7. Bill Clinton
7.2 Stephen Breyer (1994)
A partir de Lacan (1985), constatamos que é através do Édipo que o sujeito acede ao registro simbólico, isto é, à cultura que é a verdadeira natureza do homem. Em outras palavras, não se nasce sujeito. A constituição subjetiva é construída em tempos: na primeira etapa, a criança se identifica especularmente com o objeto de desejo de sua mãe, o falo. Por
isso, é necessário e suficiente ser o falo. Nesta etapa, muitas coisas se detêm e se fixam num certo sentido. Conforme a maneira mais ou menos satisfatória da mensagem se realizar na mãe, podem fundar-se certo número de distúrbios e perturbações, dentre eles as identificações perversas (Kaplan e colaboradores, 1997).
Esta é a fase nomeada por Lacan (1987a) de fase do espelho, onde a criança se reconhece numa imagem unificada e alienada na imagem do outro materno. O eu se constitui, assim, como um outro.
Outro passo adiante há que ser dado: o pai tem que chamar a si a função de interditar essa relação paradisíaca entre a mãe e o bebê; o pai aparece como privador da mãe, desvinculando a criança de sua identificação imaginária à mãe, fazendo surgir o 1º aparecimento da lei, a palavra do pai mediando a relação entre a criança e a mãe. E finalmente, o 3º tempo, onde o pai aparece como aquele que tem o falo. O pai é internalizado no sujeito como ideal do eu e a partir daí o complexo de Édipo declina (Lacan, 1985).
Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, diz-nos que a identificação é a primeiríssima forma de laço sentimental ao outro e tem lugar antes da escolha de objeto. A identificação recai sobre o pai: ele é o que se quer ser. O pai é a referência do ser falante, é ele que inaugura um campo de significação. Subjacente à primeira identificação, encontra- se o pai primitivo, o pai da horda primitiva, o pai gozador de todas as mulheres. É o pai da exceção, que diz não à castração. Freud reserva a denominação de incorporação para o tempo originário da identificação. É essa identificação primeira que vai operar nos primórdios da formação do eu como uma matriz simbólica essencial na estruturação da identificação especular. Portanto, na experiência do espelho (primeiro tempo do Édipo) em que a criança se reconhece na imagem da mãe, já supõe a ação da marca simbólica.
O natural no homem, portanto, é isomorfo à ordem edipiana. É através do Édipo que o sujeito acede ao registro simbólico, isto é, à cultura. Assim, à medida que todo homem participa de uma cultura, a cultura só pode aparecer como a única natureza do homem (Coutinho Jorge, 1999).
A função do pai para Freud é a interdição. Assim, o pai é uma função, não importa por quem é exercida. Primeiro a lei, depois o desejo. A função paterna é a garantia de algo da ordem da clivagem, da falta, da ordem da abertura do acesso à erogeneidade, do acesso ao inconsciente ou do gozo ou reciprocamente da interdição.
A castração quer dizer que é preciso que o gozo seja recusado para que ele possa ser atingido sobre a escala invertida da Lei do desejo, isto é, quanto mais gozo, menos desejo. A castração é o que rege o desejo. O gozo absoluto, gozo mítico, foi recusado para poder inscrever-se na lei do desejo.
A castração é idêntica à constituição do sujeito do desejo, não do sujeito da necessidade, do sujeito frustrado, mas do sujeito do desejo. É sempre o Outro que o impede de gozar. O sujeito alimenta as ficções que justificam imaginariamente a possibilidade da pulsão ser satisfeita e isso, na adolescência, pode ser mais perturbador.
A questão edípica é a forma como o sujeito se posiciona frente ao pai. Na estrutura, a falta está na origem. Lacan (1983) avança aí para mostrar a questão do pai em relação à estrutura do significante. Ele formaliza a função paterna do ponto de vista do sujeito do significante e ordena numa série de elementos articulados:
1 – o significante do Nome do Pai, que tem a função de metaforizar o desejo da mãe nomeando a lei do desejo, como sexual;
2 – a metáfora paterna que permite ao sujeito interpretar esse desejo;
3 – a significação fálica que submete, no campo da linguagem, esse desejo à castração.
Freud, desde 1912, em "Totem e Tabu", havia admitido algumas teses antropológicas, as quais utilizou como matéria para seu texto tão controvertido. Essas teses eram de Darwin, Atkinson e Robertison Smith. Ele próprio afirma que fez uso dessas idéias teóricas, combinando-as (Oliveira, 1997/2000).
De Darwin, tomou de empréstimo a afirmação de que, em sua origem, os seres humanos viviam em pequenos grupos liderados por um macho mais velho, que detinha a posse de todas as fêmeas e punia ou desvencilhava-se dos machos mais jovens, inclusive os próprios filhos.
De Atkinson, a idéia de que os filhos reunidos em rebelião puseram fim a este sistema, assassinando o pai e, em seguida, devorando-o em comum.
Baseado em Robertison Smith, conjeturou que ulteriormente ao poder absoluto do pai, apareceu uma nova organização, a qual regia um modelo de fraternidade referido a um totem. Os irmãos renunciaram às mulheres e instituíram a exogamia. Rompeu-se o poder do pai e as famílias reuniram-se em matriarcado. No entanto, a ambigüidade em relação ao pai era patente e um animal específico foi colocado em seu lugar. Desta forma, o totem representava um espírito protetor e contava com os maiores cuidados do grupo, não podendo ser morto ou ferido. Uma vez por ano estabelecia-se um ritual no qual o animal totêmico era despedaçado e comido em comum. Esta refeição era obrigatória a todos do grupo, que através dela reviviam a morte do pai e estabeleciam a ordem social, as leis morais e a religião.
Em "Totem e Tabu" (1974), Freud parece estabelecer a gravidade do lugar de um pai e seus efeitos perenes. Porém, no "Moisés e o Monoteísmo" (1976), este estatuto do pai ganha ordenação, uma vez que se erige principalmente como uma função determinante dos efeitos soberanos da malha simbólica que faz descender. Portanto, o "Moisés" sublinha a questão: O que é um pai? Questão que Lacan, com todo empenho, tratará de demonstrar, contando para isso com as pistas contundentes deixadas por Freud na tangente desse texto. Aí aparecem elementos precisos, embora inarticulados, sobre a relação que Lacan irá fazer no aforismo do "inconsciente estruturado como uma linguagem", a partir de sua teoria sobre a inscrição da Metáfora Paterna, que é metáfora do desejo da mãe (Lacan, 1987a, p. 127). Nessa mesma obra, Freud (1974) afirma que a existência da exceção do pai fundador foi o que possibilitou o aparecimento do clã, isto é, o conjunto dos filhos castrados.
O termo paternidade tem sido analisado segundo as perspectivas de modificações da ordem social, cultural e da estrutura familiar. Muito se tem estudado no Instituto de Estudos Psicanalíticos – IEPSI e na Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle – SPID, membro da International Federation of Psichoanalytic Societies, anteriormente identificados, sobre a sua real significação, mas o papel do “pai simbólico” tem sido deixado de lado e a pretensão maior tem se concentrado em compreender o papel do pai no contexto familiar. Tais estudos estão tornando possível constatar, nos dias atuais, o enfraquecimento da figura paterna, seja como genitor, o pai da realidade, seja como função simbólica da paternidade, que sustenta esse próprio genitor.
Para esclarecer a correlação entre enfraquecimento da função paterna e adolescência no Colégio, torna-se necessário situar o papel da função paterna na constituição do sujeito tal como a psicanálise o concebe: sujeito dividido diante da lei que o constitui. Esta questão deve partir da consideração de que o declínio da função paterna encontra uma radicalização
no período contemporâneo. O problema que se coloca, então, é que a radicalidade dos efeitos do declínio da função paterna geraria impasses para a teorização acerca da constituição subjetiva contemporânea, dado que o mito de Édipo já não mais responderia satisfatoriamente às “novas formas de organização familiar”, conforme se infere no texto de Paoli (2002), para quem:
“O complexo de Édipo freudiano funcionava como estrutura, pois exprimia a cultura patriarcal, em um contexto espaço-tempo: a composição da família demarcava lugares e funções, os valores eram universais e incontestáveis, o apreço à verdade constituía-se na única ética (p.10). A contemporaneidade nos aponta a busca do sujeito de outros ideais identificatórios, que lhe permitam se orientar quanto ao campo do desejo e gozo. A flutuação dessas identificações indica a sensação da temporalidade e contingência dos valores, a dúvida sobre no que consistiria a verdade. O declínio dos ideais determinou sujeitos à deriva, que não compreendem a lei como uma radicalidade, mas como o que é negociável, temporário, circunstancial, como diz Miller, são tempos de um “Outro que não existe”(p.11).
Esses sujeitos à deriva, ditos na fase adolescência, na modernidade, percebem que o mundo dos adultos não é mais ideal, pois verificam que esse lugar apresentado como local para realização e satisfação plena não existe. Constata-se pelas dificuldades vivenciadas pelos professores, na atualidade, sobretudo para aqueles que lidam com os sujeitos em tal fase.
Portanto, encontrar uma teoria da constituição do sujeito é também circunscrever o sujeito moderno sobre o qual a psicanálise opera. Para este propósito é indispensável o recurso ao conceito de castração em Lacan, na medida em que é a partir da sua crítica que este conceito passa a estar referido a um dado de estrutura que, por estar para além do
Édipo, se presentifica, necessariamente, a todo e qualquer sujeito da linguagem (Lacan, 1985, p. 119).
Entendo que a psicanálise propõe adequada significação para a função paterna. O apelo ao pai é o pedido de uma interdição ao gozo. Quando a função paterna falha, sobrevém um sintoma. O sintoma, então, é o pai como metáfora paterna. Em alguns sujeitos, falhando a interdição, obtém-se um efeito de gozo pleno. A função do pai para Freud, na ação triangular do Complexo de Édipo, é a interdição.
Durante o Fórum Nacional de Drogas realizado no Unicentro Newton Paiva em setembro de 1999, a Dra. Alba Zaluar, referindo-se ao aumento do consumo de drogas entre os jovens, chamou a atenção para o “enfraquecimento dos laços, das chamadas redes de autoridades, da perda do contato com os pais”. Segundo suas palavras, a família mudou muito, há falta de limites para os filhos e falta de exemplos dos pais (Soares, 2000, pp. 165- 166).
Com as mudanças da família, novos tipos de laços e união tornaram-se possíveis, como, por exemplo, filhos de um primeiro casamento da mulher que mora com um novo parceiro. Na família reestruturada, a função paterna é diferenciada. A partir dos avanços da ciência, hoje já se pode gerar filhos em laboratórios, de pai anônimo. Casais gays desejam formar famílias e adotar filhos (Prado, 1981).
Segundo Santiago (1995, p. 4), existe a função paterna e a ocupação dessa função. Para esse autor, nas famílias mais antigas, o pai tinha um parecer muito mais valorizado do que hoje, como, por exemplo, o pai da cultura católica equivalente a Deus e “todo amor”. A função paterna era comparada à de Deus, “todo amor” e, dentro da família, o pai encarnou esse lugar. As legislações foram elaboradas através dessa idéia sobre o pai; houve uma
ruptura na forma de ajustamento do pai à sua função, devido à ciência, na modernidade, rompendo, com certo aspecto positivo, o pai e colocando-o vinculado ao aspecto da perda, do que não funciona (Santiago, 1995, p. 4).
Assim, o pai é desvalorizado e dispensado em toda uma série de níveis. Alexandre Stevens (1996, p.105) acrescenta que, em certos países, há todo um questionamento sobre o nome que a criança portará, enfatizando essa desvalorização.
Associado ao declínio da paternidade, há o declínio dos ideais, que não servem mais como pontos de referência aos adolescentes. Carlo Viganó, psicanalista italiano, durante sua palestra intitulada “Adolescência e seus problemas”, realizada em 23 de agosto de 1999, em Milão, na Itália, para pesquisadores do Campo Freudiano, afirmou que, antigamente, o pai podia ser deixado pelo filho, porque o filho conservava dentro de si o ideal paterno, a lei paterna; e o ideal é que produz o objeto de gozo, que lhe dá um significado (Viganó, 1999, p. 9).
Com efeito, Viganó (1999) nos esclarece sobre as condições atuais referentes às transformações familiares que dificultam a travessia dos adolescentes à vida adulta. Antes, o ideal paterno podia ser pensado como o agente da separação, que possibilitava ao jovem tornar-se responsável por si mesmo perante a autoridade e ter a marca de adulto. Atualmente, as toxicomanias e os atos infracionais podem ser pensados como ritos de separação, na falta dos ritos de iniciação, num mundo onde a autoridade paterna e os ideais não servem mais de pontos de referência. Segundo Viganó, os estatutos dos ritos são, atualmente, uma autogestão – festas, piercings, drogas, anorexia etc. São formas de se colocarem marcas no corpo contra a família.
Para tornar-se homem, o sujeito confrontou-se, na sua infância, com a existência desse “menos um” que escapa à castração, e é esse mesmo lugar de exceção que ocupa, ou deveria ocupar, o pai em determinados momentos, junto ao seu filho (Lacan, 1987a). Mas ao contrário do pai mítico terrível, observa-se que o horizonte contemporâneo da paternidade busca apagar essa dimensão da exceção considerada como essencial à transmissão da castração no homem.
Segundo Lacan (1983), o sujeito nasce como efeito de um menos. Tal fato instala, necessariamente, um certo mal-estar, um desconforto que causará um movimento de busca incessante, naquele lugar mesmo onde algo se perdeu. Então se inicia o que Lacan denominou de repetição da impossibilidade na cadeia significante. Esse algo que “não cessa de se escrever” é necessário e indica a impossibilidade que o próprio recalque originário aponta. O autor assevera que todo esse movimento se conserva porque existem pontos de encontros que, por serem sempre carentes, mostram a possibilidade de realização. Portanto, é neste momento que o sintoma surge para pôr em execução o restabelecimento do laço entre o sujeito e o Outro. Isso pode ser uma saída para evitar o encontro com a castração.
Assim, entendo que, entre o impossível, que “não cessa de não se escrever” e o necessário, que “não cessa de se escrever”, aparece um sujeito que empregará energia complementar para combater a falta de prazer que tal situação pode criar. Ocorre a luta entre o impossível e o necessário no sintoma e as relações entre o impossível e o necessário se restabelecem, como se o sujeito obtivesse satisfação por não querer saber que algo “não cessa de não se escrever” e isto seria uma satisfação substitutiva que, mesmo provocando desprazer, seria onde o sujeito teria satisfação. Então, o sintoma seria uma tentativa de harmonizar, num lugar, onde o menos um se instalou, provocando desacordo.
Sendo o sintoma considerado por Lacan como algo que contribuiria para harmonizar o lugar que o um menos se instalou, vale ressaltar algumas idéias sobre o conceito. Comumente, considera-se um sintoma como um distúrbio que causa sofrimento e refere-se a um estado doentio. Em psicanálise, segundo Nasio (1993), o sintoma apresenta-se diferentemente de um distúrbio que causa sofrimento. É um mal-estar que se impõe a nós e nos questiona. Há uma descrição desse mal-estar com palavras que valem por si e que têm sentido diferente do próprio por analogia ou semelhança, além de serem inesperadas. Nasio (1993) nos esclarece que o sintoma é “um ato involuntário, produzido além de qualquer intencionalidade e de qualquer saber consciente” (p. 13). Conclui que o sintoma é uma manifestação do inconsciente.
Nasio (1993) também nos ensina que há discordância entre os conceitos de sintoma para a medicina e para a psicanálise. A noção médica se refere a uma harmonia como objetivo a alcançar, pois este destrói a harmonia, e a psicanálise irá tratar como harmonia de uma falta a um menos que se denomina castração. Este também nos apóia nesta questão, quando afirma que o sintoma “é um ato que menos remete a um estado doentio do que a um processo chamado inconsciente” (p. 13).
7. Relações dos Adolescentes no Colégio.