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5 DOCTRINAL ANALYSIS

5.3 Doctrinal analysis of arbitral awards with a public international law president

5.3.1 Metalclad v. Mexico

A ideia de acordo com a qual os avanços técnico-produtivos modernos possibilitam a construção de edificações de grande escala, capazes de intensificar a vida urbana, proliferar energias coletivas e organizar o crescimento urbano não é uma novidade de Koolhaas, mas já tem alguns capítulos na história cultural urbana recente. De certo modo, esta é uma premissa em comum de diversas experiências arquitetônicas do período de formação de Koolhaas. No manifesto de 1994, Koolhaas insere a Bigness na esteira de experimentações pela mega-escala, as ditas mega-estruturas, sem se deter em semelhanças e diferenças desta com seus antecedentes. Apenas retoma a premissa de que sua hiperarquitetura está, diferente das anteriores, adaptada às condições concretas de sua aplicação, isto é, pronta para ser implementada. Vale retomar com mais vagar estas referências a partir das quais podemos elucidar muitas das características da Bigness.

De acordo com Reyner Banham, historiador que se detém no tema, um ancestral das mega- estruturas é certamente o Projeto para o Forte do Imperador de Le Corbusier na Argélia de 1931252, um outro é a Cidade do Amanhã de Louis Kahn na década de 1950. Ali estavam        

grande, é decisivo o fato de que sua vida interior se espraia em ondas sobre um amplo espaço nacional ou internacional (…) A essência mais significativa da cidade grande repousa nessa grandeza functional, para além de seus limites fisicos: e essa atuação sua atua de volta sobre si mesma e dá peso, consideração e responsabilidade a sua vida. Assim como um ser humano não se esgota nos limites de seu corpo ou do distrito que ele preenche com sua atividade imediata, mas somente na soma dos efeitos que irradiam dele temporal e espacialmente, assim também uma cidade constitui-se da totalidade de seus efeitos que ultrapassam seu imediatismo”. “As Grandes Cidades e a Vida do Espírito”. Em: Rio de Janeiro, Revista Mana 11(2), 2005, p.586.

250

Três Textos sobre a Cidade, pp. 26-27

251

ibidem, p.27

252

 cf. BANHAM, Reyner. Megastructure – urban futures of the recent past. Londres, Thames and Hudson, 1976, p. 8. Mas para uma definição completa deste fenômeno arquitetônico, Banham nos remete a um texto de Ralph Wilcoxon do fim dos anos 60:

“não apenas uma construção de tamanho grande, mas... também uma estrutura na qual frequentemente está: 1. Construída de unidades modulares

2. Capaz de grande ou mesma ilimitada extensão

3. Uma malha estrutural na qual unidades estruturais menores ( por exemplos quartos, casas ou pequenos edifícios de outras sortes) podem ser construídos – ou mesmo “plugged-in ou clipped-on depois de ter sido pré- fabricada;

  83  elementos centrais que distinguem este fenômeno arquitetônico de outros edifícios caracterizados apenas pela grande escala, quais sejam, a malha estrutural [supporting frame] de grande extensão, definindo o todo do edifício; e os módulos estruturais menores de caráter transitórios, passíveis de ser modificados – adicionados e subtraídos – por seus usuários, para além do controle do arquiteto. Estes módulos são flexíveis o bastante para abrigar qualquer das funções da cidade. Como destaca Banham, as propostas mega-estruturais dos anos 60 absorvem as críticas ao movimento moderno, realizadas desde o CIAM de 1951, que clamam pela “espontaneidade urbana”, isto é, a contribuição dos usuários e habitantes na produção do fenômeno urbano. Não por acaso em 1964 uma exposição de Bernard Rudofsky traz o título “Arquitetura sem Arquitetos”. Neste sentido, será recorrente nos mega-estruturalistas esta relação entre, de um lado, controle e planejamento de uma totalidade e, de outro, a possibilidade de livre ação dos agentes para além das prescrições do arquiteto. Segundo Banham, na década de 1960, estes nexos movidos por entusiasmo com avanços técnicos e possibilidades de liberdade se multiplicam no imaginário social. Desde grandes parques industriais – como o de Redondo Beach na Califórina – , passando por projéteis espaciais construídos pela engenharia de ponta até versões das mais fantasiosas como a do Yellow Submarine dos Beatles. 253

No campo em expansão da arquitetura, diversas experiências enfatizaram a relação entre flexibilidade, mobilidade e ludicidade. Caso paradigmático, por sinal citado algumas vezes por Koolhaas, é o chamado Fun Palace de Cedric Price. Nesta mega-estrutura somente pilares metálicos e a viga que os conecta no topo são permanentes. Pavimentos, circulação e ambientes são horizontal e verticalmente flexíveis. Trata-se de um edifício quase completamente indeterminado, capaz de abrigar os mais diversos usos e, como lembra Banham, com grande potencial de realização254

Esta relação entre avanços técnico-produtivos, flexibilidade e ludicidade aparece, novamente, nas pesquisas de Constant Niewenhuis. A Nova Babilônia de Constant é talvez a proposta mais acabada dos estudos situacionistas em busca do que estes chamaram de “urbanismo unitário”, o que implica, nos termos do autor, “a transformação de nossos hábitos, ou sobretudo de nossa forma de vida e, conectado a isso, uma profunda mudança no modo

       

4. Uma malha estrutural projetada para ter uma vida útil muito mais longa do que aquela das unidades que pode suportar”

253

Cf. BANHAM, op.cit., pp. 18-25

254

Outro autor que repassa estas experimentações da década de 1960 é Guilherme Wisnik, em No Nevoeiro, pp. 121-145

  84  como nosso ambiente [environment] é produzido”255. No diagnóstico de Constant, a modernidade capitalista opera num ethos utilitarista onde os avanços das forças produtivas não geraram tantas melhoras em condições de vida quanto um acúmulo de bens e necessidades criadas, um cotidiano alienante feito de trabalhos abstratos e, muitas vezes, explorados; de formas passivas de lazer e, ainda, de uma sociabilidade centrada exclusivamente em relações mercantis. No que diz respeito ao urbanismo, esta racionalidade produtivista tem correlatos bastante concretos: faz coincidir funcionalidade da cidade com a instrumentalização do espaço. Neste sentido, a cidade tende a se dividir entre unidades de produção e unidades de consumo; a experiência da cidade, por sua vez, torna-se homogênea e reificada. No entanto, os avanços da capacidade produtiva – propiciados pela indústria e mais recentemente pela automação – são condições de possibilidade de superação deste quadro.

Para Constant e os situacionistas, um ponto de partida para romper com os condicionamentos ligados a este ethos se encontra num tipo de experiência deixada de lado pela civilização maquinista, qual seja, a experiência lúdica. Na visão de Constant, em práticas lúdicas indivíduos e coletividade têm de suspender a racionalidade utilitária – a do cálculo segundo meios e fins –, abrindo-se para uma realidade múltipla e, ainda, para uma relação mais intensa com o espaço vivido. Tais elementos são catalisadores na proliferação de uma renovada “criatividade coletiva” 256 e, ainda, disparam o desejo por mudanças sociais mais profundas. A Nova Babilônia seria, neste sentido, um modelo social onde se concretizaria a aspiração situacionista por excelência, qual seja, une autre ville pour une autre vie.

A Nova Babilônia seria uma cidade organizada em grandes eixos, formando uma rede de edifícios interconectados e divididos em níveis. O setor produtivo automatizado ficaria no subsolo, o térreo ficaria liberado aos transportes. Os espaços mais valorizados seriam nos andares elevados, alguns fechados outros abertos, nos quais se dariam encontros, interações e atividades criativas. Se quisermos usar os termos situacionistas, estes seriam os espaços privilegiados para “a construção de situações”, isto é, “ a edificação de uma micro ambiência e o jogo de eventos para um momento único na vida de diversas pessoas”257. As estruturas da Nova Babilônia seriam desmontáveis, itinerantes, passíveis de serem construídas e

       

255

“Unitary Urbanism”. Em:WIGLEY, M. Constant’s New Babylon – the hyperarchitecture of desire. p. 132.No mesmo texto encontra-se uma definição mais completa do termo: “eu preferiria definir urbanismo unitário como uma muito complexa, muito cambiável, constante atividade, uma intervenção deliberada na praxis do cotidiano”

256

“Urbanismo unitário, independentemente de todas considerações estéticas, é o fruto de um novo tipo de criatividade coletiva”. “Declaração de Amsterdam”. In: WIGLEY, M. Constant’s New Babylon – The

Hyperarchitecture of Desire. Rotterdam : Witte de With, Center for Contemporary Art, 1998, p.87

257

“Declaração de Amsterdam”. In: WIGLEY, M. Constant’s New Babylon – The Hyperarchitecture of

  85  reconstruídas pelos próprios habitantes; deste modo, a forma da cidade estaria em constante transformação e as edificações mais de acordo com as novas necessidades de uma cultura onde cidadãos privilegiam o jogar com a vida, a mobilidade e a relação ativa e intensa com o ambiente construído.258 Com isto se entende por que na Nova Babilônia trabalhar se torna sinônimo de criação, e a forma de vida livre e lúdica coincide com um novo tipo de urbanização. Dito em outros termos: no urbanismo unitário da Nova Babilônia liberação subjetiva e transformação social não se dissociam, mas funcionam como uma práxis urbana na qual os sujeitos coletivos formam a si próprios nas mesmas atividades em que produzem o espaco urbano. Daí se entende que a ambição vanguardista de mudar a vida passa necessariamente por mudar a própria cidade ( o espaço socialmente construído). Vale lembrar, ainda, que estas relações entre ruptura de condicionamentos cotidianos e um novo modo de produção do espaço reaparece em trabalhos sociológicos de, por exemplo, Henri Lefebvre, autor com o qual os situacionistas mantiveram diálogos e tensionamentos.259

A busca por um urbanismo no qual as iniciativas dos usuários deve prevalecer também é concebida pelo urbanista Yona Friedman, autor por sinal lembrado no manifesto de Koolhaas pela Bigness260. As estruturas de Friedman aproximam-se das da Nova Babilônia, à medida que sua geometria é mais complexa e anárquica do que noutras versões megaestruturais. Também pode ser considerada utópica, uma vez que sua implementação tem como condição necessária mudanças socioeconômicas e de valorações coletivas. Não por acaso, Koolhaas afirma que o Urbanismo Espacial de Friedman é uma proposta que “nunca aterrava, nunca confrontava, nunca exigia o seu lugar certo – crítica como decoração”.261

       

258

“Como um modo de vida, o homo ludens vai demandar, primeiramente, que ele [o mundo] responda suas necessidades de jogar com a vida, de aventura, de mobilidade, bem como todas as condicoes que facilitam a criação de sua própria vida”. “Nova Babilônia: Esboço de uma Cultura”, em WIGLEY, op.cit., p 160

259

A crítica de Lefebvre elenca possibilidades de suspensão da cotidianidade moderna. Uma delas se abre com um distanciamento que seja, nos termos do autor, um olhar estrangeiro – aquele que para Lefebvre há nas figuras dos ingênuos, dos camponeses, das crianças. Com este distanciamento, o ethos cotidiano estabelecido como reino das necessidades evidencia seus condicionamentos, isto é, o caráter teatralizado dos papeis desempenhados, a artificialidade das necessidades criadas. Uma segunda possibilidade de ruptura é obtida com a reabilitação de necessidades desconsideradas, quais sejam, do lúdico e do festivo. Outra possibilidade de suspensão pode ser forjada quando se assume uma postura onde “o ser humano considera sua própria vida – seu florescimento, a intensificação da vida – não como meio para um outro fim, mas como seu próprio fim”.Cf. Critique de la Vie Cotidienne I, sobretudo entre as páginas 27-29 e 204-214

260

Afirma Friedman que “uma obra de arte é amplamente a criação do espectador: o artista é somente aquele que provoca emoções que dever ser decifradas por estes espectdores. Um arquiteto nao deve’criar’a cidade somente pela acumulação de objetos. É o habitante que deve ínventar’ a cidade: uma cidade inabitada, mesmo se ela é nova, não é senão uma ruina” FRIEDMAN, Yona. Pro Domo. Barcelona: ed. Actar, 2006, p. 03. Esta passagem é lembrada também por GROSSMAN, Vanessa. L’Architecture et L’Urbanisme revisités par LÍnternationale Situationiste Revisitée Par Les Architectes et les Urbanistes. Dissertaçao de Mestrado. Paris I- Pantheon Sorbonne.2006-2007. Tal pesquisa é interessante para um estudo mais aprofundado das aproximações e diferenças entre Constant e Yona Friedman, vale conferir GROSSMAN, Vanessa, sobretudo entre as páginas 71 a 113.

261

  86  Já em chave de uma ficção-científica esteve as propostas do Archigram, cujo nome vem da sobreposição de Architecture + Telegram. No grupo formado por jovens arquitetos ingleses ligados à Architectural Association, entre os quais estavam Peter Cook, Warren Chalk, Ron Herron, David Greene e Michael Webb, a relação entre avanços tecnológicos, mobilidade e nomadismo aparece numa relação irônica e entusiasmada com a então ascendente sociedade de informação e consumo. Os projetos utilizam os sistemas construtivos pré-fabricados em estruturas de escala desmesurada, com um raciocínio construtivo feito predominantemente de conexões entre torres, treliças, tubos e cápsulas. Entre os mais notórios estão a Walking City, a megaestrutura que lembra um submarino com braços articulados, preparada para uma comunidade nômade deslocando-se sob o mundo devastado pela bomba atômica; e a Plug-in- City, uma gigantesca infraestrutura feita em tubos treliçados que se comunicam com torres multi-uso e permite a conexão e desconexão das cápsulas habitacionais. Ainda que viessem em desenhos bastante especificados, os projetos não pretendiam ser implementados, mas sim publicados junto a colagens e foto-montagens na revista-panfleto de mesmo nome. Estava na agenda do Archigram fazer circular imagens que inspirariam o imaginário arquitetônico262 e inseriam a disciplina nos circuitos da comunicação social.

Tanto Banham ao reconstituir a história das mega-estruturas quanto Koolhaas ao lembrar dos antecedentes da Bigness mencionam o caso do Centro Georges Pompidou de Paris, também conhecido como museu Beaubourg. Banham reconhece que o projeto aparece num momento no qual as energias do ideário megaestrutural foram ora institucionalizadas, ora concretizadas em suas versões mais consonantes ao establishment. Para Banham o Beaubourg foi menos aventuroso em termos de flexibilidade do que o Fun Palace e, em termos de escala, esteve na média das mega-estruturas construídas; além disso, evidenciou que não há mega- estrutura sem uma determinação coletiva e influentes apoiadores – no caso do Beaubourg, como se sabe, esteve entre os grand projets culturais da era Miterrand. Por sua linguagem, Banham o caracteriza como um monumento ao movimento mega-estruturalista com visual “archigramático”263. Já pra Koolhaas no Beaurbourg a execução de um contentor flexível ocorreu à custa da ênfase na identidade muito peculiar do edifício. Por isso Koolhaas considera os arranha-céus de Manhattan um exemplo mais exitoso no que diz respeito a criar condensadores sociais sem formalismos. 264

       

262

Cf. entre tantos outros, FRAMPTON, K. História Crítica da Arquitetura Moderna, pp.342-344.

263

BANHAM, R., op.cit., p. 212.

264

  87  9) Cedric Price, Fun Palace( 1961)

  88  11)Archigram, Walking City(1964)

  89  13)Richard Rogers e Renzo Piano. Centro Georges Pompidou( 1972)

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