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Os autores estudados defendem o princípio de que as redes estão transformando as bases da sociedade, do espaço e do tempo. De acordo com Garrido (2001, p. 107), “No turismo, em virtude da multivariedade de segmentos afins e de tamanho de empresas, há um ambiente favorável à formação de redes interorganizacionais (networks).”. Dessa forma, entendemos que a aplicação dos referidos conceitos permitiram compreender a formação da rede de serviços turísticos em Aracati/Canoa Quebrada-CE.

A coexistência do espaço arcaico, na sede de Aracati, e do espaço modernizado, em Canoa Quebrada, evidencia a formação de um arranjo territorial específico. Corrêa (2001, p. 111) apresenta um modelo para análise das redes geográficas, e aplicaremos esse modelo à realidade local como forma de iniciarmos o processo de estudo da estruturação da rede de serviços turísticos de Aracati-CE.

O turismo representa uma atividade do setor terciário e, de modo genérico, as redes de turismo são estruturadas, conforme demonstrado na Figura 28, através da organização de uma série de prestadores de serviços e de outros elementos, geralmente institucionais.

FIGURA 28 - Elementos ou nós de uma rede de turismo genérica

Fonte: Desenvolvido pela autora, 2015

O turismo, como abordado no capítulo quatro, desenvolve-se através da soma de serviços ofertados em uma destinação; serviços estes que estão agregados a um atrativo principal, a atrativos complementares e a uma governança territorial. Partindo dos conceitos

REDE DE SERVIÇOS DO TURISMO SUB-REDE DE HOSPEDAGEM RESORTS HOTÉIS POUSADAS FLATS TIME SHARING ALBERGUES CAMPING ACOMODAÇÕES COMPARTILHADAS SUB-REDE DE ALIMENTAÇÃO BARRACAS DE PRAIA RESTAURANTES BARES LANCHONETES SUB-REDE DE AGENCIAMENTO DE VIAGENS OPERADORAS AGÊNCIAS DE VIAGENS AGÊNCIAS DE RECEPTIVO SUB-REDE DE TRANSPORTE RODOVIÁRIO AÉREO FLUVIAL MARÍTIMO FERROVIÁRIO PODER PÚBLICO

SEC. MUNICIPAL DE TURISMO MTUR ÓRGÃO ESTADUAL DE TURISMO EDUCAÇÃO TÉCNICA E SUPERIOR FORMAÇÃO TÉCNICA CAPACITAÇÕES INSTÂNCIAS DE

GOVERNANÇA GRUPO GESTOR DO TURISMO SUB-REDE DE SERV. INFORMAIS AMBULANTES VENDEORES DE ARTESANATO ASSOCIAÇÕES

abordados nos capítulos anteriores, entendemos a rede de turismo como a aglomeração de nós interconectados (Figura 29), em uma área de atração ou ponto de reunião, onde o fluxo de visitantes fomenta a estruturação de uma rede de relações locais, regionais, nacionais e globais.

No caso específico de Aracati/Canoa Quebrada-CE, a rede de serviços turísticos não possui todos os elementos, ou nós, possíveis de uma rede. Canoa Quebrada, como uma pequena vila, dependente da sede do município de Aracati para se abastecer de insumos, não possui a autonomia de grandes centros. Para uma melhor compreensão da estrutura da rede, esboçamos a Figura 29, onde dividimos os elementos em sub-redes e exemplificamos atores de cada sub-rede.

FIGURA 29 - Estrutura da rede de serviços turísticos de Aracati/Canoa Quebrada

Fonte: Desenvolvido pela autora, 2015

Conforme demonstrado na Figura 29, existem sete sub-redes compondo a rede de turismo local. Os elementos da rede não estão todos localizados em Canoa Quebrada, eles se distribuem entre a sede de Aracati e a Praia de Canoa Quebrada, e constituem uma dinâmica própria.

No destino turístico propriamente dito estão, além dos atrativos naturais, a sub-rede de hospedagem, a sub-rede de alimentação, alguns elementos da sub-rede de transportes (bugys), a sub-rede de agenciamento e a de artesanato, e de prestadores de serviços autônomos. As sub-redes de capacitação, de gestão e governança e de transportes localizam-se na sede de Aracati; assim, observa-se uma interdependência entre a sede e a praia.

O aeroporto e a rodoviária, nós ou elementos importantes para a formação da rede, estão localizados na sede e condicionam o turista/visitante que utiliza esses meios de transporte a passar pela cidade de Aracati. O maior fluxo de visitantes, no entanto, acessa Canoa Quebrada através de ônibus de turismo que não entram na cidade, seguindo direto para a vila e permanecendo poucas horas em Canoa. O início da operação do aeroporto trará novos fluxos e consequentemente outros efeitos para a realidade local, pois esse fluxo trará turistas que permanecerão por mais tempo em Canoa Quebrada.

QUADRO 4 – Dimensões da rede de turismo Redes analisadas segundo: Especificação Exemplo Aracati

Dimensão organizacional

Agentes sociais

Estado Ministério do Turismo, Secretaria Estadual do Turismo, Secretaria Municipal de Turismo e Cultura. Empresas Hotéis, pousadas, restaurantes, bares, barracas de praia,

agências de viagens e empresas de transportes. Instituições Instituições de ensino, SEBRAE e SENAC.

Grupos sociais

Conselho Municipal de Desenvolvimento Sustentável, Ass. dos Meios de Hospedagem, Asdec, Ass. das Barracas de Praia, Conselho Comunitário, Recicriança (Ong).

Origem

Planejada

Conforme ocorreu a expansão da rede, iniciou-se o processo de planejamento, mais intensamente a partir de 1995.

Espontânea Incialmente, em 1970, o surgimento da rede foi espontâneo.

Natureza dos fluxos

Mercadorias Atrativos naturais, atrativos culturais, eventos programados estão fixos no espaço.

Pessoas

A mão de obra (clientes internos) é, em sua maioria, residente no município; os turistas (clientes externos) são os criadores de fluxos e circulam no espaço turístico.

Informações Entre as empresas e entre os turistas que disseminam suas vivências na rede global de computadores.

Função

Realização A rede de turismo presta serviços e utiliza produtos como insumos na prestação de serviços.

Suporte

São necessárias muitas redes de suporte para o desenvolvimento do turismo, desde rodovias, abastecimento de água, energia, telecomunicações e serviços bancários.

Redes analisadas segundo: Especificação Exemplo Aracati

os meios de hospedagem e transportes. Acumulação

Os serviços são complementares e precisam ser associados para aumentar o lucro e a permanência do turista na destinação.

Solidariedade

Forma-se um grupo de apoio aos moradores da região, Ongs atuam na preservação ambiental e nos cuidados as crianças e adolescentes. Ex: Recicriança.

Existência

Real

Utilização de sistemas viários para que o cliente acesse o destino; como produção e consumo ocorrem

simultaneamente, a distribuição assume papel fundamental.

Virtual

Utilização de sistemas de comunicação tanto como estratégia de marketing como de venda direta ao cliente final. O avanço das tecnologias tem diminuído os intermediadores no setor de turismo.

Construção

Material Pontos fixos, meios de hospedagem, restaurantes e fornecedores de insumos.

Imaterial Fluxo de dados e informações entre os integrantes da rede e os turistas reais e potenciais.

Formalização

Formal Meios de hospedagem, restaurantes e barracas de praia. Informal Artesãos, ambulantes e prestadores informais de

serviços. Organicidade

Hierarquia Complementari dade

Entre os elementos da rede entre si e entre os turistas e a rede.

Dimensão temporal

Duração Longa Entre os elementos da rede.

Curta Entre os turistas e a rede de turismo.

Velocidade dos fluxos

Lenta Comercialização e distribuição dos serviços turísticos por meio de rodovias e aeroporto.

Instantânea

Informações entre os elementos envolvidos no processo de prestação de serviços entre os turistas nas redes sociais.

Frequência

Permanente Entre os elementos envolvidos na prestação de serviços turísticos.

Periódica Entre turistas que frequentam o destino e em eventos com periodicidade (Cine Canoa).

Ocasional Entre turistas que visitam uma única vez e em eventos sem periodicidade (Férias no Ceará).

Dimensão

espacial Escala

Local

Entre os elementos prestadores de serviços turísticos do próprio município, assim como de turistas que residem próximo ao destino turístico.

Regional

Entre os elementos prestadores de serviços turísticos da região, assim como os turistas que residem na região Nordeste.

Nacional

Entre os elementos prestadores de serviços turísticos do país, essencialmente companhias aéreas e agências de viagens, assim como os turistas que residem no Brasil. Global

Entre os elementos prestadores de serviços turísticos do mercado externo, essencialmente companhias aéreas e agências de viagens, assim como os turistas que

Redes analisadas segundo: Especificação Exemplo Aracati residem no Brasil. Forma espacial Solar Dendrítico Círculo

Pontos integrados no município de Aracati, na região, no território nacional e no mercado global. No caso do turismo, fluem os turistas através de vias terrestres e aéreas.

Barreira

Conexão

Interna

Forte conexão entre os elementos da rede envolvidos na prestação de serviços turísticos, uma vez que os serviços são complementares e somam-se para formar a experiência no destino.

Externa

Forte, uma vez que os turistas/consumidores estão fora do mercado local e se deslocam para consumir o destino.

Fonte: Elaborado pela autora com base na proposta de Corrêa (2001)

Observamos, com base nas informações detalhadas no quadro 4, o pulsar das relações existentes na rede de turismo de Aracati/Canoa Quebrada, sua escala, suas conexões, a velocidade dos fluxos e os agentes sociais envolvidos na dinâmica. Passaremos à análise das redes com base no suporte da teoria de Milton Santos, do enfoque genético e atual.

5.2 Identificação dos elos da rede de serviços turísticos, históricos e dados empresariais: