Por meio dos sinais apresentados no tópico anterior a população local sabe que os pantanais irão encher. De posse dessas informações, então, começam a se preparar para a chegada das águas. Trata-se de um evento cíclico, previsível, embora não se saiba o nível que as águas irão atingir. Espera-se que ele seja próximo à vivenciada anualmente por eles, expectativa que auxilia o planejamento da população. No entanto, ao longo dos anos anteriores à realização desta investigação foram registradas grandes cheias, como a de 1974 e a de 1995, que produziram situações de emergência. Falamos sobre elas no próximo capítulo.
Neste tópico, descrevo as associações entre os diversos atores na preparação para as cheias. Quero contar as histórias de preparação dos animais domésticos, da moradia e da própria população. A ordem dessas narrativas está relacionada à dinâmica pantaneira. Primeiro, ocorre a preparação dos animais de grande porte, sobretudo do gado, que é deslocado para outras regiões, atividade que demanda maior tempo de execução. Segundo, preparam a casa, e, finalmente, dependendo do nível da água, desenvolvem estratégias voltadas aos próprios moradores.
Os animais domésticos estão divididos em dois grandes grupos: os de grande porte, como o gado e os cavalos; e os de médio e pequeno porte, como porcos e galinhas. Os primeiros são deslocados para regiões menos suscetíveis às inundações, dentro ou fora da planície pantaneira. Por muito tempo esse deslocamento da boiada foi feito somente por comitivas de boiadeiros, que demandava semanas. Montados a cavalo, os peões tocavam os animais por estradas e atravessavam rios e corixos. Às vezes, parte da boiada se perdia ou era levada pelas correntezas; outras, os animais feridos eram devorados por piranhas. A crise econômica na região diminuiu a produção bovina e a rede de estradas foi ampliada, facilitando esse deslocamento. Assim, o transporte passou a ser feito por caminhões boiadeiros, reduzindo o tempo de percurso.
O gado transportado para fora da região pantaneira é instalado em fazendas arrendadas ou em propriedades dos próprios moradores. Afonso conta: “Boa parte dos pantaneiros e fazendeiros possui duas fazendas, uma dentro e a outra fora do Pantanal”. Em seu caso, antes da inundação, o gado é retirado da fazenda no Pantanal e transportado para propriedades rurais arrendadas localizadas no planalto. O gado que permanece no território pantaneiro é transportado para unidades de paisagens – pequenas porções de terras que recebem nomes variados, por exemplo, retiro ou aterro. Oscar explica que retiro é uma porção de terra mais alta, onde é possível aos animais sobreviverem às cheias.
Para a proteção de animais domésticos de médio e pequeno porte são construídos jiraus de madeira. Um suporte suspenso feito com vigota e colocado no quintal da casa. Ulisses conta que o jirau onde ficam as galinhas é interligado à casa por meio de uma passarela suspensa, também confeccionada em madeira.
As casas são erguidas sobre unidades de paisagens ou às margens dos rios em terreno de planície. Os(as) pantaneiros(as) que vivem em locais distantes dos rios, conhecedores do ciclo de cheias, constroem as casas sobre aterros de barro ou nos aterros dos índios. Esses aterros são formações naturais e ajudam a mitigar os efeitos das águas. Alice explica: “A água não costuma entrar na sede da fazenda, porque ela foi construída em uma região mais alta, no aterro dos índios.”47 Além disso, como estratégia para reduzir os prejuízos financeiros,
durante as cheias os(as) fazendeiros(as) retiram os arames das cercas para que não enferrujem. Depois que as águas baixam, eles recolocam esses arames, que servem de divisórias entre as fazendas.48
As casas localizadas à beira do rio Cuiabá requerem uma preparação maior, pois são áreas onde dificilmente encontram-se unidades de paisagens elevadas. Nesse caso, primeiro é necessário preparar o solo para depois iniciar a construção da moradia. Aterros de barro ou da mistura de barro e cupim são feitos em alturas variadas. Sobre esses aterros são construídas as moradias. Taís, Ezequiel e Fabrício contam que recolhem casas de cupins no campo, com essa finalidade. Atrás da casa de Taís e Ezequiel foi possível registrar diversas casas de cupim semelhantes às usadas durante as cheias.
47 O historiador e arqueólogo Jorge Eremites de Oliveira (2004) acrescenta que os
aterros dos índios são elevações no terreno, podendo ser totais ou parciais, feitas pelos indígenas, de modo geral em formato subcircular. Na composição dos aterros podemos encontrar restos de alimentação humana (conchas de caramujos, ossos de peixes) e componentes variados (pontas de flechas feitas de ossos, fragmentos de vasilhas cerâmicas). Em casos específicos foram encontrados esqueletos humanos. (Nos campos de savana, características do território de Poconé, Barão de Melgaço e Nossa Senhora de Livramento), os aterros são formados por ilhas de vegetação. No entanto, nem por isso sua construção se deu de forma simples. Ela foi baseada em conhecimentos arquitetônicos complexos e na organização do trabalho social. Somam-se a essas questões relações de poder, fatores ideológicos e táticas de territorialidade. Os registros históricos indicam que os últimos índios a construírem aterros nos pantanais foram os guatós, que viveram nesses montículos entre a primeira metade do século XX e a década de 1970.
48 Campos Filho (2002) observa que em áreas de inundação a durabilidade do arame
se reduz em dois ou três anos, pois enferruja, sendo necessária sua troca, gerando um gasto adicional à produção de gado.
Figura 20: Casas de cupim, Pantanal de Barão de Melgaço.
Foto: George M. De Luiz, 2013
A casa do cupim é quebrada e misturada ao barro para construir ou reforçar o aterro já existente sob e em volta da casa. Uma parte dessa mistura é reservada para ser usada caso a água extrapole o limite esperado. No caso de Taís e Ezequiel, ela fica guardada próxima à porta da cozinha. Se houver necessidade, novas camadas são colocadas ao redor e no piso interior da residência. Em alguns casos, a exemplo de Ezequiel e Taís, planta-se grama em volta da casa para diminuir o ritmo da correnteza do rio que, ao transbordar, segue em direção ao campo. As gramas amenizam o rompimento do aterro e, consequentemente, a inundação da casa.49
49 Mercante e Santos (2009) acrescentam outras práticas rudimentares à preparação
para as cheias: por meio da plantação de bambuzais na beira do rio e de intervenções estruturais, como o empilhamento de sacos de areia no chamado terraço fluvial, planícies de inundação moldadas pela erosão fluvial.
Figura 21: Aterro em volta da casa, Pantanal de Barão de Melgaço.
Foto: George M. De Luiz, 2013
Os móveis das casas também recebem atenção especial por parte dos moradores, que, diante da possibilidade de inundação, adotam algumas estratégias. Entre elas, é comum a instalação do fogão à altura em que a água não o alcance. Para os demais móveis, são providenciados jiraus de madeira. Distribuídos pelos cômodos da casa, eles servem de suporte para os móveis e são elevados conforme a dinâmica das águas.
No que se refere aos moradores, uma parte fica nas moradias da região pantaneira, outra migra para as unidades de paisagem dentro dos pantanais, enquanto um terceiro grupo migra para a cidade. Entre aqueles que permanecem nas casas pantaneiras é comum o uso de jiraus ou assoalhos. Geovane detalha: “Nós [ele e Isis] cortamos pedaços de madeiras e deixamos ao lado da casa. Se a água invadir a casa, nós construímos jiraus para ficarmos”. No caso de Zacarias, quando ele permanecia no Pantanal, madeiras eram retiradas do curral para a construção de assoalhos. Certa feita, ele acordou e o assoalho estava boiando, sendo necessário elevá-lo à medida do movimento das águas.
O segundo grupo migra para unidades de paisagens nomeadas por eles de “firme” (também chamadas de cordilheiras). Eder conta que quando a água invade a sua casa ele muda-se para o “firme”. Pergunto o que é “firme”? Ele responde: “[...] é uma região mais elevada onde não alaga. Justamente onde os animais costumam se proteger das águas”. Zacarias lembra-se das cheias de 1974, época em que seu pai levou a família para as cordilheiras. Ao narrar sua história, diz que adora o Pantanal, mas ressalva que a vida na região não é fácil. Muitas pessoas compram fazendas na época da seca, porém vendem após a primeira cheia: “Pantanal é para o pantaneiro. Quem não é de lá não aguenta. Somente quem cria e vive lá consegue entender a vida no Pantanal”.
experiências durante as cheias de 1995. No pico das cheias, conta, as residências submergiram nas águas, forçando os moradores a migrarem para outras localidades. Sua família foi para a casa de parentes no retiro, na região de São Pedro de Joselândia, onde também chegaram as águas, porém em menor volume. O tempo de percurso entre a casa da família de Laura e o retiro variava de duas a três horas de barco. Quando as águas baixaram a família voltou para Porto Biguazal. Ela cedeu-me uma imagem do deslocamento de sua família para a região do retiro nas cheias de 2012.
Figura 22: Barco da família de Laura, Pantanal de Barão de Melgaço.
Arquivo pessoal de Laura, 2012
O terceiro grupo de moradores migra para a cidade. Entre esses, há aqueles que migram porque vivem da produção de gado, e o custo do deslocamento dos animais para fazendas na região de planalto torna inviável a manutenção de duas propriedades rurais ao mesmo tempo. Diz Bento:
[...] durante as cheias, a nossa fazenda no Pantanal fica isolada e sem moradores, pois não compensa financeiramente manter duas propriedades rurais funcionando ao mesmo tempo (diário de campo de pesquisa).
Temos, então, que parte da população pantaneira possui casa própria ou de parentes na cidade, que funciona como apoio aos moradores durante o período de cheias. Seja pela inviabilidade do trabalho ou por não querer enfrentar as dificuldades impostas pelo ciclo das cheias, muitas pessoas optam por passar esse período no cenário urbano. No entanto, há um grupo de pessoas que afirmam que ser pantaneiro(a) implica enfrentar também o ciclo de cheias. As que saem da área inundada têm versões distintas para deixar a região. Segundo elas, mediante as facilidades de comunicação e transporte na atualidade, não faz mais sentido sofrer permanecendo nos pantanais nas cheias.
Como dito anteriormente, é impossível contar todas as histórias. Por isso, para narrar as experiências vivenciadas pela população pantaneira durante as inundações elejo três temas: os partos, a moradia e o transporte.