Nos estudos dos referenciais teóricos desta investigação, passamos a enveredar pelas ideias de Agostinho da Silva e percebemos que suas exposições e escritos, denotam um método complexo. Ele utiliza símbolos, em espiral, recorrendo a múltiplas possibilidades que a retórica possibilita, como ressalta Fernando Cristóvão (2008, p. 166). Neste patamar, em diversos escritos e textos esparsos, ele volta sempre a defender uma comunidade idealizada e unida pela mesma língua. Assim, prevalece a crença numa comunidade ligada pela língua. Em suas palavras, uma meta final a “União Internacional de Povos”, na Língua Portuguesa.
É nesse sentido que ele se pronuncia, no seu texto “Carta chamada Santiago”, escrita em 1974:
[...] um dia, mais ou menos longínquo, constituamos todos, desde Lisboa ao Acre, ou desde os Açores a Timor, ou desde Luanda a Macau, senhor cada um de seus caminhos e todos do total, uma Comunidade que sirva de base a uma final União Internacional de Povos [...]. Ensairemos depois Federações regionais, quem sabe se começando por uma Confederação Atlântica que uniria Brasil, Angola, Guiné e Portugal e a que poderia vir tanta outra nação já não, ou ainda não, de língua nossa, mas que devesse, como nós, defender acima de tudo Justiça e Paz. Um dia estará nisto o mundo inteiro, e um Inteiro Mundo; por enquanto, bem ao fundo de um túnel: já, porém, com sua alma, ou esperança, de luz. (SILVA, 1988, p. 587)
Cristóvão (2008, p. 165-166) ressalta que Agostinho da Silva não usou a palavra lusofonia18, porque esta somente passou a se impor, perto do seu final de vida, com a criação de estruturas organizacionais, como o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), a CPLP, a criação da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), da União das Cidades Capitais Luso-Afro-Américo Asiáticas (UCCLA), e de outras instituições de caráter nacional ou internacional.
Cristóvão (2008, p. 165) assevera que Agostinho da Silva teve uma contribuição
[...] notável para a construção da lusofonia porque fez avançar muito os seus ideais, consagrando a língua portuguesa e a tradição do Quinto Império cultural com sua base fundadora, e acrescentando-lhe uma visão mais idealista e motivadora de criatividade e ecumenismo simbolizado pelo Espírito Santo.
Cumpre registrar o fato de que Agostinho da Silva entendia a “Comunidade da Lusofonia como Quinto Império, o qual se concretizava em um ideal de profundas raízes na cultura portuguesa”. Segundo Cristóvão (2008), Agostinho da Silva reelaborou o termo, aprofundando-lhe o conteúdo e democratizando-o, uma vez que, na origem, Padre Antônio Vieira e Fernando Pessoa foram os precursores de sua utilização.
Silva (2000b, p. 50-51), com sua imaginação sociológica de homem visionário que fora, talvez estivesse vendo os contornos de uma futura globalização, quando se reporta que: “Estamos num mundo em que as fronteiras se tornam, cada vez mais, fronteiras de colaboração e não fronteiras de separação”.
Com base na leitura do intérprete do pensamento de Agostinho da Silva, Paulo Borges, é possível ver mais claramente que Agostinho da Silva não tinha uma visão “utópica”, no sentido apenas de sonho, de impossível de realizar, mas como uma “possibilidade em aberto, que se pode realizar mediante uma conjunção do mundo lusófono e ibérico e sua aproximação à África e ao Oriente”.
Sá (2013, p. 47) corrobora nosso pensamento, uma vez que ela também entende que Agostinho da Silva, ao se dedicar à criação do CEAO, bem como ao CBEP (Centro Brasileiro de Estudos Portugueses), com objetivos de estabelecer elo de “pertencimento (sic) histórico entre as diferentes coletividades que receberam influência de Portugal e a promoção de eventos que alargavam a relação diplomática entre os países lusófonos”, estava a historiar
18
Agostinho da Silva não criou a palavra lusofonia, nem mesmo chegou a usá-la, referindo-se sempre à questão da língua portuguesa.
o porvir da CPLP, cujos passos iniciais para a constituição aconteceram em São Luís do Maranhão, em novembro de 1989, a convite do Presidente José Sarney.
Na opinião da pesquisadora, a CPLP é uma concepção agostiniana, constituída em uma comunidade democrática, com objetivos de elaborar ações, respeitando:
[...] as variáveis condizentes e específicas a cada região lusófona, que reconduzam a riqueza gerada a quem de direito lhe pertence: a todo e a cada cidadão luso-afro- timorense, bem como os de Macau, Goa, Málaca e Galiza e de outros quadrantes filiados à cultura de língua portuguesa.
Conforme assevera Sá (2013, p. 49),
Agostinho da Silva, também, planeou a legalidade e a funcionalidade do Passaporte Lusófono para dar livre trânsito às gentes entre os Estados-membros da CPLP. O uso deste passaporte, em larga escala, favoreceria a elaboração de projetos de intercâmbio de base recíproca e de interesses transversais, mas todos produzindo conhecimento criativo para melhor driblarem os fluxos comerciais e de investimentos que geram valores comuns de ação humanitária [...]. Para garantir e ampliar a integração entre povos lusófonos [...]. Agostinho da Silva acreditava ser necessário unir as Universidades dos Países de Língua Portuguesa, formando-se uma Associação das Universidades de Língua Portuguesa a fim de que se mantivessem as raízes comuns e o desencadeamento de empresas mistas. Isto foi praticamente realizado quando se inaugurou em Redenção, cidade cearense [...]. A Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB).
Por certo, Agostinho da Silva, com sua imaginação sociológica e idealizações quanto a relações internacionais ligadas à lusofonia: pensamento extremamente provocador de nossas inquietações quanto a sua permanência e atuação no Brasil, deve ter em algum momento de sua vida conhecido o Ceará. Comprovadamente, ele se refere, ao interior do Estado do Ceará, quando se reporta aos quase desertos do Ceará e do rio Grande do Norte, de acordo com (SILVA, Agostinho, 2007b, p. 97):
[...] Nordeste do Polígono das Secas, dos quase desertos do Ceará e do Rio Grande [...]. É o Nordeste do homem, que, jamais esquecendo o seu sertão, sabe bater-se como ninguém nos urbanismos do Sul e pelo contacto com outros, volta distinto à terra de que partiu, como um contínuo fermento na massa já predisposta de seus patrícios.
Ao pensarmos nesta possibilidade, é possível sim, que, como homem de visão, Agostinho da Silva tenha imaginado uma universidade no interior do Ceará, com características de integração, interiorização e lusófona, nos moldes em que a UNILAB foi criada.
Assim, compartilhamos do entendimento de que a UNILAB denota muitos dos princípios e pensamentos defendidos por Agostinho da Silva e acreditamos que esta instituição veio para consolidar a efetivação dessa idealização e demonstramos, no tópico em que se analisam os documentos que a fundamentam, que existem pontos convergentes do pensamento do autor, ali formalizados.
Na linha de raciocínio de que Agostinho da Silva foi “prefigurador da Comunidade Lusófona”, trazemos a contribuição de Epifânio (2012, p. 14), estudioso do pensamento agostiniano de muito tempo.
Como enaltecido por Epifânio (2012), Agostinho da Silva foi um grande teórico da “via lusófona”, tema discutido, em vários textos, desde os anos 1950, antecipando, “a criação de uma verdadeira comunidade lusófona”. Epifânio não deixou passar oportunidade, em 1996, em fazer recordar e homenagear Agostinho da Silva quando registrou, em sua obra “Perspectivas sobre Agostinho da Silva”, a influência que este teve para a concretização da CPLP. A idealização foi de Agostinho da Silva, na opinião de Epifânio (2008, p. 108). Assim,
No dia 17 de julho desse ano, criar-se-á finalmente a CPLP, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, facto que será noticiado, com destaque, na generalidade dos jornais. Na maior parte deles, realça-se igualmente o contributo de Agostinho da Silva para essa criação, por via do seu pensamento e acção. Eis, nomeadamente, o que acontece na edição desse dia do Diário de Notícias – como se pode ler no texto de abertura da notícia: “A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, hoje instituída em Lisboa, foi premonitoriamente enunciada por Agostinho da Silva em 1956 como ‘modelo de vida’ assente ‘em tudo aquilo que (Portugal) heroicamente fez surgir do nada ou na América ou na África ou na Ásia’.”. Depois, aparece a foto de Agostinho, ladeado pelas fotos de Jaime Gama e José Aparecido de Oliveira, com a seguinte legenda: “Pioneiros da CPLP: Agostinho da Silva (enunciação original), Jaime Gama (primeiro texto diplomático único dos Sete na língua comum) e Aparecido de Oliveira), formalização política da proposta).
Epifânio (2012, p. 14) comenta no artigo que, decorridos 15 anos de criação da CPLP, esta ainda não é uma verdadeira comunidade lusófona, mas nem por isso “Portugal deve apostar enquanto desígnio estratégico” e se há “inevitabilidades históricas”, a criação da CPLP foi uma delas, pois, “se os países se unem [...] por afinidades linguísticas e culturais, nada de mais natural que os Países de Língua Portuguesa se unissem num projecto comum”, objetivando, de imediato a defesa da língua e, “gradualmente”, visando à cooperação aos mais diversos níveis. Se há alguma estranheza quanto à criação da CPLP, para o referido autor, esta se deve ao fato de ter “nascido tão tarde” e reconhece que Agostinho da Silva foi, “de facto, desde os anos cinquenta, o grande prefigurador de uma comunidade luso-afro-brasileira”.
Em vários fragmentos, encontramos a alusão de Agostinho da Silva sobre esta comunidade. Borges (2006, p. 226) nos traz estes excertos:
[...] o que me parecia que se devia fazer era uma comunidade luso-afro-brasileira com o ponto africano muito bem marcado. Quer dizer, se pudesse, eu poria o ponto central da comunidade, embora cada um dos países tivesse a sua liberdade, a sua autonomia, em África, talvez Luanda ou no interior de Angola, no planalto, de maneira que ali se congregassem Portugal e o Brasil para o desenvolvimento da África e para que se firmasse no Atlântico um triângulo de fala portuguesa – Portugal, Angola, Brasil – que pudesse levar depois a outras relações ou ao oferecimento de relações de outra espécie aos outros países [...] de maneira que eu continuo a pensar que, aquando da revolução em 1974, se poderia talvez ter tentado isso [...].
Na mesma linha de raciocínio, temos Mota (2000) ao fazer a introdução das obras de Agostinho da Silva, na reunião de Textos Pedagógicos II. Ela assevera que ele foi “Preconizador da Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa” e que ao longo de toda a sua obra, não deixou de pensar e propor “o sistema educativo passível de ser implementado em outras terras que não as lusas”.
Assim, chegamos à conclusão de que Agostinho da Silva foi um homem muito além do seu tempo, foi um homem do porvir e que, com seu ideal de ação, sua imaginação, idealizou, não utopicamente, mas possível de concretude, uma comunidade em que a presença da fraternidade e a cooperação entre os povos falantes da língua portuguesa existem. Esta comunidade é a CPLP, que ainda está em desenvolvimento, mas que vai se consolidando, aos poucos, na concretização do ideal agostiniano.