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5 DOCTRINAL ANALYSIS

5.2 Doctrinal analysis of arbitral awards with a commercial law president

5.2.2 Methanex v. The US

Para entender de que maneira esta posição aceita como dadas a realidade da cidade- colagem, da Cidade Genérica e ao mesmo tempo visa a uma reativação da vida urbana, devemos nos deter no mapeamento que faz Fredric Jameson das posturas arquitetônicas do período após a crise dos modernos. Jameson nota que, na antípoda das posturas pautadas pela ideia de fragmentação, a posição de Koolhaas com a Bigness enquanto contêiner cujo intento é “ conter todo um mundo dentro de si”,222 reativa o que Jameson chama posteriormente de um

       

219

El Croquis 53+79, p. 50

220

Três Textos Sobre a Cidade, pp.16-17

221

ibidem, p. 26

222

  76  “desejo chamado totalidade223. De fato, o manifesto de 1994 pretende resgatar um pensamento arquitetônico capaz de operar nesses termos:

paradoxalmente o Todo e o Real deixaram de existir como possíveis para o empreendimento do arquiteto, exatamente no momento em que o fim do segundo milênio que se aproxima detectou uma corrida desenfreada no sentido da reorganização, consolidação, expansão, um clamor pela mega- escala.224

Ainda no manifesto, Koolhaas defende que “numa paisagem de desordem, desmontagem, dissociação, desresponsabilização, a atração da Bigness está no seu potencial de reconstruir o Todo, ressuscitar o Real, reinventar o coletivo, reivindicar a possibilidade máxima”.225 Se quisermos usar os termos do manifesto, podemos dizer que a Bigness funciona neste período como “um domínio teórico” onde o pensamento arquitetônico, redefinindo prioridades, volta-se às suas pretensões mais ambiciosas, quais sejam, compreender e impactar o todo social, criando intensificações, densidades, podemos dizer, centralidades. Por meio da categoria de totalidade, Koolhaas vincula a Bigness à retomada do urbanismo num mundo onde, segundo a expressão do autor, só há arquitetura. Em poucos termos: a busca pela totalidade se converte, no manifesto de 1994, na busca pelo urbano. Quando discorre sobre os projetos da Biblioteca de Seattle e sobre a Casa da Música no Porto, Koolhaas se opõe novamente à tendência à fragmentaçao e reitera a busca pela totalidade: “para mim, a essência do desconstrutivismo não era seu estranhamento da forma, mas seu desmantelamento ou fragmentação da totalidade. Cada um destes edifícios novos [ A Casa da Música e a Biblioteca] insistem na integração e na ação de juntar, na construção de um novo todo, que pode ser turbulento ou instável, mas que segue sendo uma entidade”. 226

Enquanto domínio teórico, a Bigness funciona como a tentativa de encontrar para si um novo território de atuação, onde se mantem vinculadas as escalas do objeto arquitetônico e a do objeto do urbanismo, ou então, um domínio onde as fronteiras entre as disciplinas de arquitetura e urbanismo se desfazem. Esta retomada do desejo por totalidade não visa, no entanto, à racionalização completa do ambiente construído – como na ideologia do Plano – , ou nos termos de Koolhaas, não visa à “retomar o controle”, mas sim utilizar a Bigness enquanto espaço capaz de efetivar as diretrizes do What ever Happened. Neste tom afirma que a Bigness

       

223

ibidem, p. 147

224

Três Textos sobre a Cidade, p. 21

225

Ibidem, p. 21

226

  77 

é a única arquitetura que programa o imprevisível (...) apenas a Bigness pode sustentar uma proliferação promíscua de eventos num único contentor. Ela desenvolve estratégias tanto para organizar a sua independência como sua interdependência dentro de uma entidade maior, numa simbiose que exacerba em vez de comprometer a especificidade ... a arquitetura se torna tanto mais quanto menos arquitetônica: mais devido à enormidade do objeto; menos por causa da perda da autonomia – ela torna- se um instrumento de outras forças, ela depende (...) mesmo que a Bigness entre na estratosfera da ambição arquitetônica – o puro frêmito da megalomania – ela só pode ser conseguida a custa de desistir do controle, da transmutação.227

Para Koolhaas a “hiperarquitetura” reativa a experiência urbana reunindo a complexidade da cidade desordenada sem se conectar com ela, uma vez que está rompida a continuidade exterior e interior – a denominada lobotomia. Internamente, é capaz de gerar riquezas programáticas, ou seja, uma intensificação de interações sociais por meio da proliferação promíscua de atividades, funcionando deste modo como um ”condensador social” no sentido dos arranha-ceus de manhattan. Externamente, no entanto, mantém-se um todo racional, ainda que organizado de modo instável.Quando Jameson analisa esta proposta de arquitetura, afirma: “nessas circunstâncias a construção individual pode, mais uma vez, redescobrir uma vocação para encenar a totalidade, mesmo que seja numa inversão do gesto modernista”.228 Com isso, Jameson enfatiza o fato de Koolhaas pretender reativar a ideia de totalidade sem as pretensões modernistas de racionalizar todo o ambiente construído; por isso para Jameson o urbano se dá no interior da Bigness mais em termos de “replicação”.229 Moneo, por sua vez, trata da relação

de Koolhaas com a ideia de totalidade em termos mais literais. Segundo Moneo, para Koolhaas o arquiteto “é um catalisador que ajuda, a partir da unidade produtiva de projeto que é um escritório, a cristalizar formas e espaços capazes de conter os programas que a vida moderna pede”230.Quando Koolhaas reflete sobre seus projetos do fim dos anos 1980 e início dos 90, afirma: “Alivia muito a tarefa dos arquitetos pensar nesse pequeno grupo de edifícios como, antes de mais nada, uma acomodação permanente de atividades provisórias. Não precisamos mais andar em busca de uma rígida coincidência entre forma e programa, e assim nos dedicaremos simplesmente a projetar novos volumes que sejam capazes de absorver o que quer que nossa cultura gere”. 231

       

227

Idem, p.25.

228

JAMESON, F. “As Limitaçoes do pós-moderno”, p. 149.

229

Cf. JAMESON, ibidem, p. 149

230

MONEO, R. ob. cit, pág 290.

231

  78  A proposta arquitetônica é pensada, portanto, não somente consoante à leitura urbana, mas também como um reembaralhamento com a escala urbana. Sob a forma da Bigness, arquitetura e pensamento urbano visam à modernização enquanto impulso para transformações no todo social, uma possibilidade de organização de diferenciações em regimes cada vez mais complexos. Todavia é preciso notar que, enquanto estratégia de intervenção urbana, as proposições pela “totalidade”, pela “densidade” e pela “abertura de vazios” no construído operam na maior parte das vezes em sentido literal, como forma de organizar os espaços completamente edificados da condição urbana global. Quando estas se tornam princípios para a arquitetura, totalidade, adensamento e vazio funcionam também como uma erotização poética destas categorias.

Em termos mais literais ou mais metafóricos, o intento pela totalidade é central para um pensamento arquitetônico cujo intuito é desprender-se de questões formais, estilísticas ou de identidade – seja da estética do caos, seja da tradição modernista, seja dos contextualismos –, mantendo em aberto a passagem ao urbanismo e, ainda, voltando-se para as possibilidades da arquitetura na intervenção na vida social, ou melhor, na intensificação da vida urbana.232 Estes esforços apontam para outra redefinição, qual seja, a de que o pensamento arquitetônico pode explorar não as características específicas de um “lugar” – aquelas que no limite levam às questões de identidade –, mas as condições socioespaciais mais gerais das cidades contemporâneas.