que eu lhes mostre repetidamente que estão erradas, continuam a oferecer suas opiniões como se as tivessem recebido do Todo-Poderoso!
Estou ensinando Helen a escrever em guia de linha como uma espécie de distração. Isso lhe dá algo para fazer e a mantém quieta, o que acho desejável enquanto esse tempo enervante continuar. Helen tem uma absoluta mania de contar. Já contou tudo na casa e agora está contando as palavras em sua cartilha. Espero que lhe ocorra contar os cabelos da cabeça. Se ela pudesse ver e ouvir, acho que se livraria da energia supérflua por meios que, talvez, não sobrecarregassem tanto seu cérebro, embora eu suspeite que a criança comum encare seu brinquedo bem seriamente. O garotinho que move em círculos o seu "Trem de Nova York" no quarto das crianças, fazendo "curvas em ferradura" jamais sonhadas por engenheiros com menos imaginação, está concentrando toda a alma em sua locomotiva de brinquedo.
Ela acaba de dizer, com uma expressão preocupada: "Garota-não conta muito grande (muitas) palavras". Eu disse: "Não, vá brincar com Nancy". Mas tal sugestão não lhe agradou, pois respondeu: "Não, Nancy está muito doente".
Perguntei qual era o problema e ela disse: "Muito (muitos) dentes deixam Nancy doente". (Os dentes de Mildred estão nascendo.)
No outro dia, contei a Helen que a videira na cerca era uma "trepadeira". Ela achou isso muito divertido e começou imediatamente a descobrir analogias entre seus movimentos e o das plantas. Eles correm, trepam, saltam, pulam, curvam, caem, sobem e balançam; mas me diz maliciosa que ela é uma "planta-anda".
Na noite passada, Helen segurou um macio pano de lã enquanto eu o enrolava. Depois começou a girar e girar, soletrando para si mesma o tempo todo "Vento rápido, vento lento" e aparentemente gostando muito do seu conceito.
15 de junho de 1887: Tivemos uma gloriosa tempestade de trovões na noite passada e está muito mais fresco hoje. Estamos todos refrescados, como se tivéssemos tomado um banho de chuveiro.
Helen mostra-se viva como um grilo. Ela queria saber se os homens estavam atirando no céu quando sentiu o trovão e se as árvores e flores beberam toda a chuva.
19 de junho de 1887 [Este trecho foi publicado no Relatório de 1887 da Instituição
Perkins.]:
Minha alunazinha continua a manifestar a mesma avidez por ler quanto no princípio. Cada momento em que está acordada é gasto no esforço de satisfazer seu inato desejo de conhecimento, e sua mente trabalha de modo tão incessante, que chegamos a temer por sua saúde. Mas o apetite, que a abandonara há algumas semanas, voltou e seu sono parece mais quieto e natural. Ela fará sete anos no dia 27 deste mês. Sua altura é de 1,25 m e sua cabeça tem 53 centímetros de circunferência, traçando-se a linha em torno da cabeça de modo a passar sobre as saliências dos ossos parietal e frontal. Acima dessa linha a cabeça ergue-se uns três centímetros.
Durante nossas caminhadas soletramos continuamente e é uma delícia acompanhar isso com ações como saltar, pular, correr, andar rápido, andar devagar, e coisas assim.
Quando perde um ponto (no tricô ou crochê), ela diz: "Helen errada, professora vai chorar". Se quer água, diz: "Dê Helen água". Ela conhece 400 palavras, além de numerosos nomes próprios. Numa aula eu lhe ensinei essas palavras: estrado, colchão, lençol, cobertor, chupeta, colcha, travesseiro.
No dia seguinte descobri que ela se lembrava de todas, exceto colcha. No mesmo dia, em diferentes momentos, ela aprendeu as palavras: casa, mato, poeira, balanço, melado, rápido, lento, xarope-de-bordo e balcão, e não esqueceu nenhuma.
Isso lhe dará uma idéia da capacidade de retenção da memória dela. Helen pode contar até 30 rapidamente e escrever sete das letras e as palavras que podem ser feitas com a guia de linha. Ela parece entender o que é escrever cartas e está impaciente para "escrever Frank carta". Gosta de perfurar o papel com um estilete e suponho que seja porque pode examinar o resultado de seu trabalho; mas eu a observei um dia e fiquei muito surpresa em descobrir que ela imaginava estar
escrevendo uma carta. Soletrava "Eva" (uma prima de quem ela gosta muito) com uma mão, depois fazia de conta que a escrevia; depois soletrava "doente na cama", e escrevia isso. Continuou assim por quase uma hora. Ela estava (ou imaginava estar) pondo no papel as coisas que a tinham interessado. Quando terminou a carta, levou-a para a mãe e soletrou: "Frank carta", e deu-a ao irmão para que a levasse ao correio. Ela já havia ido comigo levar cartas ao correio.
Helen reconhece instantaneamente uma pessoa com quem já entrou em contato uma vez e soletra seu nome.
Ao contrário de Laura Bridgman, ela gosta de cavalheiros, e notamos que fica amiga de um cavalheiro mais rapidamente do que de uma senhora.
Está sempre pronta para partilhar qualquer coisa que tenha consigo, geralmente guardando muito pouco para si mesma. Gosta muito de roupas e de todo tipo de enfeites e objetos bonitos, e fica muito infeliz quando descobre um furo em qualquer coisa que esteja usando. Mesmo quando já está tão sonolenta que mal pode ficar de pé, insiste que se faça papelotes em seu cabelo. Ela achou um furo em sua bota na Outra manhã e, após o café, foi até o pai e soletrou: "Helen bota nova Simpson (seu irmão) charrete loja homem". Pode-se facilmente entender o que quer dizer.