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A China é um país imenso e de uma diversidade impressionante, patente não só nas paisagens, mas principalmente na existência de 56 grupos étnicos e de 200 dialectos ainda em utilização.
Apesar desta diversidade, existe um nível de unidade admirável que se deve à predominância de um grupo étnico – os Han – que constitui 90% da população, ao facto dos 200 dialectos terem apenas uma única forma escrita e, principalmente, devido a uma longa tradição confucionista que tem governado a nação chinesa quase continuamente ao longo da História (Chen, 2001, p.3). Uma vez que a filosofia confucionista se ocupava do funcionamento da sociedade, que pretendia organizada e hierarquizada, facilmente assimilava as culturas dos povos invasores, razão pela qual existe há mais de 2500 anos. O confucionismo regula todas as relações sociais, desde as familiares às sociais (Chen, 2001, pp.3-4).
Os aspectos essenciais do confucionismo no formar da psicologia social chinesa são: (i) o homem existe através das suas relações com os outros e é definido por elas; (ii) estas relações são estruturadas hierarquicamente; (iii) a ordem social é alcançada quando cada parte interessada cumpre os requisitos do papel que desempenha (Bond, 1989, p.216).
Na cultura tradicional chinesa, a família constitui a base e unidade de todas as organizações, desde clubes sociais a instituições educativas, passando por partidos políticos. Mesmo actualmente, a família empresarial é a extensão da tradição histórica e cultural que sempre promoveu o núcleo familiar como a unidade social fundamental ao nível organizacional e de trabalho. Uma vez que a China era um Estado agrário, a unidade familiar, através da sua capacidade para gerir e partilhar recursos limitados, constituía uma medida de protecção contra as adversidades de uma vida de subsistência (Chen, 2001, p.21).
Ao contrário das sociedades ocidentais, o Estado confucionista é composto não por “indivíduos” por si, mas pelas interdependências e relações que estes estabelecem entre si. O pensamento confuciano atribui um papel social a todas as pessoas e assume o indivíduo como um elo numa rede social, estabilizado e cimentado num princípio de compaixão filial (Chen, 2001, p.21).
Na China antiga, todos os filhos tinham direitos iguais à herança (ao contrário do que se passava, por exemplo, no Japão), uma prática que estendia as obrigações económicas a toda a família. Quando estas interdependências sociais e económicas se começaram a estender a parentes mais distantes, o resultado foi o desenvolvimento do clã chinês como organização social. É por esta razão que nalgumas aldeias na China Continental os habitantes partilham todos o mesmo apelido. O forte elo de ligação entre famílias alargadas continua a ter implicações profundas na sociedade chinesa actual (Chen, 2001, p.21).
De acordo com Blackman (tradução própria, 1997, p.4) a sociedade chinesa é baseada em desigualdades e numa competição feroz entre os diferentes grupos. Com efeito, a organização social quer na China, quer na
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diáspora é caracterizada pela pertença a grupos exclusivos. O uso de dialectos é fundamental a esta pertença, uma vez que identifica naturais da mesma cidade ou aldeia. À parte dos grupos de dialecto, há muitos outros “clubes” exclusivos como lao tongxue (associações de alunos) ou grupos de beneficência (p.10). Os grupos formados a partir da cidade natal ou do dialecto falado constituem a base das redes comerciais, por exemplo. No mundo chinês, são as relações entre os indivíduos, e não a Lei, que promovem a segurança das pessoas (Blackman, 1997, p.10). Ao invés de esperar que as regras e a Lei sejam aplicadas de forma igual para todos, na China deve esperar-se que o poder individual se sobreponha às regras e aos regulamentos. A tradição na negociação, por exemplo, é entendida como a única forma de conseguir vantagens para si próprio e para o seu grupo (Blackman, 1997, p.4).
As relações familiares são também extremamente importantes. Hofstede (citado por Blackman, 1997, p.10) identifica como princípios orientadores da organização social o individualismo e o colectivismo que assumem pesos diferenciados nas sociedades mundiais. Os chineses são colectivistas. Acreditam, portanto, que as decisões tomadas em grupo têm mais valor do que aquelas que são de responsabilidade de um só indivíduo, seguindo as atitudes, crenças e normas do seu próprio grupo (Blackman, 1997, p.11). Estes grupos são obviamente fechados e pouco permeáveis a estranhos.
Os chineses têm um ditado “cada pessoa varre a neve no seu próprio caminho mas ignora o gelo que está no telhado do vizinho” o que evidencia a forte identificação com o grupo e a frieza das relações com grupos ou indivíduos estranhos (tradução própria de Blackman, 1997, pp.13-14). A lealdade do grupo é considerada extremamente importante como se pode verificar pelas afirmações de Confúcio “Considera a lealdade e a fidelidade como fundamentais. Não tenhas amigos que não sejam tão bons como tu próprio” (tradução própria de Analects 1:8).
Nas sociedades ocidentais as pessoas são ensinadas a dizer o que pensam, a dar a sua opinião, a expressar as suas ideias com franqueza, o que resulta numa forte tradição de debate. Os indivíduos são encorajados a falar com verdade, independentemente do que os outros pensam (Blackman, 1997, pp.17-19). Já os chineses são ensinados a ser cautelosos ao expressar das suas opiniões pessoais, principalmente se são críticas em relação aos outros ou ao que os outros pensam. As crianças são ensinadas a não contrariar os pais. Esta questão é particularmente importante em público, já que os chineses são especialmente sensíveis ao que deles é dito publicamente. Um forte respeito pela hierarquia fortalece a reputação de um indivíduo na China, isto é, o respeito que os outros lhe têm – a face. Na China as pessoas devem dirigir-se de forma adequada aos outros em função do seu nível, mostrando respeito aos cidadãos mais velhos e àqueles que se encontram em posição de chefia.
O entendimento ocidental relativamente à amizade é completamente antagónico em relação ao chinês: para um ocidental a amizade é entendida como um sentimento; para um chinês está relacionada com os “favores” que permite. A amizade envolve dar e receber, um favor por um favor, atribuindo sempre maior importância aos factores pessoais do que aos objectivos e institucionais. Quem não age assim, perde a face (Blackman, 1997, p.16).
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Guanxi significa literalmente “uma relação” entre objectos, forças ou pessoas. Quando a expressão é usada para descrever uma relação entre pessoas pode ser aplicada à relação entre a mulher e o marido, a uma relação de afecto, a uma relação de amizade ou a relações sociais. Relações que implicitamente são baseadas em interesses e benefícios mútuos. Uma vez estabelecido guanxi entre duas pessoas, elas passam a poder pedir favores uma à outra, sabendo de antemão que o favor poderá ser pago no futuro.
Guanxi refere-se, assim, a conexões que são definidas por reciprocidade e obrigação mútua. De uma forma ideal, estas conexões também devem ser apoiadas em sentimentos de boa vontade e afeição pessoal, o que nem sempre acontece. Guanxi depende largamente de laços familiares e de experiências partilhadas (Chen, 2001, p.46).
“Guanxixue [o estudo das interligações ou a arte de guanxi] is doing favors for people. Everyone uses their guanxi network. You ask a friend for a favour, if he can’t do it, he asks someone else. In this way the lower strata can connect up with the higher levels” (Mei-Hui Yang, 1994, p.4). No fundo trata-se de uma cadeia de favores. Uns prestam favores aos outros sabendo que estes lhos ficam a dever e que, um dia, se necessário, lhos irão pagar.
Guanxixue envolve a troca de presentes, favores e banquetes; envolve o cultivo de relações pessoais e redes de dependência mútua; envolve a criação de relações de obrigação e dívida. Estas práticas são construídas a partir da primazia e do poder de ligação das relações pessoais e da sua importância na satisfação das necessidades e desejos do dia-a-dia. Esta concepção é partilhada por todos os chineses, na República Popular da China, em Taiwan e em países estrangeiros (Mei-Hui Yang, 1994, p.6).
De acordo com Hwang (citado por Bond, 1989, p.223) as relações interpessoais na sociedade chinesa podem ser classificadas em três categorias principais: laços expressivos, que se referem aos laços mais importantes, os familiares; laços instrumentais, são laços temporários e relações anónimas estabelecidas com outras pessoas apenas como forma de atingir objectivos pessoais; laços mistos, referem-se a relações mais pessoais em que estão envolvidos jogos de poder (guanxi).
Ming-Jer Chen (2001, pp.47-49) aponta três tipos de guanxi: (1) jiaren – diz respeito às relações mais próximas o que, no contexto social chinês, se refere às relações no interior da família alargada (inclui pessoas com ou sem “ligações de sangue”, desde que sejam entendidas como família. (2) shuren – envolve as pessoas que não fazem parte da família alargada, mas com as quais existe uma relação muito próxima. No contexto chinês pode ser alguém da mesma aldeia, pode ser um antigo colega de escola, um parceiro de associação, um amigo de amigos, etc.. (3) shengren – corresponde aos estranhos. Na perspectiva chinesa, uma vez que pouco se sabe relativamente a pessoas que se acabaram de conhecer, não é possível aferir se são pessoas dignas de confiança, razão pela qual são habitualmente olhadas com uma certa suspeição.
A figura esquematiza o funcionamento das redes de guanxi. Os círculos concêntricos representam hierarquicamente a família imediata, a família alargada e amigos próximos e as relações exteriores à família. Os
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círculos ténues representados ao redor dos primeiros representam as conexões que permitem a terceiros o acesso aos níveis mais íntimos de guanxi.
Assim, mesmo sendo um shengren relativamente a uma determinada rede de guanxi, é possível conseguir uma ligação que permita o acesso a um círculo interior através de uma destas redes de interpenetração. É até possível ser um shengren numa rede, um shuren noutra e um jiaren numa terceira. Qualquer pessoa ocupa na sociedade chinesa um determinado nível de guanxi, dependendo da forma como se relaciona com uma determinada rede, podendo, no entanto, relacionar-se com outras redes ou níveis.
Renqing é um conceito essencial à compreensão de guanxi uma
vez que é utilizado para expressar as “dívidas ou favores por saldar”. Pode ser traduzido literalmente como “empatia humana” ou “relação humana” mas é actualmente usado para designar “favor” ou “oferecer presentes”. Assim sendo, as obrigações relacionadas com renqing envolvem redes de relações através de ofertas recíprocas de presentes ou favores, levando a dívidas mútuas que percorrem infinitamente as redes e constituem a base do guanxi (Chen, 2001, p.49).
As obrigações de renqing têm sempre que ser satisfeitas, mas não há propriamente uma margem temporal para retribuir o favor, e a dívida pode manter-se por um largo período de anos, ou até passar de geração em geração. É precisamente o facto de não existir um prazo definido que obrigue ao pagamento destes favores que torna as obrigações de renqing tão importantes no manter de relações, tão duradouras e tão ubíquas. Os chineses confiam na sua boa memória e retribuem favores à família dos seus benfeitores anos, até gerações, mais tarde, particularmente quando os favores foram prestados em momentos de adversidade. Finalmente, a troca de favores não tem que ser equitativa o que leva a que as interacções e as relações de obrigação se mantenham durante anos ou ao longo de diversas gerações (Chen, 2001, p.49).
Vista de fora, a sociedade chinesa é um mundo onde as relações pessoais determinam a forma como as coisas se desenrolam, onde cada indivíduo tem a sua própria rede de conhecimentos e ligações e onde a rede de cada pessoa está envolvida por milhares de outras redes de relações com intensidades variáveis que se intersectam (Chen, 2001, p.50). Ao contrário do que se passa no Ocidente em que a identidade pessoal é baseada na noção de individualidade, na sociedade chinesa são as relações familiares e, por conseguinte, as relações sociais, estruturadas numa hierarquia de papéis, que definem os indivíduos. Veja-se, por exemplo, que tradicionalmente é o nome de família que aparece primeiro (Chen, 2001, p.68).
São precisamente estes princípios que norteiam o aparecimento e o funcionamento dos organismos associativos em Macau, e é deles também que resulta a sua importância. Com excepção de algumas associações mais recentes, ou de centros de apoio que resultam de um processo de desconcentração do Figura 9: Redes de interligação - Guanxi
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Estado, a maior parte das associações em Macau são resultado de uma longa tradição confucionista que privilegia o grupo e as relações de interdependência entre as pessoas. Como se verá, algumas destas organizações são fechadas e pouco permeáveis, funcionando segundo lógicas internas próprias, num forte respeito pela hierarquia e pelas decisões tomadas pelo grupo.
Em entrevista ao Sr. Liu Moe Jiap (21-06-2007, Anexo IX – Entrevistas) foi possível perceber que, na sua grande maioria, as associações em Macau foram fundadas por grupos de pessoas com alguma coisa em comum e para servir um grupo restrito de indivíduos. Existem inúmeras associações apoiadas no dialecto falado ou na proveniência das pessoas. Outra situação relativamente comum corresponde à criação de associações chapéu - por exemplo uma grande Associação Geral das Pessoas Naturais de determinada província que agrega as associações individuais das cidades dessa província. Uma pessoa pode pertencer a diversas associações ao mesmo tempo em função dos seus interesses particulares. Assim se constroem interligações e pontes entre as diversas associações – a base do guanxixue. Frisando esta interdependência entre associações que permite a criação e manutenção de redes de guanxi, o Dr. Rui Rocha (Administrador- delegado da Fundação Oriente em Macau, entrevistado a 18-06-2007, Anexo IX – Entrevistas) destacava que “a comunidade chinesa funciona em círculos concêntricos onde os indivíduos e grupos se movimentam exercendo a sua influência. As associações são a formalização deste sistema. Estes círculos tocam-se e relacionam-se entre si, na medida em que uma pessoa pertencente a uma associação (Associação das Pessoas com apelido Leong) pode pertencer a outra(s) (Associação dos indivíduos que fazem ginástica no jardim X, ou Associação dos funcionários públicos, etc..)”.
Nos capítulos seguintes faremos uma análise do associativismo em Macau, abordando os principais acontecimentos históricos que influenciaram a sua evolução, estudando as suas principais características, examinando também o financiamento. Analisaremos com maior detalhe algumas associações, em função do âmbito da sua actividade, particularmente no que se refere ao seu funcionamento e evolução recente. Por último, apresentaremos os resultados do inquérito à população que, esperamos, permita compreender um pouco melhor este aspecto tão importante da cultura cívica e social de Macau.