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At some stage, NORA had envisaged that there would be a joint NORA/CMI mision to Bangladesh to appraie the project, but the perspectives of NORA and

A construção de diques para proteger as terras da fazenda São João das cheias se constitui como uma das maiores tragédias socioambientais do Pantanal de Poconé. Com o intuito de preparar a área para plantação e criação de gado, mas temendo os efeitos das águas pantaneiras, os donos da fazenda – o grupo Camargo Corrêa – mandaram construir, com o aval do governo militar, diques no entorno da propriedade, alterando o curso do rio Cuiabá. Ninguém sabe ao certo quantos quilômetros de aterros foram erguidos. Os pantaneiros que

participaram desta pesquisa comentam que entre 60 e 450 quilômetros de aterros foram erguidos ali. Essa incerteza deve-se ao fato de a fazenda ter sido, desde sempre, muito bem protegida, sendo o acesso a terminantemente proibido. Para entrar no local, somente com autorização especial da Camargo Corrêa, cuja sede fica em outro Estado. Porém, quando solicitados, os pedidos dessa natureza são invariavelmente negados.

Ainda que não se saiba as dimensões exatas desses diques, eles pairam no cotidiano do Pantanal de Poconé como cicatrizes secretas, que precisam ser escondidas para sempre. A sua construção alterou o ciclo das águas, fazendo com que as propriedades rurais das imediações inundassem, causando enormes prejuízos aos pantaneiros. Esses, por sua vez, se organizaram para tentar negociar a abertura dos diques com a Camargo Corrêa, sem nunca chegar a uma solução. Em uma dessas tentativas de negociação, um dos líderes do movimento dos pantaneiros atingidos pela construção dos diques disse ao diretor da fazenda São João: “O Pantanal é água. Se você não quer água vai para a Serra de São Vicente. O Pantanal precisa de água; o pantaneiro se prepara para passar seis meses dentro d’água” (Alberto, diário de campo de pesquisa).

Sem outra alternativa, os moradores se reuniram e munidos de pás e picaretas tentaram romper os diques para permitir com que água fluísse pelos campos. Não adiantou: os que viviam no entorno da fazenda São João perderam suas casas, os animais morreram afogados. Diante do cenário de destruição, foram forçados a abandonar suas propriedades, migrando para a cidade.55

55 Esse evento teve repercussão em diversas mídias regionais e nacionais. Várias

versões sobre o assunto podem ser lidas. Em reportagem especial intitula “Preocupação com povos indígenas e ecologia”, o jornal Diário de Cuiabá afirma que, em 1972, uniu-se aos pantaneiros de Poconé para denunciar a construção de diques na fazenda São João. Acrescenta que “[...] os diques foram construídos e milhares de hectares, antes utilizados pelos pantaneiros, foram inundados, num dos maiores desastres ao meio ambiente do Pantanal (DIÁRIO DE CUIABÁ, [s.d.]). A revista Veja, em matéria publicada na sessão “Ambiente”, afirma, na reportagem “Uma ferida no verde”, que a fazenda São João, ao tentar transformar a propriedade num modelo de pecuária industrial, cercou o local com diques, controlando assim a entrada e a saída das águas. Porém, o projeto fracassou, e, na primeira cheia, a água inundou as regiões vizinhas. A revista também afirma que, após a consultoria de especialistas em ecologia, os proprietários da fazenda desistiram do projeto ambicioso. Um funcionário responsável pelo local admite que “[...] cometeram erros graves no local [...]”, porém tentam “corrigi-los”. Por fim, a matéria afirma que, à época da reportagem, a São João encontrava-se praticamente abandonada (VEJA, 1999). Em trabalhos acadêmico-científicos, encontrei uma breve descrição na obra de Campos Filho (1995), que relaciona a construção dos diques ao Prodepan. Registre-se que o

5.3.2 A Construção da Estrada-Parque Rodovia Transpantaneira

A Transpantaneira também se constitui como uma das maiores intervenções cenário do Pantanal de Poconé. É possível dizer que ela é ambígua, já que uma parcela da população se considera beneficiada por ela, enquanto outra entende que se trata de uma tragédia ambiental.

A construção dessa estrada implicou negociações, discursos, acordos, laudos ambientais. Uma parte dos pantaneiros precisava da rodovia para tornar a mobilidade dos povos tradicionais independente do ciclo de cheias, período em viviam ilhados pelas águas. Reivindicavam o direito de ir e vir do Pantanal para outras regiões quando quisessem, e não apenas quando as águas baixassem. De fato, essa dinâmica das águas impunha arranjos sociais complexos. Muitas vezes, as esposas dos homens que viviam/trabalhavam nos pantanais ficavam na cidade, acompanhando os filhos em idade escolar, separação que provocava extremo sofrimento. Munidos de argumentos como esses, os pantaneiros conseguiram, enfim, a aprovação do projeto da Transpantaneira na Assembleia Legislativa de Mato Grosso. A sessão que marcou essa conquista registrou um inflamado discurso sobre as dificuldades de mobilidade nos pantanais, que durou três horas.

Além da população de poconeana, o projeto que interessava também a políticos que tinham fazendas em outros pantanais. Por isso, inicialmente, a rodovia que interligaria Cuiabá até Corumbá passaria pela fazenda de um deputado, via município de Santo Antônio de Leverger, desviando de Poconé. Para tentar contornar esses interesses políticos, que desconsideravam as necessidades dos povos pantaneiros de Poconé, a população local organizou uma cooperativa. Ela era administrada por Alberto, por meio de um escritório dividido em dois blocos de interesses: um representava os moradores do baixo Pantanal e o outro, os do alto Pantanal. Entretanto, brigas políticas entre os cooperados forçaram Alberto e sua família a se desligarem da cooperativa.

As dificuldades persistiram, sobretudo porque o governo mato-grossense impôs diversos obstáculos para a construção da Transpantaneira. Vários laudos foram solicitados para autorizar a obra; porém, em razão da sua complexidade, eles eram inviáveis para as condições dos pantaneiros poconeanos, que entenderam que essa era, na verdade, uma

pequeno volume de informações públicas sobre os diques da fazenda São João no

Pantanal de Poconé é incompatível com a gravidade dos seus efeitos sobre a região e sobre os povos pantaneiros.

estratégia do governo estadual para inviabilizar a construção da estrada-parque via Poconé. Após meses de acirradas disputas políticas, enfim os poconeanos conseguiram a autorização.

A Transpantaneira foi construída por muitas pessoas, com o apoio de caminhões, cascalhos, picaretas. Entre as que ajudaram a erguer a estrada estava Lucrécio, marido de Joana, já falecido. Na ocasião, ela estava grávida, o que não a impediu de acampar à beira da rodovia para ficar perto do marido, decisão que quase culminou no nascimento do seu primeiro filho ali mesmo. Para Joana, por um lado, a Transpantaneira facilitou a locomoção pela região – ela conta que, hoje, a viagem entre a sua antiga fazenda e a cidade demora um dia. Ela também frisa seu ponto de vista ecológico sobre a rodovia: Joana integra o grupo de moradores que não aceita asfaltar a Transpantaneira, apoiada no argumento de que é preciso proteger os animais.

No entanto, segundo fontes orais, registradas no diário de campo em conversas cotidianas, a construção da rodovia foi uma interferência desastrosa no Pantanal. O projeto foi interrompido na metade do caminho, à beira do rio Cuiabá, quando se verificou que as máquinas não conseguiriam executar as obras devido ao ciclo de cheias. Como ninguém sabia ao certo o curso das águas, parte da estrada já construída era levada pelas correntezas. Ao que tudo indica, os conhecimentos técnicos sobre os ciclos das águas na região não foram suficientes para projetar uma rodovia que cortasse o Pantanal. O projeto inicial calculou a elevação da estrada com base no nível das cheias ocorridas nos vinte anos anteriores à sua construção. Porém, diante dos estragos causados pelas águas, perceberam o erro de cálculo.56

5.3.3 A Construção de Aterros sem Planejamento

Embora os diques da fazenda São João e a rodovia Transpantaneira sejam tecnicamente aterros, neste tópico queremos tratar dos outros tipos que têm intervido e afetado a região: os aterros que interligam as fazendas à Transpantaneira e/ou realizam a comunicação entre as propriedades rurais e as cidades.

Durante a implantação do Prodepan e a construção da rodovia, os proprietários de terras e os novos investidores viram na região a possibilidade de fazer fortuna com a criação

56 Kmitta (2013) observa que a utopia da modernização presente no imaginário dos

grandes proprietários de terras da região, que almejavam o progresso pantaneiro, propiciou grandes transformações na cultura e na natureza. Integrar o território à modernidade implicava a construção de estradas que encontraram nas condições climáticas e geográficas locais obstáculos que conduziram os projetos ao fracasso.

de gado. Afinal, uma vez realizadas as obras de mobilidade, o escoamento da produção de carne poderia sair da região por meio de caminhões, tornando o trajeto até o Porto de Santos mais rápido e barato, se comparado com o método tradicional, por comitivas de boiadeiros.

Decorre dessa lógica a construção de aterros sem planejamento por parte de fazendeiros locais e de pessoas “de fora”, que passaram a comprar terras pantaneiras para transformá-las em fazendas, estimuladas, sobretudo, pelo baixo custo do hectare, em função dos pantanais serem territórios inundáveis, o que torna o manejo restrito aos períodos de seca. Se, por um lado, os aterros permitiram comodidades aos pantaneiros para se locomoverem entre o cenário rural e o urbano, por outro, as intervenções serviram como barreira às águas, alterando a sua fluidez.

Não raro, ao longo desta investigação, foram narradas histórias sobre os aterros das fazendas que eram levados pelas correntezas, sinal de que a natureza, a despeito dessas intervenções, seguiu indomada pelo ser humano. Nessa luta entre os aterros que impedem a água de seguir seu trajeto natural, às vezes impondo novo ritmo e caminho às águas, os efeitos dessas ações são sentidos pelos povos pantaneiros e pela própria natureza.

5.3.4 Os Efeitos das Intervenções Socioambientais: a Perspectiva dos Povos Pantaneiros

A construção dos diques na fazenda São João, da estrada-parque Transpantaneira e dos aterros sem planejamento alterou o ciclo de cheias nos pantanais ou potencializou a ação das águas.

Para aqueles que viviam próximo à fazenda os efeitos foram nefastos. Impedida de passar pela São João, a água adentrou pelos campos, abrindo aterros e destruindo as propriedades do entorno da propriedade. E, como os diques não permitiam que as águas fluíssem naturalmente pelos campos, elas acabavam represadas, inundando as sedes de outras fazendas.

Após as intervenções socioambientais, as áreas de inundação foram ampliadas e as cheias se tornaram mais intensas. Caetano relata: “Antes do aterro feito em volta da fazenda São João, não era necessário retirar o gado das fazendas daquelas regiões; bastava deslocá- los para as cordilheiras”.

As cheias de 1974 e 1995 foram intensas, assim como seus efeitos sobre a vida da população. As cheias de 1974 foram marcadas por tragédias, como o naufrágio do navio da Marinha nas profundas águas do rio Cuiabá. Um momento de forte emoção foi o relato de Caetano e Beatriz sobre a perda de uma filha de 3 anos de idade nesse episódio. Segundo eles,

durante as cheias daquele ano, a Marinha57 foi designada para resgatar os povos tradicionais das regiões inundadas e vaciná-las contra tifo. No primeiro contato com os marinheiros, o casal resistiu a embarcar no navio mercante, porque possuía um barco e, assim, não fazia sentido sair dali naquele momento. Todavia, após a terceira tentativa da Marinha, os três embarcaram. Assim que o barco iniciou sua navegação, notaram que um dos compartimentos ficara aberto. A água invadiu rapidamente a embarcação, que afundou em seguida. Entre as sete vítimas fatais do naufrágio estava a filha caçula de Caetano e Beatriz.

Ao fazer esse relato, ela, de forma espontânea, entrou na sala em busca de registros da filha. Minutos depois Beatriz voltou com uma fotografia na mão. Emocionada, apresentou a menina para mim. O casal demonstrou arrependimento por ter embarcado naquele navio. Após o falecimento da menina, Caetano e Beatriz não conseguiram mais viver no local, uma fazenda na região de Porto São José. Então, compraram outra propriedade mais próxima da cidade, mas ainda na região pantaneira, a fazenda Rio de Janeiro.

Nesse mesmo barco da Marinha também estavam os pais e os irmãos de Taís, igualmente vitimados no naufrágio.

Inundando toda a região, as cheias de 1974 destruíram algumas casas da fazenda de Anita e Oscar, ficando só o telhado fora d’água. De forma semelhante, seus vizinhos também perderam quase tudo. As aguas também arrastaram muitos animais. Conta Rui: “[...] foi muita água, muita água, morreram muitos animais” (diário de campo de pesquisa).

As cheias de 1995 também foram intensas e marcaram a vida dos povos pantaneiros. Durante nossa conversa, Afonso lembrou-se de alguns registros fotográficos das inundações daquele ano, que mostravam a operação de salvamento do gado e água entrando na residência. Alice, então, foi buscar as fotos, apresentando-me às imagens. Como se tratava de registros

57 A Marinha brasileira tem papel histórico no apoio à população pantaneira. Por

meio do decreto imperial de nº 2762, de 16 de março de 1861, o governo estabeleceu a Capitania dos Portos de Mato Grosso, extinta seis anos depois, em decorrência dos conflitos da Guerra do Paraguai. Seu restabelecimento ocorreu em 1973, na cidade de Ladário (MS). Em 1945, a sede passou a ser em Corumbá. Nesse ínterim, em 1919, por meio da Portaria nº 0621/83, foram criadas as agências de Cuiabá, Cáceres e Porto Murtinho. Mais recentemente, em 1997, a então Capitania dos Portos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (CPMTMS) passou a ser nomeada Capitania Fluvial do Pantanal, sendo as áreas de jurisdição de seus portos regulada pela Portaria nº 0021 (BRASIL, 2000). Segundo a Marinha, “[...] a Capitania Fluvial do Pantanal tem o propósito de contribuir para a orientação, coordenação e controle das atividades relativas à Marinha Mercante e organizações correlatas, no que se refere à segurança da navegação, defesa nacional, salvaguarda da vida humana e prevenção da poluição hídrica.” Disponível em: <https://www.mar.mil.br/cfpn/historico.html>.

aéreos, a cena que mais me impressionou foi a da fazenda totalmente inundada pela água, permanecendo seca apenas a pista de aviação, construída em um aterro mais elevado.

Alice diz: “[...] existem muito mais registros, porém é preciso procurar com calma”. Eu fiquei muito interessado em acessar essas outras imagens, porém acabei não conseguindo, em razão de a família estar sempre muito ocupada e com pouco tempo disponível para novo contato58 (diário de campo de pesquisa).

Tomás recorda-se das cheias de 1995. Naquele ano, em mesmo o aterro de cupim e o assoalho foram capazes de barrar a água, que ultrapassou um metro de altura dentro da casa de seus pais, obrigando a família a bater em retirada. Ele lembra particularmente de uma chuva, que durou doze horas ininterruptas: “A água não parava de subir” (diário de campo de pesquisa). Então, Tomás e a sua mãe foram para a cidade; seu pai resistiu e permaneceu no local. Acostumado com as cheias, ele enfrentou a inundação com a ajuda de jiraus, que elevava conforme o ritmo das águas. Segundo Tomás, “[...] nem que for para dormir pendurado igual a um morcego, meu pai ficava lá.”

As cheias também inundaram a residência de Ezequiel, Taís e Fabrício. Na ocasião, eles moravam à beira do rio Cuiabá e foram obrigados a sair, buscando refúgio em uma casa abandonada, do outro lado do rio. Construída em forma de palafita, ficava em uma elevação de mais de 1 metro do nível da terra, o que a livrou da inundação.59

58 Galdino e Resende (2000) acrescentam que as maiores cheias do século XX

registradas no Pantanal foram: em 1988, quando o rio Paraguai atingiu 6,64 metros, seguida pelas cheias de 1905, com a marca de 6,62 metros e a terceira em 1995, com 6,56 metros. No entanto, ressaltam os autores, as cheias que mais danos causaram à população e à economia pantaneira foram as de 1974. Apesar da régua do rio Paraguai registrar uma média de 5,46 metros, essa cheia pegou a população de surpresa, sendo a média registrada entre 1964 e 1973, de 2,74 metros.

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O Ecologia e Ação (Ecoa) lançou, em 2011, um projeto intitulado “Mapeamento de eventos climáticos extremos no Pantanal, análise de seus efeitos sobre populações vulneráveis, capacitação local e elaboração de propostas mitigatórias”, cujo objetivo é identificar os eventos climáticos extremos e fenômenos naturais associados que afetaram o Pantanal nos últimos cinco anos. Levando em consideração seus efeitos sobre a economia, o meio ambiente e as populações vulneráveis da região, a partir de relatos de pantaneiros e pesquisadores, espera-se desenvolver respostas que amenizem esses efeitos na vida das populações tradicionais e do meio ambiente pantaneiro. Os primeiros resultados deram origem à cartilha “Mudanças climáticas: uma descoberta no Pantanal”, material educativo direcionado às crianças. Nele, o Ecoa chama a atenção para as “[...] possíveis alterações no ciclo de cheia e seca, e também para a possibilidade de ocorrer mais de uma decoada por ano. Decoada é a diminuição do

O relato de Paulo é emblemático da rede heterogênea que apoia as estratégias de prevenção a inundações nos pantanais. No início das cheias de 1995, ele estava sozinho na fazenda do Pantanal de Poconé, quando amigos e familiares começaram a lhe telefonar para avisar que os telejornais anunciavam que a região onde ele estava continuaria a encher. Não demorou muito e a água invadiu sua casa, trazendo com ela os peixes. Paulo tentou elevar o piso com a casa do cupim, mas não adiantou: era muita água. Bastante nervoso, Paulo saiu da casa ao ouvir o barulho de um helicóptero. Tratava-se da aeronave da Marinha designada para resgatar a população ilhada. Paulo acenou para os militares, mas eles não o viram e o helicóptero tomou rumo ignorado. De repente, o porquinho que estava junto dele, em um ato de desespero, nadou em busca de refúgio em outro lugar; esperto, um galo garnisé pulou do galho de uma árvore nas costas do porco, pegando carona. Abandonado pelos animais, Paulo ficou sozinho.