Agostinho da Silva foi um homem que teve muita experiência com a instituição “universidade”, não necessariamente uma vivência como professor, embora também tenha sido, dentre inúmeras funções/cargos em que atuou, mas, basicamente, o vivenciar o mundo
universitário por ter trabalhado na constituição de algumas, aqui no Brasil, como a da Universidade Federal da Paraíba, a Federal da Bahia e a Universidade Federal de Santa Catarina.
A visão desse pensador sobre esta instituição é bem peculiar. Ele considerou como Universidade o espaço e aqui considera não somente o espaço físico, mas o temporal também, no qual predomina a fraternidade, e como tal, ele considerou que a primeira Universidade que a história humana registra acontece na Antiguidade clássica, na Grécia e Roma.
[...] ensino que é para além daquele formativo do cidadão médio. Uma época que podemos referir à antiguidade clássica, Grécia e Roma; uma época que se iniciou com o estabelecimento da Idade Média e uma época que provavelmente estamos iniciando agora [...]. (SILVA, 2000b, p. 34)
Agostinho considera que, embora o ensino superior não tivesse forma, ou não fosse estruturado, não sendo, portanto, organizado, se dirigiu com um esforço no qual existiu uma comunidade de professores e alunos, que muitas vezes não se sabia distinguir quem era o professor e quem era o aluno, pois existia uma fraternidade, e isso se dirigiu “a estabelecer os fundamentos daquilo que poderia ser a cultura e a ciência do futuro”. Os gregos procuraram e depois os romanos espalharam pelo mundo a base do que viria ser a Ciência, para a Filosofia de modo geral, um pensamento organizado, de modo que viesse organizar o mundo.
Oriundo de seu método espiral, também encontramos este posicionamento em outro texto:
Universidade mesmo, e a primeira, foi a da Grécia, estabelecida em qualquer canto, com mestres mais esquináticos que catedráticos, com aventureiros das aventuras que valiam a pena, e por ela ficou estabelecido que é possível entender o mundo, que o podemos de alguma forma modelar e que vale a pena o esforço de o fazer. (SILVA, 1999a, p. 364).
Outro espaço-tempo em que Agostinho da Silva considera como Universidade é a Revolução Cristã que provocou uma verdadeira revolução social no mundo. Ele considera a Revolução Cristã como um ensino superior, que classifica como uma Universidade, pois:
[...] homens se congregam, outra vez, numa comunidade de professores e alunos para elevar não uma ideia simplesmente científica, essa da ideia geral, não apenas alguma coisa que unisse os homens pelo intelecto, mas para explorar todo o pensamento possível e toda a energia possível à volta de uma ideia nova que aparecera e que é a ideia da fraternidade, a ideia da irmandade dos homens. Podemos dizer que a Universidade actual que vem da Universidade medieval é uma
Universidade que se alicerça sobre a ideia da fraternidade, sobre uma ideia, digamos de caridade, sobre uma ideia de esforço comum para atingir uma verdade que não é já apenas uma verdade puramente intelectual, mas uma verdade também de sentimentos, uma verdade de unidade entre os homens [...]. (SILVA, 2000b, p. 34)
Como expresso quando nos reportamos ao pensamento filosófico-religioso de Agostinho da Silva imbricado, encontramos, no seu entendimento de universidade a presença de uma comunidade fraterna muito forte. Em outro fragmento de texto, temos que:
Universidade segunda a tivemos na Idade Média, quando o objetivo central era o de entender o Deus-Pai, não o Deus-Chefe que se revelara a Moisés, ou ele o inventara como primeiro dos Poetas Condutores de Homens [...] e até a ciência e a técnica que a partir da Universidade medieval se desenvolveram ajudaram nessa fraternidade, tornando menos ásperas as relações entre os homens, e até as relações dos homens com os outros seres seus companheiros [...]. (SILVA, 1999b, p. 364)
Agostinho da Silva, em 1968, convidado para depor na Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a crise que assolava o sistema de Ensino Superior no Brasil expôs o seu pensamento sobre o assunto e, em linhas gerais, o que ele pensava a respeito do problema, persiste, em muito até hoje.
O registro é documentado na Câmara dos Deputados e foi publicado pela Editora Âncora, fazendo parte do livro, “Agostinho da Silva. Textos Pedagógicos II”, o qual nos dá suporte para uma análise de seu pensamento.
A crise da Universidade ou o problema da Universidade é uma questão que preocupa não só o Brasil como todo o mundo onde a instituição Universidade ganhou raízes. O que de facto acontece em todo o ponto em que a Universidade se estabeleceu é que a instituição está se revelando velha, ultrapassada. Naturalmente tem havido várias fases de ensino superior no mundo do ensino que é para além daquele formativo do cidadão médio. Uma época que podemos referir à antiguidade clássica, Grécia e Roma. [...]. (SILVA, 2000b, p. 34)
Vemos, na interpretação de Agostinho da Silva (2000b, p. 44) é que ele prega o tempo todo sua preocupação com a humanidade. Por isso, não adianta a constituição de uma Universidade excelente do ponto de vista técnico, se não houver o ponto de vista humano. Dessa premissa, a liberdade é importante. Assim ele assevera: “A Universidade tem que ser completamente livre” e, para quem vive a Universidade, o verdadeiro homem de Universidade não deve ter medo do “confronto”. O essencial para o “homem verdadeiramente de universidade” não é ter quem o apoie e sim quem o contradiga, “é ter quem esteja sempre junto dele não deixando que a sua imaginação o leve por caminhos errados”. Nessa liberdade a contradição é muito importante.
Assim, para o verdadeiro homem de Universidade, segundo Agostinho da Silva, “cada passo esteja dentro dele como contrário, para que da soma dos dois possa resultar alguma coisa de útil”. Ele defende o diálogo sem medo.
Agostinho da Silva foi muito crítico da atuação da Universidade, para a qual defendia profundas reformas. Em vários textos, enaltece o fato de Portugal não ter permitido a criação de universidade no Brasil, que, para ele, não significou nenhum atraso. Assim ele asseverou:
[...] a Universidade serviu apenas para criar um falso escol e os que se comportaram de outro modo o conseguiram apesar da Universidade, não por ela. O que os portugueses fizeram depois no Brasil, não fundar Universidade alguma, era o que D. Dinis devia ter feito em Portugal [...] e se o comportamento português foi, no Brasil, o que devia ser, a razão é ter o Brasil sido feito pelo povo e não pelos dirigentes e saber muito bem o povo que a Universidade nunca lhe serviu para nada e ter o instituto de que, muito ao contrário, só lhe tem sido prejudicial; prejudicial não quando forma médicos ou engenheiros ou qualquer outro técnico, mesmo aí com atraso que tanto lhe tem sido reprovado; já, porém, discutível quando forma professores, que então começa ela a deixar de ser simplesmente escola técnica de terceiro grau, para principiar a não ser, como devia, o organismo que pensa a comunidade e seu lugar no mundo, e caminhando para resultados mais graves com os juristas e filósofos. (SILVA, 2000b, p. 120)
Agostinho da Silva quis dizer é que sobre o fato de durantes séculos o Brasil ter ficado sem universidade é que, para ele, não significou nenhum atraso. Atraso seria se tivessem sido implantadas aqui universidades com Filosofia velha, desatualizada, própria da Europa, que não serviria à estrutura do povo brasileiro. No Depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito, quando convocado para falar sobre o fechamento da Universidade de Brasília, que não nos interessa aqui comentar, ele deixa seu ponto de vista sobre isto bem clarificado. Por isso ele é a favor de reformas, dentro da universidade, que é emergente, na sua concepção, não só em Portugal, mas em todo o mundo.
Agostinho critica o fato de a Universidade não se preocupar em formar o homem, fato preocupante, já naquela época:
[...] A crítica que se faz, portanto, à Universidade é que ela está por vários motivos não contribuindo para formar o homem. Esse problema preocupa todos os educadores e naturalmente preocupará mais os educadores brasileiros e preocupará o Brasil onde vêm defeitos particulares, defeitos locais, juntar-se-á os defeitos da Universidade em geral [...]. (SILVA, 2000b, p. 37)
Agostinho da Silva ressalta, talvez, o fato de, na época, não existirem condições econômicas no Brasil, para o bom desempenho das universidades, mas, ainda que houvessem, o fundamental não seria a formação apenas de técnicos, mas uma boa formação humana.
[...]. Enquanto não houver no Brasil condições econômicas suficientes para que todo o povo possa ascender à cultura e tenha possibilidade de chegar às Universidades, nós estaremos fazendo uma Universidade mais ou menos boa tecnicamente – e podemos fazê-la sob o ponto de vista técnico – mas estaremos fazendo sempre uma Universidade deficiente sob o ponto de vista humano. [...]. (SILVA, 2000b, p. 46)
Por ser, inegavelmente, um experto em assuntos educacionais, embora não se reconhecesse como tal, foi convocado para depor na Comissão Parlamentar de inquérito e deste depoimento ficam registrados aspectos de seu pensamento sobre universidade, muito importantes que até hoje estão sendo discutidos e são bastante atuais.