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C OFFEE BARS AND THE “ COFFEE BAR EXPERIENCE ”

2. WHAT IS A COFFEE BAR?

2.2 C OFFEE BARS AND THE “ COFFEE BAR EXPERIENCE ”

Consideramos fundamental contextualizar as cidades que serão analisadas neste trabalho no âmbito temporal e espacial, uma vez que as lógicas e interesses de cada momento histórico e regional resultaram em diferentes ritmos e intensidades do processo de urbanização. Para tanto, é importante que se compreenda as diferentes dinâmicas vivenciadas ao longo da constituição das primeiras vilas e cidades no âmbito do Estado de São Paulo, uma vez que há uma relação direta entre os núcleos urbanos e o contexto no qual eles se inserem. Como já destacou Ianni (1988, p.15), a “história de uma cidade pode ser um espelho da história de uma província, estado, região, nação. Se não um espelho fiel, ao menos um reflexo de muitos traços, que a história da nação às vezes esconde”.

O processo de urbanização no Estado de São Paulo ganhou expressividade a partir do final do Século XIX e se intensificou no início do XX, no âmbito do complexo cafeeiro15. No entanto, antes desse período algumas vilas e cidades já se faziam presentes em algumas regiões do estado, cujas origens estavam atreladas a diferentes contextos históricos e regionais.

Faz-se importante, assim, tratar das especificidades históricas e espaciais nas quais se inserem as cidades analisadas nesta pesquisa. Neste sentido, Sposito (2004, p.413) destaca a importância do conceito de formação socioespacial para entender como o “conjunto de determinações econômicas, sociais e políticas (aqui inclusas as dimensões culturais e ideológicas)” acabaram se constituindo nas “condições para o rápido desenvolvimento do modo capitalista de produção” no Estado de São Paulo.

Para se compreender essa formação socioespacial, Sposito (2004, p.412) destaca que é necessário considerar os “elementos do complexo cafeeiro em suas relações com a dimensão espacial que dá sustentação e expressa, ao mesmo tempo, o movimento dessas transformações”. Diante disso, a autora destaca a importância do comércio, da mão- de-obra assalariada, do capital estrangeiro, do sistema bancário, da expansão ferroviária e o posterior desenvolvimento rodoviário, da mecanização e eletrificação, além do mercado de terras disponíveis como elementos constitutivos da realidade em estudo.

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O complexo cafeeiro, como veremos adiante, diz respeito ao conjunto econômico de atividades interdependentes que levou a um processo dinâmico de acumulação. Portanto, neste caso, trata-se de um “complexo cafeeiro capitalista”, como apontou Cano (1990).

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A formação socioespacial em questão está ligada, portanto, ao desenvolvimento do complexo cafeeiro no âmbito da combinação de dinâmicas econômicas e espaciais que possibilitaram sua inserção no modo capitalista de produção. É a partir desse contexto que devemos considerar os centros urbanos que analisamos nesta pesquisa.

Para tanto, torna-se necessário ponderar que algumas cidades paulistas têm sua origem em períodos anteriores à expansão cafeeira, remontando até mesmo aos séculos XVI e XVII. No período colonial, antes da consolidação do complexo cafeeiro, as vilas e cidades até então existentes se encontravam em outro contexto histórico no qual tais centros não possuíam ainda papéis urbanos tão definidos. Sposito (2004), por exemplo, questiona a existência de um processo de urbanização no Estado de São Paulo no período colonial:

pois, antes do desenvolvimento da atividade cafeeira, não havia se estabelecido ainda uma economia que apoiasse diretamente o papel agrário-exportador que cabia ao Brasil na divisão internacional do trabalho, economia essa que pudesse levar à ampliação dos papéis urbanos de sua cidade principal – São Paulo, como ocorreu com Recife, por exemplo, em função da economia açucareira (SPOSITO, 2004, p.457).

A autora destaca que só a partir do desenvolvimento das dinâmicas ligadas ao complexo cafeeiro, com a associação entre urbanização e industrialização, é que se tornou possível uma divisão territorial do trabalho mais contundente, a partir da inserção efetiva do país no modo capitalista de produção. Isto porque a presença de vilas e pequenos povoados ou assentamentos que concentravam pessoas não significava necessariamente a existência de papéis urbanos claros.

Concordamos com essa perspectiva, principalmente porque é somente a partir da consolidação do complexo cafeeiro que verificamos um processo de urbanização de forma efetiva no Estado de São Paulo, a partir do qual se estruturou a rede urbana paulista. No entanto, vamos considerar também nesta análise os momentos que antecederam o desenvolvimento cafeeiro em São Paulo, pois algumas cidades analisadas nesta pesquisa tiveram suas origens em períodos anteriores. Ianni (1988, p.15), ao destacar a relação existente entre a história da sociedade e das cidades, enfatiza que a “Colônia, o Império e a República, conforme especificidades de cada época, inscrevem-se no todo e nas partes. É

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claro que cada época tem o seu jeito e modo, mas também tem muito a ver com a maneira de cada um em todos os lugares” (IANNI, 1988, p.15).

Além disso, independentemente das primeiras vilas e cidades desempenharem ou não papéis urbanos expressivos, é preciso considerar que tais centros já apresentavam um conjunto de características no que se refere à forma urbana, seja por meio do sítio urbano ocupado quanto pelos primeiros arruamentos que caracterizam suas plantas iniciais, cujos aspectos devem ser considerados para a configuração da atual forma urbana.

A ocupação do território brasileiro pelos europeus foi iniciada a partir do litoral e, consequentemente, as cidades mais antigas encontram-se situadas na faixa costeia ou próxima a ela. No caso específico do Estado de São Paulo, as primeiras povoações também foram fundadas no litoral, como foi o caso de São Vicente, fundada em 1532.

Reis Filho (1968, p.78), ao analisar a evolução urbana no Brasil no período colonial, considera que “a formação da rede urbana é iniciada em 1532, com o estabelecimento do regime das capitanias e a fundação de São Vicente”. Azevedo (1994, p.28) também afirma que a “urbanização do nosso país só teve início, realmente, depois que se iniciou a colonização e foi instituído o regime das Capitanias”, uma vez que “os donatários tinham o direito de ‘fazer todas e quaisquer povoações que se chamarão Vilas’”. Porém, no período colonial, o crescimento do número de vilas e cidades, bem como da população que nelas viviam, ocorreu em um ritmo lento, embora já houvesse uma política urbanizadora para “estimular, indiretamente, a formação de vilas” (REIS FILHO, 1968, p.73). À título de exemplo, de 1530 a 1600 foram fundadas 15 vilas e três cidades, sendo que a média de criação de vilas e cidades era de aproximadamente duas por decênio. Para o caso paulista, entre 1610 e 1670, “nos territórios das antigas capitanias de São Vicente e Santo Amaro, levantaram-se dez novas vilas” (REIS FILHO, 1968, p.81).

Grande parte das vilas e cidades deste período estava atrelada às lógicas de exploração da colônia pela metrópole. Portanto, tais centros estavam ligados às atividades portuárias e, consequentemente, localizados no litoral e especificamente nas áreas onde as atividades econômicas se encontravam em pleno desenvolvimento, como foi o caso da zona da mata nordestina, ligada ao ciclo açucareiro. A partir de meados do Século XVII essa dinâmica começa a se alterar, embora em ritmo ainda lento.

Reis Filho (1968, p.81) enfatiza que “mesmo nas áreas mais afastadas dos programas de economia de exportação, verificava-se um crescimento natural, demonstrando que, à margem dos programas de urbanização estimulados e previstos pela

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metrópole, a nova terra já iria encontrando caminhos próprios”. E é justamente na região onde hoje está situado o Estado de São Paulo que novas vilas e cidades passaram a ser fundadas, a partir de novas lógicas e interesses. Podemos destacar, neste contexto, o papel das Bandeiras, das Monções e do Tropeirismo no surgimento de novos povoados e crescimento de outros já existentes entre os séculos XVII e XVIII.

Como exemplo, podemos citar o caso de Itu, que desempenhou papel importante tanto para as Bandeiras quanto para as Monções, uma vez que grande parte das expedições partiram de suas imediações, denominadas como Campos de Pirapitingui (SILVA, 2004). Outros exemplos podem ser verificados no Sudoeste Paulista, quando vilas e cidades foram fundadas a partir de pousos de tropeiros, tais como Itararé, Itapetininga e Sorocaba, como já destacou Deffontaines (2004)16.

À medida que a “barreira” física da Serra do Mar foi superada e a penetração em direção ao sertão se intensificou, vários povoados foram sendo criados. Por volta do início do Século XVIII, segundo Reis Filho (1968), já havia no país um respeitável conjunto de vilas e cidades que constituíam a rede urbana. Ainda segundo o autor:

Nessa época, as condições de vida em Portugal favoreceram o aumento da imigração para o Brasil; com a descoberta do ouro, nos últimos anos do século XVII, o fenômeno começa adquirir tais proporções que, no século seguinte, ocorre um despovoamento em certas regiões da Metrópole e o governo português passa a adotar medidas deveras para contê-lo (REIS FILHO, 1968, p.81).

No Estado de São Paulo, durante o Século XVII, foram fundadas novas vilas para além da faixa litorânea, tais como São Francisco das Chagas de Taubaté (1645), Nossa Senhora da Conceição do Rio Paraíba - atual Jacareí (1653), Nossa Senhora do Desterro do Campo Alegre de Jundiaí (1655), Santo Antônio de Guaratinguetá (1651), Nossa Senhora da Candelária de Outú Guaçu – atual Itu (1657), Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba (1661), entre outras. Já a partir do século XVIII, além da elevação de São Paulo de Piratiniga à condição de cidade, novas vilas foram sendo fundadas, dando origem a Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pindamonhangaba (1705), Itapeva da Faxina (1769), São João Batista de Atibaia (1769), Itapetininga (1771) etc., processo que continuou e se intensificou a partir do Século XIX.

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Obra originalmente publicada na Geographical Review, em 1938, e no Bulletin de la Societé de Géographie de Lille, também em 1938.

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Referindo-se as esse período, Azevedo (1943, apud AZEVEDO, 1994, p.42) enfatizou que:

“[...] se o século XVII, o das Bandeiras, foi o século da expansão territorial, da conquista e do povoamento, o século do ouro, o XVIII foi, com o declínio do patriarcalismo rural, no norte, e do movimento das Bandeiras, ao sul, o século do desenvolvimento das cidades, onde se formara e já ganhava corpo a nova classe burguesa, ansiosa de domínio, e já bastante forte para enfrentar o exclusivismo das famílias de donos de terras”.

Ao longo desses séculos, cabe ressaltar as considerações feitas por Silva (2004) que, ao abordar três importantes fenômenos da história paulista (o bandeirantismo, as monções e o tropeirismo), afirma que “se observados no conjunto que formam, enquanto atividades intimamente ligadas à vida paulista ao longo dos séculos, oferecem um notável rol de resultados”, principalmente em relação ao processo de povoamento:

A primeira e mais óbvia consequência desse caminhar continuado foi a expansão das manchas de povoamento, por força da ocupação do território, a partir das regiões emissoras de homens, no planalto piratiningano e nos vales do Paraíba e do Tietê. Seja como derivação de roças bandeiristas, de arraiais de mineração, de sesmarias colonizadas, de pouso de tropas ou de vendas, é imensa a lista de povoados, freguesias, vilas e, mais tarde, cidades, nascidas todas do andar dos paulistas (SILVA, 2004, p.97).

Portanto, no período que antecede o desenvolvimento do complexo cafeeiro, já havia em São Paulo um conjunto expressivo de vilas e cidades. Porém, grande parte delas estava concentrada no litoral e na porção leste do estado, uma vez que os planaltos do oeste paulista ainda não haviam sido explorados pelo homem branco. Saes (1981) ressalta que em meados do século XIX, praticamente 80% da população paulista concentrava-se em três regiões: Vale do Paraíba, Mogiana e Região Central. Até mesmo no final do Século XIX grande parte do Oeste Paulista ainda era considerada uma região pouco conhecida pelo homem branco. A Carta da Província de São Paulo, de 1886, por exemplo, apresentava o Oeste Paulista como sertão “pouco conhecido e ocupado pelos indígenas”. Já o mapa da Província de São Paulo organizado pela Societá Promotrice di Immigrazione di San Paolo (figura 2) denominava a grande área do Oeste Paulista como “terras despovoadas”.

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Figura 2 - Mapa da Província de São Paulo, 1886. Extraído do sítio “Mapas antigos, histórias

curiosas”, disponível em http://serqueira.com.br/mapas/index.htm

Além disso, é preciso considerar que grande parte destas vilas se constituía em pequenos povoados, com poucos habitantes. Enquanto a Coroa Portuguesa concentrava suas atenções nos núcleos urbanos maiores, como Salvador, São Paulo, Olinda, entre outros, os centros menores ficavam sob responsabilidade da administração local. Sobre o assunto, Reis Filho (1968, p.118) afirma que:

A política urbanizadora que vigorou até meados do século XVII, como parcela de uma política mais ampla de descentralização, fazendo com que as responsabilidades da urbanização relativas aos centros menores coubessem, quase inteiramente, aos donatários e aos próprios colonos, deveria fazer, igualmente, com que coubessem às Câmaras, como órgãos locais de administração, a totalidade ou a quase totalidade das tarefas de controle dos mecanismos do crescimento urbano. Como consequência, os recursos aplicados nesses centros refletiam a modéstia das possibilidades e das necessidades do meio, constituindo, quase sempre, em medidas de alcance e aplicação muito superficiais. (REIS FILHO, 1968, p.118). Somente a título de exemplo, numa tentativa de forçar o crescimento da vila, “em 1679, o capitão-mor de Iguape obriga os moradores a construírem cada um uma casa na cidade, em vista ‘dos poucos moradores que haviam nella’, sob pena de 10 cruzados” (REIS FILHO, 1968, p.118). Aspectos como este, relativos ao porte desses primeiros

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núcleos, associados às limitações de seus papéis urbanos, é que nos remetem ao questionamento da existência de um processo de urbanização naquele período.

Não se constitui em propósito deste trabalho aprofundar essa discussão. Para esta pesquisa, consideramos importante contextualizar também a origem de algumas cidades no período que antecede o desenvolvimento do complexo cafeeiro, uma vez que em suas gêneses, determinados aspectos tiveram peso importante na configuração da forma urbana atual. Desde o período colonial, elementos importantes da organização espacial destes núcleos, tais como sítio, situação e características dos traçados estavam sendo definidos a partir de determinadas lógicas e interesses, como veremos mais adiante neste capítulo.

Mesmo considerando-se que as cidades e vilas existentes no período colonial fossem menores e menos numerosas, fatores importantes como a definição do sítio para a constituição do povoado, bem como a construção dos primeiros traçados das plantas remontam ao período colonial, quando determinadas lógicas e interesses predominavam. É a partir desses aspectos que pretendemos considerar na análise a forma urbana das cidades cuja história remonta ao período colonial.

Porém, avaliamos que o desenvolvimento e a expansão cafeeira a partir do Século XIX provocaram mudanças importantes, principalmente por meio da divisão territorial do trabalho e a associação entre urbanização e industrialização no âmbito do modo capitalista de produção. A expansão da economia cafeeira proporcionou a apropriação do território paulista em bases capitalistas, o que levou à constituição de uma formação socioespacial “que, baseada na agricultura, gerou a industrialização e a estruturação de uma rede urbana com cidades de diferentes portes, em uma complexa divisão territorial do trabalho entre a cidade e o campo, e entre as cidades” (SPOSITO, 2004). Tais mudanças passaram a intensificar a constituição de novas cidades, bem como a consolidação das já existentes, com impactos diretos em suas formas e estruturas.