Essa inquietação me levou a pensar a noção de tempo na e para a ecologia que pauta as reflexões do ecologista Marcos Reigota (1998). Segundo ele, essa perspectiva implica uma proposta social, cultural e política, ancorada em princípios científicos que levam em consideração a historicidade das complexas manifestações na relação entre seres vivos (animais e plantas) e as sociedades, em suas variadas formas de expressões culturais.
O autor inspira-se em Benedito Nunes, para quem o tempo é multíplice e plural:
Entretanto, suas várias modalidades não são díspares; embora com alcance diferente, a todas se aplicam as noções de ordem (sucessão, simultaneidade), duração e direção, que recobrem, em vez de uma identidade, relações variáveis entre acontecimentos, ora com o apoio nos estados do mundo físico, ora nos estados vividos, ora na enunciação linguística, nas condições objetivas da cultura, nas visões de mundo e no desenvolvimento social e histórico (NUNES, 1995, apud REIGOTA, 1998, p. 23).
Sob essa noção, Reigota envereda pelas dimensões de tempo nas ciências, nas artes e no cotidiano, perspectivas que influenciam a ecologia. Nas ciências as reflexões sobre o tempo são exemplificadas a partir da biologia, da física e das ciências humanas. Na dimensão biológica, por exemplo, o tempo é pensado em relação à historicidade da evolução das espécies, à regulação da atmosfera da terra e aos períodos geológicos. Trata-se de um tempo longo, que transcende a imaginação humana. Fala-se em 10 mil anos atrás, 7 milhões de anos, 1,5 bilhões de anos atrás. Outrossim, a perspectiva biológica também trabalha com noções de tempo mais curto, por exemplo, o “ciclo da vida”: gestação de animais e germinação de vegetais. Trata-se do tempo da espera e da certeza, presentes no cotidiano, que “[...] contribuem para a criação de repertórios discursivos, ditados populares, expressões artísticas e convivência com a concretude do tempo abstrato” (REIGOTA, 1998, p. 78).
Já no campo da física, o tempo está presente nas discussões sobre o surgimento do universo – por exemplo, o “Big Bang”, ocorrido há aproximadamente 15 bilhões de anos; na
teoria da relatividade de Einstein; na teoria da mecânica quântica. O debate nessa área aponta para uma dimensão de tempo relacionada à realidade. Nesse caso, argumenta Reigota (1998), negar o tempo seria negar a própria realidade.
Nas ciências humanas, o autor aponta para a noção de tempo da memória, citando o exemplo dos estudos de Jean Piaget (1896-1980). Por meio de entrevistas, Piaget perguntava a crianças quem tinha nascido antes: o pai, a mãe ou o(a) irmão(ã) do(a) entrevistado(a). A pesquisa concluiu que
[...] há ausência de significação para a criança, da sucessão temporal em caso de não coincidência espacial dos pontos de partida e ou de chegada. Daí se depreendendo o fato de que quando as crianças respondem “não sei” à questão da sucessão dos nascimentos elas estejam enunciando realmente uma verdade: o problema não poderia ter nenhum sentido para elas. Quanto àqueles que se atribuem anteriormente, esses sujeitos sublinham uma outra verdade: é que o tempo para eles, do seu próprio ponto de vista, só tem começo com o começo de sua própria memória, não existindo para eles, antes do seu próprio nascimento, nem irmãos mais velhos nem pais (PIAGET, 1946, apud REIGOTA, 1998, p. 233).
Os estudos sobre o tempo nas ciências naturais contribuíram para o desenvolvimento de reflexões em ciências humanas, sobretudo no que concerne à análise das sociedades contemporâneas e pós-modernas. Na modernidade, o tempo assumiu o papel de regular as relações sociais, organizando a produção laboral nas fábricas. Nesse sentido, trata-se de um tempo único, a ser seguido por todos os trabalhadores. Com a conquista de autonomia dos homens e mulheres na pós-modernidade, o tempo foi se fragmentando, se esfacelando, tornando possível novos arranjos coletivos e individuais, que produzem singularidades. Assim, pondera o autor, o tempo dos movimentos, dos caminhos e das trilhas seguidas pela sociedade pós-moderna tornou-se caótico.
Marcos Reigota (1998) também discute o tempo na dimensão das artes: na música, nas artes plásticas, no cinema, na literatura. No tempo musical o rítmo é ditado pelos instrumentos – ouvir jazz, por exemplo, é como se entregar ao tempo, deixar-se levar pelas batidas que se abrem à imaginação. Nas artes plásticas, o tempo se aproxima da filosofia e das leis de percepção, porém é a relação entre as pessoas e o mundo que melhor caracteriza o tempo na obra de arte. As pessoas deixam de contemplá-la de forma estática e se envolvem numa relação unívoca com o tempo da obra. Já o cinema nos remete novamente ao tempo longo. Por meio de cenários futuristas, de produções de ficção científica, somos projetados a viver num futuro improvável, cujas formas de vida são artificiais.
Na literatura, Reigota (1998) se inspira em Jorge Luis Borges, autor de Nova refutação do tempo (1999), para discutir a dimensão subjetiva do tempo, “[...] através da concretude da existência individual” (p. 82). Nesse sentido, diz, a compreensão do tempo fica limitada à qualidade da “[...] compreensão individual da própria existência e das relações que o indivíduo recebe como dado e estabelece com o seu meio ambiente, concreto e subjetivo, próximo e distante de si” (REIGOTA, 1998, p. 82).
No cotidiano, o tempo é pensado na esfera da globalização, na qual diversas noções são utilizadas, uma vez que o tempo não tem seu sentido atrelado à universalidade. Temos, então, o tempo virtual, o psicológico, as divagações filosóficas e o tempo da eternidade. No tempo virtual, presente após o advento da televisão, os acontecimentos passaram a ser conectados e transmitidos em espaços e tempos concatenados, em um contexto polifônico e polissêmico:
Em poucos minutos, qualquer telespectador “viaja” ao redor do mundo, indo dos conflitos na África aos de Los Angeles; de uma recepção ao imperador japonês, aos gols da rodada do campeonato espanhol de futebol; de mais uma denúncia de corrupção em Brasília ao novo prêmio dado a um filme de cineasta iraniano; a uma nova pirataria na floresta amazônica etc... (REIGOTA, 1998, p. 83).
Novamente, o autor ancora-se em Nunes para, desta vez, descrever o tempo psicológico, uma sucessão de nossos tempos internos em relação às medidas temporais objetivas, cuja imprecisão varia de pessoa para pessoa. Reigota (1998) exemplifica esse tempo citando a experiência de praticar uma hora de caminhada em um parque. Para uns, essa atividade pode ser vivida intensamente ao ponto de parecer que o tempo passou em cinco minutos; para outros, essa uma hora pode parecer significativamente mais longa, se a atividade for marcada por momentos de desprazer. A despeito disso, o tempo psicológico ganha voz em expressões cotidianas, tais como: “[...] podemos ‘matar o tempo’, quando nos dedicamos a momentos de prazer e satisfação pessoal, de lazer ou de descanso, sem cairmos na racionalidade e no previsível do tempo dedicado a isso, as famosas férias” (REIGOTA, 1998, p. 83).
A noção de tempo também se abre, segundo ao autor, para divagações filosóficas de ordem ingênua – “quem espera sempre alcança”; conformista – “dar tempo ao tempo”; de caráter duvidoso – “o tempo é o senhor da razão”; e, por fim, como recurso banal –“vamos falar de tempo?”
A noção de tempo como eternidade está relacionada à tradição religiosa. Nessa dimensão, é apenas o tempo de passagem pela terra, pois as pessoas acreditam que a “verdadeira” vida está por vir, em outra dimensão temporal, no encontro com o poder divino. Por conseguinte, os problemas sociais, econômicos, políticos e ecológicos também são tomados como questões passageiras (REIGOTA, 1998).
Nesse ponto, o autor nos conduz a pensar o tempo da ecologia. Nessa dimensão, acentua Reigota, ecologistas divagam sobre o tempo voltado ao passado, ao presente e ao futuro. Pensar no passado é voltar ao tempo mítico e idealizado, imaginando que nele havia melhor qualidade de vida; desprezam-se as conquistas atuais em defesa de um estilo de vida mais “natural”. São ecologistas que nasceram nos grandes centros urbanos, que defendem a retomada da vida no campo, onde se espera viver de maneira mais “tranquila”. Trabalhando ancorados no presente, eles possuem práticas questionadoras de modelos sociais, políticos, econômicos e culturais consolidados ou a conquistar. Há, também, os ecologistas que creem no futuro: são os otimistas, os esperançosos, os utópicos. Acreditam que a vida no planeta continuará e poderá ser “ecologicamente correta”. Porém, sinaliza Reigota (1998), a sua grande preocupação, o medo das ameaças bélicas, é muitas vezes esquecida por seus pares. Os ecologistas esperançosos têm como principal bandeira o documento intitulado Agenda 21, uma proposta de guia para a sobrevivência da espécie, gestado na década de 90 do século passado.54
Além disso, os ecologistas incorporaram a noção de desenvolvimento sustentável. Reigota (1998) argumenta que essa concepção implica responsabilidade com o futuro, na medida em que força a humanidade a assumir um compromisso ético e ecológico com as gerações futuras. Não obstante, a noção de desenvolvimento sustentável é apropriada pela área dos negócios, por exemplo, pela companhia multinacional Asea Brown Boveri (ABB), umas das maiores consumidoras de recursos naturais renováveis do mundo. Por meio de campanha publicitária publicada na revista Time, em julho de 1995, ela tentava persuadir o consumidor a comprar seus produtos de tecnologia de energia e automoção, os quais
54 A Agenda 21 Global é um plano de ações com metas para a melhoria das condições
ambientais do planeta e desenvolvimento sustentável, assinado por 179 países, no âmbito da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em junho de 1992, na cidade do Rio de Janeiro, que ficou
conhecida como ECO-92 ou Rio-92. Disponível em:
<http://www.senado.gov.br/noticias/Jornal/emdiscussao/rio20/a-
rio20/conferencia-rio-92-sobre-o-meio-ambiente-do-planeta-desenvolvimento- sustentavel-dos-paises.aspx>.
garantiriam as fontes de energias no futuro, preservando a terra para os filhos e netos de seus clientes.
Entretanto, o autor acentua, os principais desafios da ecologia estão no tempo presente, pois seria ele o principal motivo de preocupação, uma vez que as transformações globais no âmbito político, econômico e social têm reconfigurado novas práticas sociais, nova geografia espacial e novas cartografias simbólicas. Ancorado em Nilza Vilhaça (1996), Reigota argumenta de forma radical que somente no tempo presente é possível desconstruir a ideia de natureza como ordem e transcendência, questionar e vivenciar os limites entre o avanço da ciência e a proteção da vida.
De qualquer maneira, acrescenta o autor, o tempo da ecologia não pode ser delimitado às dimensões de passado, presente e futuro, uma vez que inclui sempre elementos inseparáveis e complementares.
Nele a imprecisão, o inusitado, o improvisado, o fragmento, o instável, e o caótico do instante, não pode ser indissociado da imensidão do tempo histórico, geológico e biológico, e das dúvidas e questionamentos sobre as possibilidades do porvir (REIGOTA, 1998, p. 86).
É necessário também levar em consideração o tempo “rítmico” das sociedades contemporâneas, acentua o autor.
Essas dimensões do tempo conceituadas por Reigota nos permitem pensar a fragmentação das “identidades” pantaneiras, de suas práticas tradicionais, de seus valores, de seus espaços. Entre o antigamente e o atualmente parece haver pequenas fissuras, cujo tamanho é impossível mensurar; em que às vezes as práticas do passado, presente e futuro se misturam, outras, se apagam, sinalizando transformações no cenário dos pantanais. Nessa perspectiva, esclareço desde logo, as expressões antigamente e atualmente empregadas pelos povos pantaneiros, neste texto, não se configuram na tão temida imprecisão conceitual ou terminológica na escrita acadêmica e científica. Pelo contrário, permitem questionar versões cristalizadas, neutras, sobre os acontecimentos, a favor de uma proposta de investigação que se abre para a processualidade das ações de novos atores na rede heterogênea pantaneira.
5.2 DO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO DOS PANTANAIS