• No results found

Um vetor importante para compreender a política e a vida orgânica do PCB no período que estamos estudando, diz respeito ao paulatino processo de afastamento do partido da arena política onde se desenvolviam as contradições entre o capital e o trabalho, bem como do espaço político que fora construído pela oposição popular e de esquerda ao regime.

O Partido auto-referido como vanguarda da classe operária, que tinha (ao menos oficialmente) o mundo do trabalho como centro da sua política, enfrentou grandes dificuldades para se fazer ouvir pelo renascente movimento sindical do final dos anos 1970. Ao contrário de outros momentos de ascenso do movimento dos trabalhadores, dessa vez o PCB e a maioria de seus representados pareciam falar línguas diferentes (SILVA, 2005, p. 55).

A orientação política impressa pelo partido na luta política, aos poucos se encaminhou para uma posição na qual a centralidade da ação era pautada pela procura constante por articulações que pudessem criar condições para um pacto político social entre as classes e os dirigentes do aparelho de Estado. Essa perspectiva de negociação, aberta por medidas do governo que poderiam ser entendidas, no primeiro momento, como “lenta e gradual”, repercutiu no partido como o modelo de transição para a democracia formal. Portanto, para o PCB, diante do longo tempo de ditadura e da necessidade premente de liberdades democráticas para sua ação na sociedade, essa possibilidade de transição era uma oportunidade que não deveria se deixar perder. Mesmo que se tratasse de um acordo político entre as forças liberais burguesas da oposição, frações de classe da burguesia em deslocamento para o bloco no poder e as forças que davam base política para a sustentação do governo ditatorial. A direção do partido não se preocupava com as críticas internas sobre essa posição.

Durante toda a vigência do regime militar o PCB adotou a tática de ‘Frente Democrática’. Os pecebistas deveriam se aliar a todos os que se opunham à ditadura. O partido defendia que a derrubada do regime deveria se dar através de soluções politicamente negociadas. Mas as disputas internas permaneceram no interior da organização, alimentadas pelo dilema entre adotar uma postura mais ‘reformista’ ou mais ‘revolucionária’ (PANDOLFI, 1995, p. 207).

Começou, então, a ficar nítida a opção do partido por este espaço de atuação política, integrando-se, mesmo com questionamentos sobre a necessidade de pressão dos trabalhadores, ao pacto “pelo alto”. Isso, todavia, pela necessidade de se resolver rapidamente o processo da transição. No entanto, algumas questões sobressaem dessa orientação. A primeira, é a visão de que o papel dos trabalhadores naquele processo deveria ser de “grupo de pressão”73; a segunda, era a constante procura do PCB pela democracia formal como espaço privilegiado de luta para os comunistas. Este último aspecto é a questão central, tornando-se um dado perene dentro dos documentos pesquisados, que tem chamado atenção por nortear a história do partido em

diversos momentos do século XX e por se tornar preponderante nos anos 1980, período no qual se estabeleceu a derrota político-orgânica do partido. “O caminho da revolução brasileira seria o da gradual acumulação de reformas profundas dentro do próprio regime atual, chegando até as transformações radicais exigidas pelo desenvolvimento histórico brasileiro em sua etapa atual” (PCB, 1958, p. 5).

Por outro lado, existia um significativo movimento popular e operário na conjuntura política do processo de transição. Foram greves operárias e movimentações sindicais importantes, a exemplo das lutas dos bancários; bandeiras de lutas que mobilizaram expressivos segmentos populares, a exemplo da luta contra a carestia; organização e lutas pela terra no campo, a exemplo da reforma agrária; a participação das camadas médias que redescobriam o caminho das reivindicações, etc. No entanto, a lógica da ação do PCB subestimou as lutas populares, o papel das camadas médias e a centralidade das mobilizações e das lutas dos trabalhadores. Toda essa lógica pedagógica da negociação desenvolvida pelo partido, em função da ditadura da tática, não possibilitava que ele despertasse para o ascenso das organizações de esquerda e das oposições sindicais no campo e nas cidades numa conjuntura de enfrentamento político. Com essa postura o partido colocou em segundo plano o possível protagonismo dos trabalhadores no processo de transição democrática.

Mais importante do que o fato de Sarney ter se afastado da linha de Tancredo e ter retomado a linha da política econômica de ‘auto- reforma’ da ditadura militar, certamente, é o fato de ele ter frustrado as expectativas de milhões de brasileiros. As forças de esquerda que o apoiavam, a partir de certo ponto, começaram a sofrer um desgaste perturbador de suas bases. A esquerda do PMDB, engolindo a aliança com o PFL, perdia credibilidade. O MR-8 passava a ser visto como uma espécie de guarda pretoriana do ‘comandante Sarney’. PCB e PCdoB, atrasados em suas respectivas análises do processo político, mantinham-se atrelados aos compromissos que haviam assumido no momento tancrediano, sem levar em conta o fato de que a situação havia mudado (KONDER, 1988, p. 16).

Os trabalhadores tiveram como eixo principal de atuação no processo da transição democrática o questionamento rotineiro das políticas do governo e a contestação às forças políticas que se alinhavam com a ditadura. Portanto, essa integração se deu pela vertente da luta. Naquele momento, para os

trabalhadores, o mais importante não era se transformar em sujeito coletivo que tinha projeto de classe, como vanguarda que deveria lutar pela revolução socialista, mas sim, agir a partir dos seus interesses específicos e corporativos como pontos de pauta que deveriam determinar a luta dentro do processo de transição. No entanto, por outro lado, o PT se constituía “numa real alternativa, tanto à transição conservadora quanto às tentativas de ressurgimento do populismo e da direita” (PT, 1998, p. 236).

Apesar dos esforços políticos dos setores conservadores para moderar a transição, a partir do que se convencionou chamar de “lenta e segura”, com os instrumentos que afirmavam o modelo da negociação e do pacto, a nova vanguarda política e sindical apertava o processo com um conjunto representativo de reivindicações, que apesar de corporativos, foram educando os trabalhadores. Ao tempo em que perdia protagonismo o governo da ditadura burgo-militar, ganhava protagonismo a FIESP na defesa das frações de classe da burguesia, e as organizações do novo sindicalismo com suas variantes na organização das diversas lutas sociais.

[...] os novos agentes – entre os quais o proletariado do ABC, uma intelectualidade de novo tipo, camadas médias, outros setores urbanos e a burguesia industrial da FIESP, que incorporam os valores da democracia liberal à sua luta de oposição do regime – seriam os componentes estratégicos de uma nova ordem liberal no Brasil a serem levados na devida conta pelos comunistas em sua estratégia democrática radical para o país (SANTOS, 1994, p. 48).

Quanto mais o partido prezava pelo instrumento da negociação, da formação de coalizões para que a frente democrática tivesse ampla unidade para disputar as eleições e avançasse na negociação, mais se afastava do processo onde as forças operárias e populares davam protagonismo a uma nova esquerda que se inseria nas lutas de classes. Ao lado dessas circunstâncias, mesmo sem conseguir direcionar seus ataques às frações de classe da burguesia organizadas na FIESP, mesmo sem tirar lições das greves operárias do ABC paulista, mesmo com o que representava o colapso da política desenvolvimentista do governo e mesmo com o crescente pauperismo da população (ENGELS, 2010), O PCB lutava para continuar existindo diante da perda de hegemonia na esquerda brasileira e da intensa repressão que

Com o avanço do processo de transição, outro fator importante deslocou o eixo da luta do PCB, afastando-o mais ainda do centro das lutas operárias e populares: foi a questão da legalidade jurídica para o partido que se consolidou na consigna da negociação que inspirava o processo de pacto “pelo alto”. Constituíram-se, assim, as alianças que se confirmaram num bloco policlassista de amplo espectro de forças e de caráter conservador, a Aliança Democrática.

Instrumento do acordo entre forças democráticas liberais, conservadoras e até mesmo reacionárias para derrotar o candidato do regime militar e eleger Tancredo Neves e José Sarney, a Aliança Democrática viabilizou no colégio eleitoral, com apoio das massas populares, a formação do novo governo e assumiu a responsabilidade de implementar o ‘Compromisso com a Nação’ (PCB, 1987, p. 23).