• No results found

Onde não há nada, tudo é possível Onde há arquitetura, nada( mais) é possível 290, a ambição deste projeto é liberar a arquitetura de responsabilidades que esta não pode mais sustentar e explorar agressivamente novas liberdades. Este sugere que, liberada de suas últimas obrigações, a ultima função da arquitetura será a criação de espaços simbólicos que acomodem o persistente desejo de coletividade291

A Grande Bibliothèque de Paris foi o último do grands projets da Era Miterrand, este bem de acordo com o bordão proferido por seu ministro, segundo o qual “a cultura é o petróleo da França”292. Para este projeto o governo francês dispôs de uma área de 250mx300m e requereu um edifício de 250.000m² de construção, com gabarito de 35m e um programa para cinco diferentes

       

287

Architecture d’Aukourd ‘hui, p.94

288

ibidem, p. 94

289

cf. Moneo, ob. cit., p. 289 e p.318

290 KOOLHAAS, R. (1995). SML, p. 199 291 ibidem, p. 604 292 o bordão é lembrado em

 104  acervos: uma biblioteca de imagem e som, uma para aquisições recentes ( livros, filmes, vídeos, uma biblioteca de referências, uma biblioteca de catálogos e uma biblioteca de pesquisas cientificas). Esta foi a oportunidade de o OMA projetar – em parceria com outros arquitetos e engenheiros – um edifício que é, sem duvida, um manifesto pela Bigness. O diário do S,M,L,XL registra tal momento como aquele no qual o arquiteto se despoja das condicionantes extra- arquitetônicas e, sob este ânimo, declara: “querer vencer uma competição não é o mesmo que querer fazer seu melhor trabalho possível” 293. Evitando resolver questões arquitetônicas por meio de invenções meramente formais, diz Koolhaas em entrevista que esta foi a primeira vez que buscaram “realmente inventar arquitetonicamente”.294

Em termos alegóricos, Koolhaas interpreta a Biblioteca como um “sólido bloco de informação, um repositório de todas as formas de memória”.295 A proposta do OMA foi resolver o programa por meio de dois dispositivos distintos. As áreas de acervo, segundo Koolhaas a parte “maçante” do edifício, representava em torno de 75% da área e seria solucionada pela série de pavimentos regulares e repetitivos. Este um gesto simples e pragmático. E deste modo, poderiam se dedicar a inventar condições especiais, não em termos de forma, mas simplesmente como “ausência de construção, uma espécie de recusa em construir”, investindo em espaços que “poderiam ser vistos como escavações realizadas em algo que se apresentava como uma massa sólida.”296 Não por acaso, em muitos dos desenhos se trabalha ao modo poché, isto é, os espaços de armazenamento são o fundo em preto, os espaços preenchidos. Os espaços de interação, por sua vez, são os que em branco se destacam do fundo.297 Algumas maquetes também tentam expressar tal raciocínio, os espaços vazios são como que escavados nos blocos, ou então, recortados deles como um Circus de Gordon Matta Clark.298Vale salientar a característica do gesto arquitetônico impresso aqui: o projetar não prescinde de um ato destrutivo, negativo. Ele é que abre na realidade construída os espaços para outras formas de interação. O maior destes espaços especiais é o grande hall aberto – capaz de abrigar 10 mil pessoas – no nível da rua, cujo piso e teto são em vidro, suspendendo com grandes treliças o volume do edifício, e de onde partem nove elevadores que estruturam

       

293

S,M,L,XL, p. 604.

294

Conversa com Estudantes, p. 23.

295

S,M,L,XL, p. 616.

296

Conversa com Estudantes, p. 23.

297

Quem atenta para o raciocinio de Koolhaas em modo poché é Juan Antonio Cortes, em “Delírio e Mais”. El Croquis, 131/132, p. 38

298

Devo esta associação entre o raciocínio projetual de Koolhaas e os dispositivos de Matta Clark a Guilherme Wisnik. Em: Dentro do Nevoeiro: diálogos cruzados entre arte e arquitetura contemporânea. Tese de Doutorado, Faculdade de Arqutietura e Urbanismo da Universidadde de São Paulo, 2012, p. 178

 105  20)Koolhaas-OMA, Biblioteca de Paris (1989) – a estratégia do vazio

 106  22)Koolhaas-OMA, Biblioteca de Paris (1989) – plantas e cortes

 107  23)Koolhaas-OMA, Biblioteca de Paris (1989)

 108  a circulação entre os níveis inferiores e os superiores. Nos quatro subsolos estão a biblioteca de imagem e som, com salas de conferências, auditórios e salas acusticamente preparadas para projeções de filmes e vídeos. Os dois pavimentos acima do pavimento térreo são destinados ao acervo. Do terceiro ao sétimo pavimento, mais no centro do edifício, as áreas de armazenamento são interceptadas por dois grandes espaços não-cartesianos que necessitam de menos luz: uma sala de leitura e um auditório que se volta ao rio Sena. Do nono ao décimo quarto pavimentos, as áreas de armazenamento são interligadas por um espaço em espiral que não objetiva apenas a circulação vertical entre os pavimentos, mas pretendem ser espaços de condensação da vida coletiva. Nele se encontram salas de estudo e lounge. Nos níveis 15 e 16, há uma sala de catalogo que aparece na fachada como um olho e propicia ao visitante um vista panorâmica de Paris, que é, nos termos de Koolhaas, “um catálogo por si própria”299. Nos últimos três pavimentos há um espaço em “loop” para a biblioteca científica. Neste o piso se torna parede e em seguida forro, que se torna parede novamente; na imagem de Koolhaas, uma fita de Moebius. Os espaços de armazenamento não podem ser senão uma repetição da estrutura dominó e da espacialidade cartesiana, os ambientes coletivos, por sua vez, representam a experimentação de espaços inéditos. Estes espaços especiais são fluidos, dinâmicos, contínuos, mostram que Koolhaas abandonou as referências ao caos, mas manteve a busca por uma arquitetura instável, que force o usuário a se adaptar à instabilidade e ao desequilíbrio. A atenção com tais espaços fica evidente pelas maquetes do edifício sem suas peles.

As estratégias projetuais da Bigness estão todas aqui. A distância entre o núcleo e a superfície do edifício é tamanha que há a denominada “lobotomia”. Com isto, cai por terra a correspondência expressiva entre o interior e suas formas plásticas, o que garantia o valor ético-estético da transparência e permitia a leitura do espaços internos a partir de seu exterior – a chamada “ estética hermenêutica” dos modernos. Na visão de Koolhaas, nesta disjunção da lobotomia há maiores possiblidades de se criar o máximo de densidade; aqui nos seguintes termos: “espaços simbólicos que acomodam o persistente desejo por coletividade”300. Estes espaços especiais são, em termos metafóricos, “ múltiplos embriões, cada um com sua própria placenta tecnológica”,301 cujas conexões se dão sem espaços de transição ou qualquer poética, mas por meio de conexões mecânicas possibilitadas pelos elevadores302. E se no Terminal em Zeebrudge a “babel eficiente”

        299 Ibidem, p. 645 300 ibidem, p. 604. 301 Ibidem, p. 616. 302

As articulações mecânicas ganham destaque entre os postulados da Bigness. Segundo Koolhaas, o elevador “ridiculariza nosso instinto de composição, invalida nossa formação e questiona a doutrina que diz que sempre deve haver uma maneira arquitetônica de se dar forma às transições” Conversa com Estudantes, p. 14.

 109  explorava a iconografia da forma singular, na Biblioteca aposta-se na ideia de uma massa informe. Volta aqui o esforço de Koolhaas por evitar formalismos estilísticos:303

no OMA nós estávamos muito preocupados com o social e com o politico, e portanto sentíamos embaraço em admitir algum interesse pela forma. Por causa desse embaraço, nós nos sentíamos constrangidos em inventar. Assim surgiu a invenção de uma forma informe, um contenedor que, sem colocar diretamente a questão da forma, impõe-se nada menos do que por sua presença massiva.304

Esta defesa de um contentor desmesurado e informe é o que reforça o caráter da Biblioteca enquanto projeto-manifesto, estaqueando a posição defendida por Koolhaas contra os excessos formais com os quais polemiza reiteradas vezes. Ressalvando o tom hiperbólico da expressão “muito preocupados com o social e o político”, devemos entender que a tentativa da hiperarquitetura em se distanciar dos formalismos por meio da massa informe não nega a importância do impacto da Bigness, ou melhor, não nega sua presença diante daqueles que com ela tomam contato. Estas proposições nos remetem à sua tentativa de romper com a ideia de arquitetura como fenômeno linguístico, imagético, cenográfico, tão característico na pós- modernidade desde Robert Venturi, e facilmente assimilável pela cultura da informação e consumo dos mass media. Neste momento Koolhaas, parece tentar reencontrar o caráter próprio da arquitetura como ato construtivo, cuja experiência se legitima per se, isto é, a arquitetura não como um ato representacional, mas ontológico. Todavia, no OMA essa tentativa não se desenvolve a partir da tectônica do edifício, da poética da estruturalidade, como seria de se esperar nas propostas em “posição de ‘retaguarda”.305 Aqui, a experiência arquitetônica por natureza se inscreve no impacto da escala do edifício, ou nos termos de Koolhaas, pela sua “presença massiva”. Por isso reforça: “o edifício impressiona simplesmente pela sua massa, pela sua aparência e pela sua mera existência(...) o efeito da pura escala e de seu volume intimidante, é algo muito perturbador para os arquitetos”306. Temos aí o último ponto do manifesto pela Bigness.

Em termos construtivos, o edifício da Très Grande Bibliotheque é um cubo constituído de seis seções verticais, com paredes auto-portantes compartilhadas, feitas em concreto celular. Tais paredes substituiriam o uso de vigas, serviriam como compartimentos à prova de incêndios e, por

       

303

Diz Koolhaas noutra ocasião sobre as primeiras ideias para a Biblioteca: “ logo ficamos cansados e irritados com o discurso dessa arquitetura em que um problema essencialmente arquitetônico é sempre resolvido com uma forma projetada pelo arquiteto”. Conversa com estudantes, p. 22.

304

Entrevista a JeanFrancois Chevrier, em L’Architecture D’Aujourd’hui, p. 94

305

Conferir FRAMPTON, Kenneth. “Rappel à l’ordre: argumentos em favor da tectônica”. Em: Uma Nova Agenda para Arquitetura- Antologia Teórica 1965-1995 - Org: Kate Nesbitt, trad. VeraPereira. São Paulo: Cosac Naify, 2008 , pp.556-572

306

 110  serem ocas, abrigariam todas as instalações e condutores, evitando a utilização de tetos e solos falsos.

É oportuno nesse momento lembrar, como faz Moneo, que com esses postulados Koolhaas adiciona à história da arquitetura o conceito de “ corte livre”.307Se em Le Corbusier a planta livre possibilitou novas liberdades no uso do pavimento, o mesmo raciocínio agora é transposto para o corte, permitindo ainda mais flexibilização da estrutura Dom-ino. Este raciocínio do grande contêiner informe associado ao corte livre é utilizado novamente noutros projetos e se torna um dos traços referenciais da arquitetura dotada de Bigness. No Centro Multimídia de Karlsruhe e no projeto de duas Bibliotecas em Jussieu, por exemplo, a estrutura dominó não é rompida bruscamente pelos espaços ovoides da Biblioteca de Paris, mas ganha dinamicidade por meio de rampas e espaços inclinados – o que os torna mais exequíveis. A intenção do arquiteto, entretanto, é bem próxima daquela da TGB. No interior do Centro de Multimídia, diz Koolhaas, “o visitante se torna um flâneur baudelairiano, inspecionando e sendo seduzido por um mundo de livros e informações – pelo cenário urbano”308. Na Opera de Cardiff, por sua vez, OMA sugere que a repetição da estrutura é rompida e poetizada na forma insólita da sala de apresentação que se localiza fora do bloco massivo.

Todavia nenhum destes três projetos foi construído. Com cem metros de altura, a Biblioteca de Paris ultrapassou em três vezes o limite estipulado pelo concurso. Mas este é, talvez, a proposta arquitetônica mais consistente com as premissas do manifesto pela Bigness: a hiperarquitetura como um contêiner que funciona como recipiente técnico para o desenvolvimento das atividades múltiplas, a lobotomia que busca criar densidade no interior — espacialidades especiais estimulando interações – e manter a racionalidade do exterior; a mecanização das transições; a presença e o impacto por meio da escala da massa informe.

       

307

MONEO, Inquietação Teórica e Estratégia Projetual. São Paulo, Cosac Naify, 2008, p. 292.

308

 111 

 112  26)Koolhaas-OMA, Duas Bibliotecas em Jussieu (1993)