Organizada a rotina de comando, definida as temáticas que se precisam debater e colocadas na pauta o que discutir sobre o Brasil, o partido resolveu criar, a partir do agrupamento de intelectuais que se encontravam na França, Itália, Portugal principalmente, uma assessoria que serviria para auxiliar o CC nas suas prospecções teóricas e formulações, o comando dessa assessoria foi entregue para Armênio Guedes.
Antes mesmo que essa estrutura fosse montada, um grupo de intelectuais do partido exilados na Europa foi influenciado pelas formulações do PCI47 que conseguira, como maior Partido Comunista do ocidente, influenciar os partidos da França e da Espanha.
O centro da irradiação eurocomunista estava contido nos escritos de Enrico Berlinguer48 (1976), Giorgio Napolitano49 (1976), Santiago Carrillo50 (1968) e diziam respeito ao papel da democracia no contexto da luta política e na via para se chegar ao poder. Contudo, não parava nessa pauta. Essa irradiação questionava o papel do socialismo na União Soviética e no leste- europeu a partir da discussão, também, sobre a democracia. Esse agrupamento de intelectuais tinha uma rotina de estudo bastante acentuada o que permitiu novas leituras sobre o marxismo e, a partir daí, um questionamento sobre os dogmas do aparato staliniano, o marxismo-leninismo e a esquemática vulgata produzida no período de Stálin.
Mas o interesse central do CC ao criar essa assessoria era entender e aprofundar o que se passava no Brasil, para poder formular resoluções que fornecessem alternativas às demandas políticas em curso: analisar o Brasil era a questão precípua que motivou a formação desse organismo auxiliar ao CC.
47 Partido Comunista Italiano. O PC responsável pelas formulações reformistas que universalizou a questão de um único valor para a democracia, tornando-se subsumido à lógica da democracia formal que projetou como via para o socialismo, as eleições regulares.
48 No período em questão era Secretário-Geral do Partido Comunista Italiano (PCI). 49 Era um importante dirigente do Partido Comunista Italiano e intelectual marxista destacado.
Todavia, efetivar esse plano de trabalho era visto por esses intelectuais como uma tarefa que só poderia ser realizada a partir das novas leituras colocadas no debate pelo PCI. Começa então uma ampla influência do pensamento reformista, originário das formulações do PCI, sobre o arcabouço teórico do PCB. No primeiro momento, através da chamada assessoria e, em seguida, pelo próprio corpo dirigente já influenciado por essa articulação teórica.
Contudo, se faz necessário registrar que importantes dirigentes se mostraram arredios ao arcabouço dessas novas formulações: Luiz Carlos Prestes, Anita Prestes, Marly Vianna, Agliberto Azevedo, Gregório Bezerra e outros situados nos setores intermediários do partido no exílio. Esse grupo mantinha uma rotina de estudo que tinha como eixo central as preocupações interpretativas sobre o Brasil. Com essa finalidade liam e debatiam as formulações surgidas no Brasil, a exemplo de Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, autores vinculados à teoria da dependência, à questão do capitalismo monopolista de Estado e ao modelo estatal autoritário brasileiro, de acordo com depoimento prestado por Anita Prestes (2012).
Esse coletivo, parte integrante do núcleo dirigente, mais para frente terá um duro debate interno diante da inflexão política que ocorreu em virtude da orientação que advinha dessa assessoria liderada por Armênio Guedes, do Comitê Central. Vários integrantes desse órgão auxiliar moravam na França, especialmente em Paris. Diante dos impasses políticos, oriundos da divergência nas formulações da assessoria, o núcleo em torno de Prestes enviava emissários para participar das reuniões em Paris. Anita Prestes foi designada para acompanhar essas reuniões, mas também Marly Vianna, José Salles e pouco mais para frente, ainda no ano de 1976 quando chegou à Europa conduzido por uma operação de resgate51, Giocondo Dias.
O local mais exemplar do qual a assessoria emanava suas formulações era o jornal Voz Operária, naquele momento dirigido pelo exilado e ex-militar cassado, Milton Temer52
. Aparelho que se transformou no objeto político da disputa interna que estava começando. O jornal funcionava em
51 Operação orientada pela União Soviética e comandada por José Salles, que contou com o apoio dos partidos comunistas da Argentina e da França.
[...] um escritório cedido por solidariedade dos companheiros do PCF53 em Irvy, subúrbio de Paris, onde fazíamos as reuniões de
pauta, distribuíamos tarefas e eu fazia a edição final – de textos e gráfica. Tinha periodicidade mensal, e era impressa na Itália, por solidariedade do PCI (TEMER, 2012, p. 2).
O papel inicialmente estabelecido para a assessoria era de instrumento auxiliar de formulação para orientar a direção do partido nas temáticas que ele precisava enfrentar: linha política, análises de conjuntura e plano de ação, foram paulatinamente se adensando na tomada de posição em favor das formulações do eurocomunismo centradas na visão da democracia como via única para o socialismo.
Essa assessoria do Comitê Central no exílio trabalhou para armar um setor do CC para a disputa da linha política no núcleo dirigente do partido. Para realizar esse intento era necessário ter o controle do jornal do partido que era enviado rotineiramente para o Brasil. Mas também do jornal que circulava na Europa para orientar a militância exilada: Brasil mês a mês.
É nesse cenário de disputa pelas formulações que dirigiriam os comunistas brasileiros que surgiu, ainda de forma incipiente e pautada na leitura sobre a “democracia progressiva” de Palmiro Togliatti, os conceitos balizadores do que seria qualificado, por Carlos Nelson Coutinho, como “democracia como valor universal”. Temática que balizou o debate partidário e reposicionou as forças políticas internas na confecção de uma duradoura crise política e orgânica.