• No results found

5. Metode

5.3 Statistiske metoder

No primeiro capítulo de O processo, ao estranhar a ausência do café da manhã em seu quarto, Josef K. toca a campainha para solicitá-lo. Imediatamente bateram à porta, mas nada de seu café, quem aparece é um homem. Como Josef K. desconhecia-o, logo interrogou:

- Quem é o senhor? (p. 9).

Ao invés de responder à pergunta feita por K., o estranho a ignora e muda de assunto ao questionar:

- O senhor tocou a campainha? (p. 9).

Diferentemente ao estranho, K. responde a pergunta feita por este e tenta, pela atenção e pelo raciocínio, descobrir por si só quem é este homem.

- Anna deve me trazer o café da manhã. (p. 10).

Mais uma vez K. é ignorado, agora passa a ser referido como um “ele” presente com o intuito de subtrair K. à esfera pessoal de “tu”, a fala é dirigida para um “tu”/o outro guarda que se encontra fora do quarto:

- Ele quer que Anna lhe traga o café da manhã. (p. 10)

A fala dirigida a este “tu” não era no sentido de uma reversibilidade, em que este “tu” se tornaria um “eu” para então dar um aconselhamento, mas apenas informar/reafirmar aquilo que K. havia dito. Não há nenhuma informação a mais ao que queria dizer a K., limita-se a afirmar:

- É impossível. (p. 10)

Além de não poder receber o seu café matinal, nem falar com a senhora Grubach, sua locadora, também não era conveniente que K. saísse de seus aposentos. Diante da saída de K., um dos senhores diz:

- O senhor não tem permissão para sair. O senhor está detido. (KAFKA, 2001, p.11)

Neste momento, K., ao ser informado que está detido, se posiciona ao dizer é o que parece, para em seguida formular a pergunta: mas por quê? Ao perguntar, como bem observa Dufour, ele já se sujeita, reconhecendo a Lei, pois ela não é constituída por uma resposta que a definiria, mas pela pergunta que se faz sobre ela. É a falta (parcial) do Outro159 (a Lei) que

permite a K. a enganchar aí uma pergunta, assim como um pedido de

contas: por que..., com que direito... Se o Outro fosse pleno, tudo deslizaria e eu (K., nesse caso) não poderia perguntar nada... Por conseguinte, K. só é

sujeito do Outro ao poder pedir-lhe satisfação. Enfim, K. é sujeito do Outro na medida em pode se opor a uma resistência ao Outro. Assim, ‘o sujeito é tanto a sujeição quanto o que resiste à sujeição’, isto é, o sujeito (K.) é o sujeito do Outro (sujeito da Lei) e é o que resiste ao Outro (a Lei) (DUFOUR,

2005, p. 32).

Com relação à indagação de K., um dos senhores, de nome Willen, responde e aconselha K:

159 Como afirmado por Dufour, a questão do Outro, tal como formulada por Lacan (aquele

que figura tanto como lugar terceiro na fala quanto lugar do terceiro, denominado de “Nome- do-Pai”), não está muito distante ao que Dufour invoca nesta obra como ser ou Um (o grande Sujeito), isto é, uma construção discursiva em torno do qual se organizam os sujeitos falantes, simbolizáveis como eu e tu (Dufour, 2005, p. 30-1).

- Não fomos incumbidos de dizê-lo. Vá para o seu quarto e espere. O procedimento acaba de ser iniciado e o senhor ficará sabendo de tudo no devido tempo. Ultrapasso os limites do meu encargo quando me dirijo com tanta amabilidade ao senhor. Mas espero que ninguém mais ouça, além de Franz, e até ele é amável com o senhor, contra todos os regulamentos. Se continuar tendo tanta sorte como na indicação dos seus guardas, pode ficar confiante. (KAFKA, 2001, p. 11)

Continuam a se dirigir a K., mas ele não mais lhes responde, passa a falar consigo, via discurso do autor-criador:

Que tipo de pessoas eram aquelas? Do que elas falavam? A que autoridade pertenciam? K. ainda vivia num Estado de Direito, reinava paz em toda parte, todas as leis estavam em vigor, quem ousava cair de assalto sobre ele em sua casa?(KAFKA, 2001, p. 13)

Outra idéia, mais plausível para justificar esta confusão toda, só poderia ser uma brincadeira de seus colegas do banco, pois estava completando trinta anos justamente neste dia. Diante disso, resolve participar da encenação, afinal, ainda estava livre, ainda não era um ausente nas relações de co-presença. Nesse sentido, é interessante a observação de Dufour (2000, p. 146): para que a transmissão de uma história seja certa, é

necessário, com efeito, que ela seja ‘ouvida’ de um outro pelo um, dita (traduzida/traída) pelo mesmo e ‘reescutada’ por um terceiro.

K. sabia que poderia reverter tal situação, isto é, ainda podia experimentar a posição eu–tu, ainda era um presente. Dessa forma, voltou ao seu quarto em busca de alguma coisa e mostrou aos dois guardas os seus documentos de identidade:

- Aqui estão meus documentos de identidade, agora mostrem os seus, sobretudo a ordem de detenção. (KAFKA, 2001, p. 14)

Diante disso, os dois guardas voltam a se dirigir a K. explicando aquilo que já haviam dito:

- Oh, céus! – disse o guarda. – É incrível como o senhor não consegue se submeter à sua situação e parece empenhado em nos irritar inutilmente, a nós, que decerto somos neste momento os mais próximos de todos os seus semelhantes! (p. 14-5)

- É isso mesmo, acredite – disse Franz (...). (p. 15)

K. volta a insistir na apresentação de seus documentos de identidade, desta vez obtém uma explicação referente ao tema proposto:

- Que importância eles têm para nós? – bradou o guarda grande. – O senhor se comporta pior que uma criança. O que quer, afinal? (...) Somos funcionários subalternos que mal conhecem um documento de identidade e que não têm outra coisa a ver com o seu caso a não ser vigiá-lo dez horas por dia, sendo pagos para isso. (...) Aqui não há erro. Nossas autoridades, até onde as conheço, e só conheço seus níveis mais baixos, não buscam a culpa na população, mas, conforme consta na lei, são atraídas pela culpa e precisam nos enviar – a nós, guardas. Esta é a lei. Onde aí haveria erro? (KAFKA, 2001, p. 15).

Os próprios funcionários afirmam suas condições de sujeitos pela sujeição incondicional, procurando incluir K. nessa condição. Remetendo a Dufour (2005), entendo que nesses trechos do romance se evidencia a característica, historicamente marcada, do sujeito moderno, um sujeito neurótico que interioriza a culpa no inconsciente. Porém K., percebendo o discurso dos guardas como absurdo, assim se posiciona:

- Essa lei eu não conheço (p. 15).

O guarda limita-se a dizer:

- Tanto pior para o senhor. (p. 15).

- Ela só existe nas suas cabeças. (p. 15).

Aquele prossegue num tom ameaçador:

- O senhor irá senti-la. (p. 16)

O outro guarda também se posiciona, mas dirige a fala ao guarda que estava dialogando com K. Diante disso, K. decide que não adianta tentar conversar com subalternos, isso não levaria a nada, precisava se livrar desta encenação a que se expunha e falar com alguém do seu nível. O sujeito K., enquanto sujeito moderno, agora no sentido kantiano, tenta romper com a sua sujeição através da racionalidade/reflexividade, mas a presença esmagadora do Um/da Lei, presente nas falas dos funcionários, nos remete a um sistema de regras que imobilizam a ação crítica do sujeito.

Talvez K. não soubesse que a partir do momento em que se entra no

truque da fala (‘truc’, no teatro, é uma máquina que move os cenários) é

tarde demais para se calar. No entanto, como tomar a decisão se nunca tentamos entrar nela? (DUFOUR, 2000, p. 70).