Inicialmente, não nos parece fácil compreender a obra de Agostinho da Silva. Antes de adentrarmos propriamente o seu pensamento filosófico, que é denso, é preciso que conheçamos o seu método. Na busca de conhecimentos sobre sua teoria filosófica e pedagógica deparamos a dificuldade de reunir obras sobre o referido autor, uma vez que essa é composta por textos dispersos, ensaios, correspondências epistolares. A obra do autor se constitui de fragmentos e não, verdadeiramente, de imediato, um sistema compilado.
Cristóvão (2008, p. 165) informa que a obra de Agostinho da Silva é uma verdadeira espiral que aos poucos vai formando todo um sentido. “Não é linear, nem direta, ora ao ‘estilo’ de Pessoa”12, usou de estratagema dos heterônimos, de forma complexa. Outras vezes afirmava, ora negava, recorrendo às múltiplas possibilidades que a retórica possibilita. Agostinho da Silva usava de símbolos, em espiral ou em formulações dilemáticas ou hiperbólicas.
Esse perfil metodológico do autor é resultado de sua formação, pois estudou os clássicos. Muitas vezes, usava do método socrático, por meio da maiêutica. Apresentava-se em lugares públicos, expondo seu pensamento, ou então, usando símbolos, ou espirais, nas escritas, de modo que seu pensamento não é linear, porém, uma vez que o seu estudioso consegue vencer o desafio de interpretá-lo, reconhece, no autor, a presença de um sistema.
Outro viés de compreensão da metodologia do autor é o fato de ele apresentar biografias de educadores, tais como Maria Montessori, Montaigne, Pestalozzi, Sanderson, Tostoi nos quais ele coloca as ideias pedagógicas do biografado, que são muito o que seu pensamento também representa.
Ainda no que diz respeito ao método de Agostinho da Silva, Magalhães (2010) considera um grande desafio compreender sua obra e personalidade, mas se recusa a abdicar de assim o fazer. Pelo contrário, assume como motivo de estímulo. O método de Agostinho da Silva não é em nenhum momento linear, ou superficial. Na verdade, segundo Justino
Magalhães, o método dele toma como direção o caminho da perfeição, “numa permanente inquietude e ousadia”. Nestes termos é que Agostinho da Silva, quando no Depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito13 se pronuncia: “Cada um de nós veio para o mundo para viver sua vida que é única, é, portanto, para ser exemplar, tem que ser ela perfeita, cumprida” (SILVA, 2000b, p. 56).
Em outro momento, ao tratar sobre Educação de Portugal, Agostinho da Silva também fala sobre a perfeição:
Mas o caminho do perfeito passa pelo imperfeito; e, no imperfeito, a única perfeição que se pode fazer florir é a de que o expediente de que se lançou mão agrade ao maior número possível de homens e os satisfaça, mesmo que julguemos nós, com ou sem razão, que já poderíamos estabelecer o melhor quando eles se contentam ainda com o rudimentar e o tosco. Urge, portanto, que são imponham remédios prontos [...]. (SILVA, 2000b, p. 111)
Agostinho da Silva, para dizer o que pensa, não o faz linearmente, pois ora diz aqui, ora acolá, de maneira meio que circular, ou mesmo em forma de espiral, não importa, o importante é que há uma inter-relação, sempre com o mesmo propósito. Vejamos, pois, o que foi mencionado sobre “perfeição”. Em um momento, ao referir-se à Comissão Parlamentar de Inquérito; noutro, quando se refere à educação de Portugal. E é desta forma que vamos localizar esse grande marco do autor pesquisado, no que diz respeito ao seu método.
Acrescentando ainda o formato de seu método, da circularidade, e para corroborar o que diz a literatura sobre o autor de ser um homem muito além do tempo, vejamos só esta assertiva, quando ele, em 1968, nos fala sobre “espaço ecológico”, quando, no Brasil, oficialmente, como relata Carvalho (2011, p. 52), a Educação Ambiental aparece na legislação desde 1973, como atribuição da Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA). Foi nos anos de 1980 a 1990 que houve um avanço da Educação Ambiental que cresceu e se tornou mais conhecida. Agostinho da Silva acreditava numa convivência humana sustentável e já pensava bem antes sobre os problemas relacionados com a ecologia.
Quando se faz um estudo profundo de seus escritos, verifica-se que o tempo todo seu pensamento é complexo, usa estratagema de heterônimos; é heterodoxo e paradoxal ao mesmo tempo, e nele, como salienta Cristóvão (2008, p. 166), “as ideias avançam e recuam, formam-se por aproximações, contrastadas por sentenças inesperadas que provocam o leitor ou ouvinte [...] para logo o apaziguar com justificações envolventes”.
13
Houve um momento histórico em que a Universidade de Brasília atual UNB fechou as portas e Agostinho da Silva foi convidado pela Comissão Parlamentar de Inquérito a responder sobre alguns fatos pertinentes.
Ele próprio gostava de se definir, assim, como paradoxal, conforme estabelece Cristóvão (2008, p. 166): “não sou do ortodoxo ou do heterodoxo: cada um deles só exprime metade da vida, sou do paradoxo que a contém no total”.
Ainda com base no seu método, Agostinho da Silva costumava se comunicar, com amigos, através de cartas. Cartas a São Félix, referência à cidade que fica na Bahia. Foram doze cartas escritas e publicadas no Jornal Correio de S. Félix, na Bahia, quando este tinha regressado a Portugal, de forma definitiva, não mais retornando ao Brasil. Há, geralmente nelas, um conteúdo sempre de cunho pedagógico ou religioso. Trazemos um breve resumo, sobre alguns desses escritos, por considerarmos relevante para melhor compreensão do autor.
Na primeira carta, datada de 1º de maio de 1971, Agostinho da Silva fala do fato de se encontrar longe do Brasil, e das grandes qualidades humanas, de acolhimento e simpatia encontradas aqui, especialmente na Bahia que ele entende serem predicados “que possam exercer em todas as nações do universo a influência de paz e entendimento que tão necessária lhes é” (SILVA, 2001, p. 110).
Na segunda carta, Agostinho da Silva fala da qualidade de vida das pessoas, que se encontra relacionada com o local que se mora. Ele assevera que:
[...] Espero também que São Félix seja o vosso assunto quotidiano; nenhum homem pode deixar de se interessar pela maneira por que decorre sua própria vida: e a vossa vida decorre em primeiro lugar em São Félix visto que aí morais e depende ela muito das condições que em São Félix houver; e se todo o mundo nos deve tocar, porque acima de tudo somos e devem ser cada vez mais cidadãos do mundo, acho que o primeiro lugar do universo em nossas atenções deve ser aquele em que estamos, em que podemos exercer a nossa influência e que entregaremos, melhor do que encontramos, a colaborar com o progresso geral da Humanidade quando nos tocar a hora de deixar a terra ou de nela nos aconchegamos e dormir. (SILVA, 2001, p. 110)
Agostinho se refere a esta cidade porque lá, foi durante muito tempo uma área de plantação de fumo, inclusive tinham indústrias de cigarros o que Agostinho condenava, pois, o cigarro causa câncer. Ele assevera: “Só a vida pode ser alicerce de vida; São Félix, com a indústria que tinha, vivia afinal da morte; e isto, por ser falso, havia de acabar; e felizmente acabou. Temos de inventar o novo, o que não me parece impossível [...]” (SILVA, 2001, p. 110).
Na terceira carta, Agostinho volta a falar da cidade de São Félix, o fato de a indústria do fumo ter acabado e diz: “[...] se tudo que a manteve [...] durante tanto tempo se foi de vez, e acho que foi bem, pois não era bom ofício o de envenenar o mundo com o fumo [...]”. Então, ele propõe outra alternativa como fonte de rendimento e sugere a indústria do
turismo. Aqui assinalamos um detalhe: a carta foi escrita em 11 de maio de 1971, e o nosso autor já falava em “indústria do turismo”.
Ao que se percebe o quanto este homem era muito além do seu tempo. Usou o termo há mais de quarenta anos atrás e, note-se, também chamou à atenção para o cuidado no fazer, para que as características do lugar não fossem perdidas:
Quanto ao turismo tem muito que se pode fazer a favor quanto às pessoas que o fazem, pois vão ver coisas que não conhecem, distrair-se e educar-se, e nisso é ele muito bom, oxalá o pudéssemos fazer todos. Mas para a terra que receba turistas é preciso muito cuidado no fazer, para que as características do lugar se não percam, para que não se fixem costumes que podem ser muito bons para os outros, mas o não são para nós, e para que as pessoas, no desejo de agradar, se não tornem servis, não curvem de mais a espinha e não fiquem sempre concordando com o que os de fora querem ou achem melhor, perdendo assim a sua personalidade, que é o mais precioso dos bens que podemos ter. (SILVA, 2001b, p. 112)
No fragmento descrito percebemos a preocupação de Agostinho da Silva com o meio ambiente, com a liberdade, um valor que ele considera fundamental no homem e que vai se referir a ela, em vários momentos e a dignidade da pessoa humana, que é um corolário da liberdade.
Na carta de nº 5, Agostinho da Silva faz um relato de uma reunião de professoras primárias, de Aveiro, em Portugal, para discutirem suas experiências feitas em suas classes e que, posteriormente, o resultado desta reunião foi discutida em Lisboa e que Ele considerou como uma das maiores lições de sinceridade, coragem e de apego á tarefa de professor. O resultado ele assevera:
[...]. Pois foi a tal reunião [...] já que recebi carta de uma professora vossa sobre todos estes assuntos, carta interessantíssima [...] foi a tal reunião uma das maiores lições que tenho recebido de sinceridade, de coragem e de apego à tarefa que se está desempenhando. No meio das maiores dificuldades, econômicas e outras, tentaram o que se lhes tinha comunicado como pedagogia mais moderna e obtiveram resultados extraordinários de crianças na maior parte das vezes sem alimentação adequada, sem amparo familiar e sem estímulo do ambiente: uma situação aqui do género da que tendes entre vós; e que é a situação real de quase toda a Humanidade. Provaram que se pode fazer muito, mesmo em condições desfavoráveis, quando há decisão, paciência e humildade, e, naturalmente, que muito mais se poderia conseguir se as condições se modificassem [...]. (SILVA, 2001b, p. 113-114)
A paciência, a humildade e sua visão de futuro era um marco. Agostinho da Silva realmente foi um homem visionário. Tinha sempre em mente o pensamento voltado para o futuro. Citamos o seu pensamento sobre o futuro, exposto na entrevista concedida a Joaquim Letria, jornalista português, “Conversas vadias com Agostinho da Silva”, no qual assinala:
Quando eu próprio digo que o futuro será de tal maneira, estou apenas a dar a ideia de um presente melhorado ao máximo que eu possa imaginar. Mas nada garante, que este seja o futuro, e que o futuro não vá para além daquilo que eu não possa nem sequer imaginar. No universo a palavra indica que todas as coisas estão ali juntas. É um dos vários lados um movimento para ser um; universo. Então o que é o mundo diferente do universo? Mundo chamamos nós aquilo que entendemos do universo. É, portanto, necessário vermos a ideia do futuro não como muita gente a vê, como uma coisa impossível de se realizar, mas sobretudo, como uma coisa possibilíssima de ser ultrapassada de tal maneira, que nós nem a pudemos entender. (SILVA, 2012,
online)
Interessante a descrição que faz sobre o futuro; não como algo inatingível, porém possível de realização. Ele não diz, mas entendemos que está implícito que o futuro, pela sua possibilidade, chega muito mais rápido que nossa expectativa, o que nos deixa a incapacidade de entender, que o futuro, é o “presente melhorado”.