Eu o conheço desde meus oito anos, e minha estima por ele tem aumentado com os anos. Sua inteligência e terna simpatia têm sido meu apoio e o da srta. Sullivan em épocas de provação e tristeza, e sua mão forte nos ajudou a atravessar muitos lugares difíceis; e o que fez para nós também tem feito para milhares daqueles com obrigações árduas a cumprir. Ele preencheu as velhas peles do dogma com o vinho novo do amor, mostrando aos homens aquilo em que se deve acreditar, pelo que se deve viver e ser livre, O que ele nos tem ensinado vimos lindamente expresso em sua própria vida - amor pelo país, bondade para com seus irmãos menos importantes e um desejo sincero de viver em ascensão e progresso espiritual. Ele tem sido um profeta e um inspirador para os homens, e um vigoroso agente da Palavra, amigo de toda a sua raça - Deus o abençoe!
Já escrevi sobre meu primeiro encontro com o dr. Alexander Graham Bell. Desde então tenho passado muitos dias felizes com ele em Washington e em sua bela casa no coração de Cape Breton Island, perto de Baddeck, o povoado tornado famoso pelo livro de Charles Dudley Warner. 35 No laboratório do dr. Bell ou nos campos na costa do grande Bras d'Or passei muitas horas deliciosas ouvindo-o sobre suas experiências e ajudando-o a empinar pipas através das quais ele espera descobrir as leis que governarão o futuro navio aéreo. Dr. Bell destaca-se em muitos campos da ciência e tem a arte de tornar interessantes todos os objetos que toca, mesmo as teorias mais difíceis de se compreender.
Ele nos faz sentir que, se tivéssemos um pouquinho mais de tempo, também poderíamos ser inventores. Tem um lado humorístico e poético, também. Ele é apaixonado por crianças.
Nunca está tão feliz como quando tem uma criancinha surda nos braços. Seus esforços em benefício dos surdos continuarão vivendo e abençoarão gerações ainda por nascer; e nós o amamos tanto pelo que ele próprio realizou quanto pelo que tem despertado nos outros.
Durante os dois anos que passei em Nova York tive muitas oportunidades de conversar com pessoas ilustres cujos nomes eu ouvira com freqüência, mas que jamais esperara conhecer. A maioria delas encontrei pela primeira vez na casa de meu bom amigo, sr. Laurence Hutton. 36 Foi um grande privilégio visitá-lo e à querida sra. Hutton em seu adorável lar, ver a biblioteca deles e ler as belas emoções e os pensamentos brilhantes que amigos talentosos escreveram para eles. Tem sido dito, com razão, que o sr. Hutton tem a faculdade de extrair os melhores pensamentos e os sentimentos mais bondosos de cada um. Não é preciso ler A boy I knew (O menino que conheço) para entendê-lo - o rapaz mais generoso e doce que já conheci; um bom
amigo em todas as épocas, que traça as pegadas do amor na vida dos cães assim como na de seus companheiros homens.
A sra. Hutton é uma amiga verdadeira e leal. Muito do que considero mais caro e mais precioso devo a ela, que com freqüência me aconselhou e ajudou em meu progresso na faculdade.
Quando acho meu trabalho especialmente dificil e desencorajador, ela me escreve cartas que me deixam contente e corajosa, pois é alguém de quem aprendemos que um dever penoso executado torna o seguinte mais fácil e comum.
O sr. Hutton me apresentou a muitos de seus amigos literatos, como William Dean Howells e Mark Twain, os maiores de todos. Também conheci Richard Watson Gilder e os srs. Edmund Clarence Stedman, assim como Charles Dudley Warner, o contador de histórias mais delicioso e o mais adorado amigo, cuja simpatia era tão ampla que se pode dizer dele com sinceridade que amava todas as coisas vivas e seu vizinho como a si mesmo. Certa vez o sr. Warner trouxe para me visitar o querido poeta dos bosques - John Burroughs. Todos eles foram gentis e simpáticos e percebi o encanto de suas maneiras como havia percebido o brilho de seus ensaios e poemas. Eu não conseguia acompanhar todas essas figuras literárias enquanto pulavam rapidamente de um assunto para outro e entravam em discussões profundas, ou faziam a conversa cintilar de epigramas e frases espirituosas. Era como o pequeno Ascanius, que acompanha com passos desiguais as grandes passadas heróicas de Enéias em direção a destinos poderosos. Mas eles me diziam muitas palavras bondosas. O sr. Gilder me contou sobre as jornadas que fizera ao luar através do vasto deserto até as Pirâmides, e numa carta ele me escreveu que fizera sua marca sob a assinatura bem fundo no papel para que eu pudesse senti-la. Isso me lembra que o dr. Hale costumava dar um toque pessoal a suas cartas para mim perfurando sua assinatura em braile. Li dos lábios de Mark Twain uma ou duas de suas ótimas histórias. Ele tem seu próprio jeito de pensar, dizer e fazer tudo. Sinto o cintilar de seus olhos em seu aperto de mão.
Mesmo enquanto ele expressa sua sabedoria cínica numa voz indescritivelmente arrastada, faz-nos sentir que seu coração é uma Ilíada terna de solidariedade humana.
Há uma multidão de outras pessoas interessantes que conheci em Nova York: a sra. Mary Mapes Dodge, 37 a adorada editora da St. Nicholas, e a sra. Riggs (Kate Douglas Wiggin), a doce autora de Patsy. Recebi delas presentes repletos de afeto, livros com muita imaginação, cartas iluminadas de alma e fotos que adoro que me sejam descritas repetidamente. Mas não tenho espaço para mencionar todos os meus amigos, e na verdade há coisas sobre eles escondidas por trás das asas de querubim,
coisas sagradas demais para serem expostas em fria matéria impressa. É com hesitação que sequer cheguei a falar da sra. Laurence Hutton.