imediatamente depois do café. O tempo está bom e o ar cheio do perfume dos morangos. Nosso objetivo é Keller's Landing, no Tennessee, a uns três quilômetros de distância. Nunca sabemos como chegar lá, ou onde estamos num determinado momento; mas isso só faz aumentar nosso prazer, especialmente quando tudo é novo e estranho. Na verdade, sinto como se nunca tivesse visto nada até agora; Helen descobre tanto sobre o que perguntar ao longo do caminho. Corremos atrás das borboletas e às vezes pegamos uma. Então sentamos sob uma árvore, ou à sombra de um arbusto, e conversamos sobre a borboleta.
Depois, se esta sobreviveu à aula, nós a deixamos ir, mas geralmente sua vida e beleza são sacrificadas no altar do aprendizado, embora em outro sentido ela viva para sempre. Pois não foi transformada em pensamentos vivos? É maravilhoso como as palavras geram idéias! Cada nova palavra que Helen aprende parece levar consigo a necessidade de outras mais. Sua mente cresce por meio de sua incessante atividade.
Keller's Landing foi usada durante a guerra para o desembarque de tropas, mas há muito tempo se desmantelou e está tomada por musgos e algas. A solidão do local deixa a pessoa nostálgica. Perto do local há uma bela fontezinha que Helen chama de "copo de esquilo", pois eu lhe contei que os esquilos iam ali para beber. Ela apalpou coelhos, esquilos mortos e outros animais silvestres, e está ansiosa para ver um "esquilo-anda", que interpretado significa um "esquilo vivo". Vamos para casa geralmente na hora do jantar e Helen está ansiosa para contar à mãe tudo que viu. Esse desejo de repetir o que lhe foi contado mostra um avanço marcante no desenvolvimento de seu intelecto e é um valioso estímulo para a aquísição da linguagem. Peço a seus amigos para estimulá-la a contar-lhes seus feitos e manifestar tanta curiosidade e prazer com as pequenas aventuras dela quanto puderem. Isto gratifica o amor da criança pela aprovação e mantém seu interesse nas coisas. Isso é a base da verdadeira inter-relação.
Ela comete muitos equívocos, claro, torce palavras e frases, põe o carro na frente dos bois e se mete em tremendos emaranhados de substantivos e verbos; mas a criança que ouve também o faz. Tenho certeza de que tais dificuldades vão se diluir
sozinhas. O impulso de contar é o que importa. Forneço uma palavra aqui e ali, às vezes uma frase, e sugiro algo que ela omitiu ou esqueceu. Portanto seu vocabulário cresce rapidamente e as novas palavras germinam e produzem novas idéias; e estas são o material de que o céu e a terra são feitos.
22 de maio de 1887: Meu trabalho fica mais interessante e absorvente a cada dia.
Helen é uma criança maravilhosa, tão espontânea e ávida por aprender. Ela conhece agora cerca de 300 palavras e muitas expressões idiomáticas, e só aprendeu a primeira palavra três meses atrás. É um raro privilégio assistir ao nascimento, crescimento e primeiras frágeis lutas de uma mente viva; esse privilégio é meu, sendo-me dada também a possibilidade de despertar e guiar essa inteligência brilhante.
Se ao menos eu fosse mais capacitada para essa grande tarefa! Sinto-me cada dia mais inadequada. Minha mente está cheia de idéias, mas não consigo pô-las em forma de trabalho. Minha mente é indisciplinada, cheia de pulos e saltos, e aqui e ali um monte de coisas empilham-se em cantos escuros.
Como anseio por colocá-las em ordem! Se pelo menos eu tivesse alguém para me ajudar! Eu própria preciso de um professor tanto quanto Helen. Sei que a educação dessa criança será o acontecimento marcante da minha vida, se eu tiver mente e perseverança para realizá-lo. Cheguei a uma conclusão: Helen precisa aprender a usar livros - na realidade, ambas precisamos aprender a usá-los, e isso me faz lembrar - você pode, por favor, pedir ao sr. Anagnos para conseguir para mim as psicologias de Perez e de Sully? Acho que me serão úteis.
Temos tido aulas lidas todos os dias. Geralmente levamos um dos pequenos livros para alfabetização até uma grande árvore perto da casa e passamos uma ou duas horas descobrindo as palavras que Helen já conhece. Fazemos disso uma espécie de jogo e tentamos ver quem pode encontrar as palavras mais rapidamente, Helen com os dedos ou eu com os olhos, e ela aprende tantas novas palavras quanto eu posso explicar com a ajuda daquelas que já conhece.
Quando seus dedos se iluminam sobre as palavras conhecidas, ela dá gritos de prazer e me abraça e beija de alegria, especialmente se acha que me derrotou. Você ficaria muito espantada de ver quantas palavras ela aprende em uma hora dessa maneira agradável. Depois eu coloco as palavras novas em pequenas frases num quadro e às vezes é possível contar uma pequena história sobre uma abelha ou um gato ou um garotinho desse modo. Posso agora dizer a Helen para subir ao andar de cima, descer, sair ou entrar em casa, trancar ou destrancar uma porta, levar ou trazer objetos, sentar, levantar, andar, correr, deitar, arrastar-se, rolar ou trepar. Ela está
encantada com as palavras-ação; portanto, não é nenhum problema ensinar-lhe os verbos.
Está sempre pronta para uma aula, e a avidez com que absorve idéias é maravilhosa. Ela se sente tão triunfante com a conquista de uma frase quanto um general que capturou a fortaleza do inimigo.
Um dos velhos hábitos de Helen, o mais forte e difícil de corrigir, é a tendência a quebrar coisas. Quando ela encontra algo no caminho, atira-o no chão não importa o que seja: um copo, uma jarra ou mesmo um lampião. Ela tem muitas bonecas e todas foram quebradas num acesso de raiva ou tédio. No outro dia um amigo lhe trouxe uma nova boneca de Memphis, e pensei em tentar fazer com que Helen entendesse que não devia quebrar a boneca. Eu a levei a fazer o movimento de bater com a cabeça da boneca na mesa e soletrei para ela: "Não, não, Helen é levada. Professora está triste", e fiz com que ela tocasse a expressão pesarosa do meu rosto. Então a fiz acariciar a boneca e beijar o lugar machucado e segurá-la gentilmente nos braços e soletrei para ela: "Helen boa, professora está feliz", e deixei-a tocar o sorriso no meu rosto. Ela repetiu esses movimentos várias vezes, imitando cada um deles, e então ficou muito quieta por um momento com uma expressão perturbada no rosto, que subitamente clareou e ela soletrou: "Helen boa" e torceu o rosto num sorriso muito grande e artificial. A seguir levou a boneca para o andar de cima, colocou-a na prateleira do alto no armário e desde então não tocou mais nela.
Por favor, dê afetuosas lembranças ao sr. Anagnos e mostre-lhe minha carta, se achar melhor. Soube que há uma criança surda e cega sendo educada na Instituição de Baltimore.