encantados com Helen e a cobriram de presentes e beijos. Na primeira noite ela aprendeu o nome de todas as pessoas no hotel, cerca de 20, acho. Na manhã seguinte ficamos atônitos ao descobrir que ela se lembrava de todos eles e reconhecia cada um que conhecera na noite anterior. Ela ensinou aos jovens o alfabeto e vários deles aprenderam a falar. Uma das meninas ensinou-a a dançar a polca e um meninozinho mostrou-lhe seus coelhos e soletrou seus nomes para ela.
Helen ficou encantada e demonstrou seu prazer abraçando e beijando o rapazinho, o que o deixou muito embaraçado.
Fotografamos Helen com o peludo poodlezinho de olhos vermelhos, que conquistou as boas graças de minha dama por truques e astuciosas manobras conhecidos apenas pelos cães com instinto para obter o que querem.
Ela tem falado incessantemente desde sua volta sobre o que fez em Huntsville e notamos uma melhora muito nítida em sua capacidade de usar a linguagem. De modo bastante curioso, um passeio que fizemos ao alto do Monte Sano, uma linda montanha não longe de Huntsville, parece tê-la impressionado mais do que qualquer outra coisa, exceto o maravilhoso poodle. Helen lembra de tudo que lhe contei a respeito dele, e ao contá-lo para sua mãe repetiu as mesmas palavras e frases que eu tinha usado na minha descrição.
Concluindo, ela perguntou à mãe se gostaria de ver "montanha muito alta e bonita chapéu nuvem". Eu não usara essa expressão. Eu havia dito: "As nuvens tocam a montanha suavemente, como belas flores". Veja você, tive de usar palavras e imagens familiares a ela pelo tato. Mas parece quase impossível que meras palavras possam transmitir a alguém que nunca viu uma montanha a mais leve idéia da grandeza dessa.
E não vejo como alguém possa saber que impressão ela recebeu, ou a causa de seu prazer no que lhe foi dito.
Tudo que sabemos com certeza é que ela tem uma boa memória, imaginação e a faculdade de associação.
28 de agosto de 1887: Eu gostaria de que as coisas parassem de nascer! "Novos
filhotes", "novos bezerros" e "novos bebês’" mantêm o interesse de Helen no porquê e no objetivo das coisas no auge do calor. A chegada de um novo bebê em Ivy Green no outro dia foi a oportunidade de um novo jorro de perguntas sobre a origem dos bebês e coisas vivas em geral. "Onde Leila conseguiu novo bebê? Como o médico sabia onde achar bebê? Leila disse ao médico para pegar bebê novo pequeno? Onde o médico achou Guy e Prince?" (filhotes) "Por que Elizabeth é irmã de Evelyn?" etc. etc.
Tais perguntas às vezes eram feitas sob circunstâncias que as tornavam embaraçosas. Resolvi que algo precisava ser feito. Se era natural para Helen fazer tais perguntas, era meu dever respondê-las. Acho que é um grande equívoco despistar as crianças com falsidades e absurdos, quando o crescente poder de observação e discriminação excita nelas um desejo de conhecer as coisas. Desde o início, decidi responder a todas as perguntas de Helen da melhor forma que minha habilidade permitia, um modo inteligível para ela e ao mesmo tempo verdadeiro. "Por que eu trataria essas perguntas de modo diferente?", perguntei-me. Decidi que não havia motivo, exceto minha deplorável ignorância dos grandes fatos que fundamentam nossa existência fisica. Foi sem dúvida por causa dessa ignorância que enveredei correndo onde anjos mais experientes temem pisar. Não há uma alma viva nessa região do mundo a quem eu possa pedir conselho sobre isso, ou na verdade sobre qualquer outra dificuldade educacional. A única coisa que posso fazer numa perplexidade é seguir adiante e aprender com os erros.
Mas nesse caso acho que não cometi erros. Levei Helen e minha botânica, Como as plantas crescem, até a árvore, onde freqüentemente vamos para ler e estudar, e contei-lhe em palavras simples a história da vida das plantas. Lembrei-a do milho, feijões e melancias que ela plantara na primavera e disse-lhe que o milho alto na horta e os feijões e as melancias haviam crescido daquelas sementes. Expliquei-lhe como a terra guarda as sementes quentes e úmidas até que as pequenas folhas fiquem fortes o suficiente para brotarem à luz e ao ar onde podem respirar, crescer, florescer e fazer mais sementes, das quais outras plantas bebês crescerão.
Tracei uma analogia entre planta e vida animal e contei a Helen que as sementes são tão ovos quanto os ovos das galinhas e os ovos dos pássaros - que a mãe galinha mantém seus ovos quentes e secos até os pintinhos saírem. Fiz com que entendesse que toda vida vem de um ovo. A mãe pássaro põe os ovos num ninho e os mantém quentes até que os ovos sejam rompidos. A mãe peixe põe os ovos onde sabe que ficarão mais úmidos e seguros até ser tempo dos peixinhos saírem. Disse-lhe que podia chamar o ovo de o berço da vida. Disse-lhe também que outros animais como o cão e a vaca e seres humanos não põem ovos, mas nutrem os filhos em seu próprio corpo.
Não tive dificuldade em lhe deixar claro que se plantas e animais não produzissem filhotes da mesma espécie que eles deixariam de existir e tudo no mundo logo morreria.
Mas passei pela função do sexo tão levemente quanto possível. Contudo, tentei lhe dar a idéia de que o amor é o grande continuador da vida. O assunto era difícil e meu conhecimento inadequado; mas estou contente por não ter me esquivado de minha responsabilidade; pois mesmo tropeçando, hesitante e incompleta, minha explicação tocou profundas cordas de resposta na alma de minha alunazinha, e a rapidez com que ela compreende os grandes fatos da vida física confirma minha opinião de que a criança, quando vem ao mundo, tem adormecida nela todas as experiências da raça. Tais experiências são como negativos fotográficos até que a linguagem as desenvolva e faça surgir as imagens-memória.