5. Metode
5.2 Datagrunnlaget: PISA 2003
A primeira alteridade, gerada pela decomposição da forma trinitária “eu-tu/ele”, é marcada pelo operador de conjunção “-”. O “aqui” e “agora” são fixados à relação “eu-tu”. “Eu” e “tu” compõem, segundo Dufour (2000, p. 102), uma alteridade fraca, transitiva. Seguindo a interpretação de que, através dessa minunciosa descrição lingüística da categoria dos pronomes, Benveniste diz algo para além, trago a pergunta feita por Dufour (2000, p. 73): O que se troca nessa inversão? Acrescida a essa pergunta, que servirá
de guia para a compreensão da relação de alteridade entre Georg e o pai, trago uma segunda: O que pode acontecer quando o direito a ocupar a concha vazia do eu é interditada?
O diálogo entre pai e filho ocorre na segunda parte da novela, embora haja apenas um capítulo nota-se nitidamente uma mudança de cenário – do
seu quarto, atravessando um pequeno corredor escuro, entrou no quarto do pai (p. 14) – mesmo acordado há algumas horas – tempo em que escreve a carta – parece que Georg só desperta ao chegar ao quarto do pai. Assim que entra é saudado pelo seu pai:
- Ah, Georg! – disse o pai e caminhou ao seu encontro (p. 15).
Neste momento surge na novela uma forma específica de intersubjetividade, ao invés de responder-lhe imediatamente, Georg pensa consigo mesmo:
“Meu pai continua sendo um gigante” (p.15).
Percebemos que Georg não responde ao outro, mas fala consigo mesmo como se fosse outro, desdobrando-se ele próprio em ‘eu’ e ‘tu’. Nessa interação com sua consciência, já se anuncia a percepção que o filho julgara ter do pai ser diferente a que imaginara, mas mesmo assim Georg continua a se centrar nas atitudes que indicam a fragilidade do pai. Conforme Costa Lima (2005, p. 305), se o leitor for tão distraído quanto o
protagonista não perceberá a mudança, pois as atitudes imediatas do pai
parecem apenas indicar a sua senilidade, tais como observadas por Georg. Após a introdução do diálogo, Georg, continuando a observar os movimentos do pai, comunica-lhe que decidiu anunciar a São Petersburgo o
seu noivado (p. 15). Diante do estranhamento do pai com relação ao destinatário da carta, Georg responde-lhe: - Ao meu amigo, é claro, e comenta novamente para si a diferença do pai naquele momento com a sua habitual disposição no escritório:
“Na loja ele é totalmente diferente do que é aqui, sentado com todo o peso do corpo e os braços cruzados sobre o peito” (p. 16).
Entretanto, mesmo percebendo o processo degradativo do pai, Georg continua decidido em comunicar ao pai acerca da carta que pretende enviar ao amigo de Petersburgo. Diante disso o pai assim se posiciona:
- Georg, ouça bem. Você veio a mim para se aconselhar sobre esse assunto. (...) Desde a morte da nossa querida mãe aconteceram certas coisas que não são nada bonitas. (...) peço- lhe por favor, Georg, que não me engane. É uma ninharia, não vale nem um suspiro, por isso não me engane. Você realmente tem esse amigo em São Petersburgo? (KAFKA, 2000, p. 16-7).
A partir da desconfiança do pai, Georg tenta mudar de assunto:
- Vamos deixar de lado os amigos. Para mim mil amigos não substituiriam meu pai. Sabe o que eu acho? Você não se poupa o necessário. (p. 17).
E continua seu longo discurso, observando as mudanças necessárias para reverter a situação precária que seu pai se encontra: quarto pouco confortável, má alimentação, falta de repouso, aspecto desagradável. Mas o pai retorna ao tema do amigo de Georg:
- Você não tem nenhum amigo em São Petersburgo. Você sempre foi um trapaceiro e não se conteve nem diante de mim. Como iria ter justamente lá um amigo? Não posso de maneira alguma acreditar nisso. (KAFKA, 2000, p. 18).
O filho, ao relembrar o pai das visitas do amigo, percebe o seu descuido com o pai e decide que o melhor, diferentemente ao que havia decidido com a noiva, era levá-lo para morar em sua futura residência. Entretanto, não sabia se não seria tarde demais, pois seu pai encontrava-se em um estado precário.
Após acomodar o pai na cama, o pai cobre-se com a coberta e insiste duas vezes na resposta do filho com relação à pergunta:
- Estou bem coberto157?
Georg diz ao pai para ficar tranqüilo, pois ele está bem coberto. O pai transtornado responde ao filho:
- Não! (...) – Você queria me cobrir, eu sei disso, meu frutinho, mas ainda não estou recoberto. (...) É claro que conheço o seu amigo. Ele seria um filho na medida do meu coração. Foi por isso que você o traiu todos esses anos. (KAFKA, 2000, p. 20).
O pai revela não apenas que sabia da existência efetiva do amigo, como acusa Georg de tê-lo enganado por todo este tempo e ainda declara que considera o amigo seu filho ideal. Além disso, o pai ainda recrimina Georg, devido à sua noiva – a nojenta idiota, segundo as palavras do pai, de ter infamado a memória da mãe, de ter traído o amigo e ter posto o pai na cama para que não se movesse. Depois de todo o desabafo do pai, Georg limita-se a dizer:
- Comediante! (p. 22).
E o pai compactua com o epíteto que recebera:
157 Como já assinalou Costa Lima (2005, p. 306), o verbo zudecken em alemão pode
significar tanto “cobrir” como “enterrar”. Decorre daí a insistência do pai em obter uma resposta do filho.
- Sim, sem dúvida interpretei uma comédia! Comédia! Boa palavra! Que outro consolo restava ao velho pai viúvo? Diga – e no instante da resposta seja ainda o meu filho vivo – o que me restava, neste meu quarto de fundos, perseguido pelos empregados desleais, velho até os ossos? E o meu filho caminhava triunfante pelo mundo, fechava negócios que eu tinha preparado, dava cambalhotas de satisfação e passava diante do pai com o rosto circunspecto de homem respeitável! Você acha que eu não o teria amado – eu, de quem você saiu? (KAFKA, 2000, p. 22).
Ao reconhecer no seu interlocutor a interdição de seu lugar na cena, Georg ainda tenta restabelecer a interação, travando diálogo com a sua consciência:
Agora vai se inclinar para a frente; Se ele caísse e se rebentasse (p.22); Até no camisolão ele tem bolsos (p. 23).
Entretanto, as palavras/constatações de Georg já não importam, a acusação do pai já estava lançada. Georg não mais reage, porque a reversibidade não é mais possível entre “eu” e “tu”. Isso devido ao fato de “tu”/Georg recusar as premissas informativas do discurso proferido por “eu”/pai. O “tu”/Georg não se identifica com elas, na verdade elas desestabilizam uma possível troca de lugares do “eu” e do “tu”, pois seriam essas premissas aceitas pelo “tu” que informariam seu próprio discurso, tornando-se assim “eu”, possibilitando, dessa forma, a reversibilidade:
se este “eu” vem a fracassar, a primeira díade não funciona mais, a partilha (...) é interdita: o direito à fala e, com ele, a capacidade do sujeito para a perdição dos sentidos não são transmitidos de um protagonista ao outro; deste “eu” fracassado, nenhum apelo, nenhum anúncio é transmitido ao “tu” (DUFOUR, 2000, p. 84).
O pai o acusa de haver sido na verdade uma criança inocente, mas
mais verdadeiramente ainda [de ter sido] uma pessoa diabólica! (p. 24). Em
julgamento do pai, Georg sai do quarto, desce as escadas, atravessa a rua e se precipita na água. O julgamento havia sido dado, cumpre-se o veredicto, Georg perde o direito à reversibilidade e, assim, seu lugar simbólico na relação interlocutória.