Em What ever Happened to Urbanism, o arquiteto retoma o tema talvez mais recorrente desde Nova York Delirante até os trabalhos nos anos 2000: o da explosão urbana e seus impactos na vida social. O autor lembra que cidades como Lagos passaram, em vinte anos, de dois a sete, a doze e depois a quinze milhões de habitantes. Istambul dobrou de seis para doze milhões; a China se prepara para mudanças desta mesma natureza. Em seguida salienta uma situação paradoxal, qual seja, a crise do urbanismo – depois dos insucessos das promessas modernas – justamente neste momento de intensa urbanização, “o ‘triunfo’ global da condição urbana”.149 Esta situação, lembra Koolhaas, é irreversível, e a cidade clássica como há pouco se reconhecia não existe mais, embora alguns urbanistas tentem resgatá-la de modo nostálgico.A realidade a que Koolhaas se refere é a seguinte: “o tipo de coerência que uma metrópole pode chegar não é aquela homogênea, uma composição planejada. Ao máximo, pode ser um sistema de fragmentos. Na Europa, os remanescentes do coração histórico da cidade pode ser uma entre realidades múltiplas”.150
Segundo Koolhaas, esta insatisfação por parte dos urbanistas não tem gerado bons resultados em termos de pensamento urbano. Persiste-se em fantasias de poder e de “controle”, numa postura “incapaz de conceber novas modéstias, intervenções parciais, realinhamentos
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Veremos adiante que este é o modo como Koolhaas caracteriza os espaços, na Biblioteca de Paris, que rompem a estrutura dominó e a espacialidade cartesiana.
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ibidem, p. 961.
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58 estratégicos, posições comprometidas que poderiam influenciar, redirecionar, reagrupar, começar do zero”. E, mais do que isso, não se compreende que “ jamais restabelecerá o controle”151. Sua geração, afirma Koolhaas, que outrora acreditou num novo começo para a cidade, agora se encontra evasiva. Ora faz projetos para uma cidade preservada e reconstituída, ora se deixa conduzir por uma “estética do caos” – afirma referindo-se aos desconstrutivistas –, cuja retórica não reconhece que o mais próximo que a arquitetura, uma disciplina construtiva, pode chegar do caos é tentar resisti-lo e falhar.152
O que temos hoje é, segundo Koolhaas, “um mundo sem urbanismo, somente arquitetura, mais do que nunca arquitetura”153, algo que no limite impede os habitantes de uma cidade de decodificar seu próprio território. Este mundo somente com arquitetura “explode e exaure os potenciais que podem ser gerados apenas pelo urbanismo, e que somente a imaginação específica do urbanismo pode reinventar e renovar”.154Tendo isto em vista, Koolhaas lança sua proposta para um novo urbanismo possível, cujas diretrizes centrais são fugir das “fantasias de ordem e onipotência” e operar em condição de instabilidade. Neste sentido afirma que este pensamento urbano deve
Não mais buscar por configurações estáveis, mas para a criação de campos capazes de acomodar processos que refutam ser cristalizados numa forma definitiva; não dirá respeito a definições meticulosas, à imposição de limites, mas sobre noções em expansão, negando perímetros, não mais separando e identificando entidades, mas voltado a descobrir híbridos não nomeados;155
Em termos gerais, a orientação é a seguinte. Buscar novos modos de planejamento das cidades mais próximos das dinâmicas da realidade social e, desta maneira, manter liberadas as possibilidades de transformação. Em entrevista, Koolhaas salienta que “planejar não é apenas o esforço de fazer algo imediatamente, mas sim uma tentativa de imaginar ou criar condições que permitam o desenvolvimento de diferentes formas de densidade ou de diferentes situações”.156 As diretrizes de evitar “configurações estáveis”, manter “noções em expansão” , portanto, visam a orientar o jogo de forças instáveis do fenômeno urbano e criar condições de mudança.
É importante perceber também em que medida, neste momento, o escopo do texto se amplia enormemente para além do campo disciplinar ligado à ordenação do território e à produção do
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Ibidem, p. 965.
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Cf. ibidem, p. 969. Koolhaas volta a polemizar com os desconstrutivistas em entrevistas e novamente destaca:
153 ibidem, p.967 154 ibidem, p. 967 155 Ibidem, p.971 156
KOOLHAAS, R. Conversa com Estudantes.Trad. de Mônica Trindade Schramm. Barcelona: Ed. Gustavo Gili, 2002, p. 46.
59 espaço social. Não por acaso o ensaio associa suas diretrizes a um “espaço psicológico” e, em seguida, defende que este “espaço psicológico” do pensamento urbano é “não somente, ou majoritariamente, uma profissão, mas um modo de pensar [way of thinking], uma ideologia: aceitar o que existe”.157 Ou seja, o que pretendem as diretrizes, em ultima instância, é forjar uma forma de pensamento cujo modus operandi se dá em regime de complexidade, de instabilidade, de liberdade para ampliações indefinidas, conexões diversas; e por esta via este pensamento evita descolar-se do existente. Neste sentido, a busca de Koolhaas por um pensar pautado pela multiplicidade e ligado ao existente se traduz num pensar que é, em si mesmo, “urbano”. Noutros termos, o retorno ao seio do urbano é o modo de resgatar um pensamento capaz de compreender totalidades e ao mesmo tempo mais orgânico em relação às dinâmicas sociais.
No What Ever Happened as análises críticas de Koolhaas e sua busca pelas redefinições do ofício atingem pontos altos. Neste o autor enfatiza a necessidade de uma politização do pensamento arquitetônico, voltando a compreender a arquitetura como um momento dos processos urbanos, um feixe das relações histórico-sociais. Vale destacar a ênfase do texto à necessidade de, podemos dizer, uma criatividade política, elemento sem o qual o pensamento urbano não consegue arranjar-se em novas bases, mais complexas e capazes de enfrentar a atual forma social. Em termos concretos, isto significa que, se o urbanismo pretende acompanhar a modernização e a explosão urbana em curso, precisa de uma inventividade que renove seu léxico, suas associações com outras disciplinas e instituições e, ainda, que inclua novos agentes em suas práticas.158 Além disso, neste texto fica claro a Koolhaas que é o fenômeno urbano
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ibidem, p.971
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Tomamos esta ideia de “criatividade política” ou de “inventividade no plano das formas sociais” emprestadas da economia política de Celso Frutado, dito mais propriamente, quando este reflete sobre as antinomias e desafios da denominada civilização industrial Cf. Criatividade e Dependência na Civilização Industrial. São Paulo, Companhia das Letras, 2008. Em suas análises, Furtado elabora uma definição de “criatividade” em sentido alargado. Tem como ponto de partida o comportamento de agentes econômicos que rompem com uma racionalidade macroeconômica, mas seu escopo é o de uma invenção de cultura: “a ruptura no plano da racionalidade ocorre quando o agente está capacitado para modificar o meio em que atua, apresentando no seu comportamento um fator volitivo criador de novo contexto. O campo do possível amplia-se, e a racionalidade passa a requerer uma visão mais abrangente da realidade. Assumindo a criatividade, o agente impõe sua própria vontade, consciente ou inconscientemente, àqueles que são atingidos em seus interesses pelas decisões que toma. Implícito na criatividade existe, portanto, um elemento de poder. O comportamento do agente que não exerce poder é simplesmente adaptativo: identificada a incidência dos fatores aleatórios, esse comportamento pode ser previsto com relativa facilidade. A faculdade de transformar o contexto em que atua eleva o agente à posição de elemento motor do sistema econômico”. Op. Cit., p 37 . Por se tratar de um pensador ligado à teoria econômica, a definição ainda pode parecer restrita a este campo e um tanto estranha ao contexto urbano no qual nosso trabalho se desenvolve. No entanto, é verificável que o objetivo de Furtado é exatamente pensar um tipo de criatividade que não se restrinja ao que ele próprio chama de “lógica dos meios” da racionalidade estritamente econômica, que na civilização industrial é dominante e tem promovido antinomias agudas. É com esta orientação que afirma sobre a criação de novas formas de vida social: “as formas sociais constituem uma esfera da invenção cultural em que é mais difícil estabelecer a linha demarcatória entre fins e meios. A invenção de novos tipos de associação entre os membros de uma sociedade e a institucionalização das relações ( de cooperação ou conflituais) entre os
60 quem fornece os princípios para a arquitetura, não o contrário. Não por acaso, no manifesto pela “hiperarquitetura” há um rebatimento das premissas do pensamento urbano. A Bigness será a arquitetura que pretende adquirir características do urbano, à medida que opera em regimes de complexidade, gera hibridizações, mantém vazios que são espaços para redefinições de limites.
No What Ever Happened, Koolhaas tende a um gesto já notado no manifesto de 1978, qual seja, o da erotização da condição metropolitana. Em minha chave de leitura, a ideia de erotização é elucidativa aqui novamente, pois é pela via da excitação e intensificação de estímulos que se chega ao pensamento urbano como proposto por Koolhaas. Dito de outro modo, a condição metropolitana recebe uma injeção de libido, cujo intuito não é outro senão seu enfrentamento. Além disso, nesses momentos o urbanismo se torna, assim como a “Cultura da Congestão” o foi, algo passível de ser interiorizado pela vida social e pelos indivíduos; um estado de ânimo pessoal e coletivo. No paroxismo da expansão da libido coletiva, sujeito e objeto misturam-se, fundem-se. É portanto neste estado de ânimos que o pensamento pode conceber novas configurações, novas hibridizações, ou nos termos de Koolhaas, “imaginar 1.001 outros conceitos de cidade”.159