2.1 Bidrag til å nå hovedmålet
2.1.2 Støttende analyser og evalueringer
Com base nessa concepção de modernidade, pautada no ideal iluminista contraposto à modernização racionalista, é que selecionamos as categorias a serem utilizadas na análise das percepções dos sujeitos, com relação às transformações nas atividades que desenvolviam e que desenvolvem atualmente:
A adoção da teoria crítica, de Adorno & Horkheimer, e da psicanálise, de Freud, como bases teóricas, dão suporte à tese inicial de que a modernidade, movimento decorrente do esclarecimento, assume a forma atual de progresso geral e crescente de dominação, que orienta a relação entre os homens e entre esses e a natureza, na constituição da totalidade e da subjetividade. Com as contribuições dessas teorias, conduzimos a interpretação dos dados obtidos, de modo a submetê-los ao exame dos modos pelos quais tal processo se desenvolve nessa relação, por meio de quatro categorias:
1. Esclarecimento
2. Barbárie e civilização 3. Ética e razão instrumental 4. Autonomia e heteronomia
1ª Esclarecimento: refere-se aos mecanismos de regulação auto e heterodirigidas, nos sujeitos, resultando do processo de emancipação da razão que
demonstra como o conhecimento estabelece a forma de apreensão e de relação com a realidade, traduzidas nas relações mantidas entre os homens e entre estes e a natureza.
2ª. Barbárie e civilização: trata das relações pautadas na violência física primitiva, desvinculada de objetivos racionais, em confronto com ações que tenham claros objetivos de geração de condições humanas. Refere-se, no caso presente, aos modos de vida dos amazônidas, observados esses últimos a partir de suas perspectivas sobre as relações anteriores e atuais instituídas (na família, no trabalho, no conhecimento) e capazes de identificar diferentes relações de dominação e exploração, ou seja, relações de poder.
3ª. Ética e razão instrumental: reporta-se aos padrões ético-morais, atuais e anteriores, que norteiam o agir dos sujeitos, evidenciam os princípios e finalidades desse agir e afetam a percepção de sua identidade e suas relações de alteridade.
4ª. Autonomia e heteronomia: essa categoria se refere à percepção das condições que favorecem ou dificultam, nos sujeitos, a liberdade para seu desenvolvimento intelectual, econômico e político, como conseqüência das transformações operadas nas condições de vida dos mesmos.
Já que a modernização se efetiva no e pelo processo civilizatório, que se configura nas relações entre sujeitos e entre esses e a natureza, obtendo como resultado a cultura constituída nessas relações, selecionamos as categorias acima, que auxiliarão nosso trabalho de compreensão e interpretação das percepções reveladas pelos sujeitos dessa pesquisa. Percepções essas que se organizam a partir da realidade e que, ainda que sejam consideradas concretas, não são imediatamente percebidas como determinismo. A contribuição obtida por meio da revelação dos dados está em identificar nos relatos
apresentados, as possíveis associações que foram estabelecidas, fortalecendo diferentes padrões ou modelos adaptativos.
Mecanismos de regulação são os modos pelos quais os sujeitos dirigem, a si e ao exterior, formas de controle dos impulsos de prazer e agressividade. Esses mecanismos estão ligados à dinâmica da civilização que impõe, historicamente, o controle repressivo dos instintos humanos naturais: repressão externa que se fortalece na repressão interna que o aparelho mental introjeta. As reais necessidades deixam de ser satisfeitas e novas são criadas, como substitutivas daquelas que realmente possuímos. Não é necessário dizer o grau de insatisfação gerado por essas condições, onde a satisfação de nossas reais necessidades fica sempre postergada ou substituída, gerando agressão.
As relações de poder se desenvolvem com base na autoridade e são mantidas com a permanente luta pela existência, onde a satisfação das necessidades é modificada com o auxílio das instituições, iniciando-se na família e estendendo-se, posteriormente, ao trabalho, com o auxílio do conhecimento que se põe ao seu serviço.
No âmbito de relações de poder, pretendemos discutir as implicações possíveis da constatação de Adorno (1995, p.124) sobre a “perda da autoridade” e a conseqüente falta de compromisso para deter o que “é sádico, destrutivo e desagregador”, fazendo com que as pessoas não se sintam mais capazes de experienciar o compromisso como algo substancial para si mesmas. A perda da autoridade cede espaço à heteronomia, “um tornar-se dependente de mandamentos, de norma que não são assumidas pela razão própria do indivíduo.” (ibid., p.124). Assim, pudemos observar as relações de autoridade, mantidas, hierarquicamente, na família e no trabalho de garimpeiros e pescadores, buscando identificar como se dão as relações de poder e sua influência nas decorrentes tomadas de decisão que envolvem o destino dos indivíduos, nessas duas instituições.
A categoria ética e razão instrumental, tratando de padrões ético- morais, decorre também das duas primeiras, uma vez que eles são adquiridos nas relações sociais instituídas e desencadeiam-se pautados em uma avaliação dos princípios que orientam as ações práticas dos indivíduos, ainda que possam apresentar um conteúdo teórico-cognitivo em sua manifestação e explicação. Benjamin (1975, p.63-81) faz referência às formas como o aprendiz iria, aos poucos, apropriando-se do ofício, em sua relação com o mestre que dominava uma arte e a transmitia, em seus ensinamentos. Com a divisão do trabalho, essa relação foi rompida, e o operário não possui mais a capacidade de apropriar-se desse processo integralmente; ao contrário, aliena-se nele. Torna-se necessário frisar que Benjamin aponta para uma condição, na qual a aprendizagem de ofícios permitia ao mestre a transmissão do saber ao aprendiz e era, ao mesmo tempo, uma forma de comunicação onde a narrativa continha um cunho moral. Isso é o que se perde no modelo de divisão do trabalho, indo afetar “a capacidade de trocarmos pela palavra experiências vividas.” (Ibidem, p. 63).
Benjamin ressalta que o choque causado pela guerra, o ritmo imposto ao trabalho e à vida cotidiana têm impacto nas transformações observadas nas transmissões de experiências que tinham um propósito definido: “a transmissão de uma moral, de um ensinamento prático, da ilustração de algum provérbio ou de uma regra fundamental de existência.[...] Um conselho fiado no tecido da experiência vivida: é sabedoria.”(Ibidem, p. 66).
Em nosso estudo, especificamente, interessou-nos observar como essa transmissão de valores se dá nos dois grupos – garimpeiros e pescadores – observando como são eles fortalecidos ou enfraquecidos por meio das instituições trabalho e família.
Por último, nessa categoria, ainda serão observados os fins que buscam alcançar para si e com que meios visam atingi-los, considerando a preocupação de Freud, em “O mal-estar na cultura” (1992), em relacionar o estudo das instituições com o da natureza humana e do conflito do homem com a cultura e consigo mesmo, evidenciada no trecho seguinte:
“É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação – isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e as admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida” (p.
671).
Posição semelhante pode ser encontrada em Adorno (1995):
“Os meios – e a técnica é um conceito de meios dirigidos à auto conservação da espécie humana – são fetichizados – por que os fins – uma vida humana digna – encontram-se encobertos da consciência das pessoas” (p.132).
Desse modo, buscamos com essa categoria – padrões ético-morais – identificar, no interior dos grupos pesquisados, as finalidades que são buscadas ou priorizadas em suas atividades de trabalho e como essas últimas são relacionadas às suas vidas.
As relações afetivo–emocionais foram examinadas por se constituírem, segundo Adorno, em uma das principais mudanças observadas com o esclarecimento e o advento do sistema capitalista. Uma certa frieza acompanha o esclarecimento, penetra o modelo de ciência e o decorrente processo de trabalho, indo atingir, de forma indiscriminada, opressores e oprimidos, o que se impõe, de forma crescente, pelo controle: dos instintos, do uso dos sentidos, da percepção, do estabelecimento de relações e da manifestação das emoções. Adorno (1995) identifica, na articulação entre os dois aspectos (a falta de autoridade e compromisso, bem como a frieza), a condição
favorável que resultaria no “caráter manipulador” (p.129), uma espécie de “consciência
coisificada” (p.130, grifo do autor). Adorno chama a atenção para a carência, presente
nas atuais condições de vida, de se estabelecer relação libidinal com outras pessoas: “Elas são inteiramente frias e precisam negar também em seu íntimo a possibilidade do amor, recusando de antemão nas outras pessoas o seu amor antes que o mesmo se instale” (p.133).
A própria auto-preservação já impõe uma certa dose de sacrifícios e renúncias que acabam promovendo o surgimento de uma frieza ou indiferença, tanto para com a própria dor, como para com a alheia. Atualmente, condições adversas dilatam esse limiar ao sofrimento por estabelecer, em algumas situações, que o prazer em atingir algo advenha de sacrifícios desmedidos realizados e, até mesmo, imponha dor e sofrimento aos outros.
O papel da mulher foi observado, nessa categoria, pois envolve a noção, apontada por Adorno & Horkeimer (1985), de que o cristianismo transfigura, no casamento, “a hierarquia dos sexos e o jugo imposto ao caráter feminino pela ordenação masculina da propriedade” (p.102), enquanto a sociedade industrial afeta a família, quando esta é privada do caráter de célula da sociedade ao perder a sua condição de base da vida econômica do burguês. Deixa, assim, de servir de horizonte para os adolescentes, já que a autoridade do pai desaparece e, com ela, a resistência à sua autoridade. As filhas que experimentavam a servidão sentiam-se impulsionadas por isso à paixão, que representava, segundo o autor, a liberdade, embora essa não se realizasse, nem no casamento, nem em outro lugar. Além disso, com as possibilidades de trabalho que se abrem, fecham-se, ao mesmo tempo, as perspectivas de amor. Para
Adorno e Horkheimer (1985), “As pessoas assumem em face das outras aquela relação racional, calculadora” (p.182).
Adorno e Horkheimer (1985) chamam, ainda, a atenção para a dissociação entre o amor e o prazer, o que acaba por transformar o amor sublime em gozo ao alcance de todos (p.104). Interessou-nos verificar, nos grupos estudados, a percepção do papel ocupado pela mulher e a existência, ou não, de diferenças, nesse aspecto, entre os dois grupos (pescadores e garimpeiros) que possam estar associadas às mudanças processadas quer na estrutura familiar ou nas relações de trabalho.
Na categoria autonomia e heteronomia, foram tomadas as percepções que indicassem o modo pelo qual os sujeitos experimentam situações de acesso ou de restrição a condições que permitam alcançar sua emancipação econômica, intelectual e política. Essa categoria serviu como ponto de discussão do processo de educação, enquanto formação humana, a que estamos submetidos. Nela, evidenciou-se sua contradição: fundada na promessa da geração de condições humanas mais dignas para as pessoas, acaba por expressar-se pelo desenvolvimento de deformidade, impulsos destrutivos e uma essência mutilada.
Autonomia e heteronomia foram conceitos considerados, no estudo em tela, no interior do processo de formação educacional que se desenvolve tanto através das ofertas educacionais disponibilizadas aos sujeitos, no interior da Amazônia, quanto ao acesso que lhes é oportunizado pelas condições de vida que possuem e se desdobram na permanência e na qualidade dessa educação
Apresentação
O Capítulo 1 – MODERNIZAÇÃO DA AMAZÔNIA – tem um caráter mais teórico onde apresentamos a concepção de modernidade, dentro dos marcos referenciais da teoria crítica e da psicanálise, aqui adotados. Nele, será evidenciado todo o percurso realizado, na intenção de conhecer como se desenvolve a discussão da temática que embasa nosso estudo, passando pela região amazônica, onde a questão se apresenta para nós, até o detalhamento que permitiu o tratamento teórico- metodológico desenvolvido.
No Capítulo 2, intitulado ESCLARECIMENTO, esse movimento da razão será problematizado frente às questões que emergiram do contato com a realidade, levando-se em conta a influência da racionalização exercida na vida dos sujeitos. Na nossa busca em trilhar o caminho que grupos seguem rumo à modernização faremos um percurso que toma como ponto de partida a entrada nesta realidade pela via do conhecimento. O progresso como forma de realizar o “desencantamento” substituindo-o pela racionalidade que visa tornar a vida mais eficiente.
No terceiro capítulo, BARBÁRIE E CIVILIZAÇÃO, trataremos das conseqüências decorrentes dessa situação, exibindo os principais problemas enfrentados e os desvios tomados, no sentido de continuar vivendo. Aqui, o sinal de alerta é dado para chamar à atenção o choque causado à natureza e ao homem, em proporções não de um acidente particular, mas de catástrofe universal. Discute-se o progresso que recai em regressão. Ou seja, o recuso a formas de violência primitiva ou a primazia da razão evidenciados na consecução de objetivos humanos ou de fins materiais privilegiados nos sujeitos.
Seguindo a pista apontada pelos sujeitos, defrontamo-nos com o inesperado: o ‘acaso’. Impactos decorrentes de ações alheias às suas vidas, fazem com que estas mudem de direção, rumo a outras saídas. O ‘acaso’, como podem ser consideradas
ingenuamente as coincidências que fazem o mercúrio entrar em cena, também permitem ser percebidas como um indício da entrada da lógica do capital, e ainda que pareça longínqua, da globalização.
O Capítulo 4, ÉTICA E RAZÃO INSTRUMENTAL, situa o progresso colocado como a principal meta a ser atingida, e isso a qualquer preço, o que se observa é o desenvolvimento de uma racionalidade que prioriza os fins sem se importar com os meios – a chamada racionalidade instrumental. Guiados por ela, tanto pescadores como garimpeiros orientam suas ações, sem ter clareza quanto aos possíveis benefícios que tal atitude trará para as suas condições de vida. As alterações sociais e econômicas modificam as relações mantidas com base nesse novo modelo de exploração capitalista da região. A corrida do ouro, na região do Tapajós, e sua exploração com utilização do mercúrio são situações que afetam não apenas o organismo dos sujeitos; elas provocam um retrocesso em suas vidas.
Finalmente, no quinto e último capítulo, voltamos ao que poderia ser o ponto de partida. Diante da realidade, apresentada pelos sujeitos que participaram desse estudo, buscam-se as possibilidades de sua alteração. Possibilidades que sirvam como formas de resistência ao que se apresenta como impedimento para uma vida humana. Sob o título EDUCAÇÃO E AUTONOMIA retoma-se o debate, em função de um ideal de formação que, partindo do princípio iluminista de autonomia do “Sapere aude!”, ousar servir-se de sua razão, sem abrir mão da reflexão: venha ela incorporar fundamentos sólidos para o desenvolvimento de condições concretas de liberdade, como exercício para a felicidade humana.
As considerações finais são REFLEXÕES A PARTIR DA REALIDADE, que levam em conta a relação entre totalidade e subjetividade. Feitas a partir da crítica
da cultura, realizada pela teoria crítica e pela psicanálise, especificamente, as empreendidas por Adorno, Horkheimer, Benjamin, no caso da primeira, e Freud, no da segunda, essas reflexões são referidas à racionalidade atuante na vida dos sujeitos. Com base nela, desvelou-se o princípio da dominação, como imanente à noção de progresso que o esclarecimento assumiu, no qual a racionalização progride até ajustar-se às esferas cultural, econômica e política. Racionalização cujo poder avassalador do existente condena os sujeitos à impotência, embora esse poder seja uma potência deles extraída.
Nesse momento, torna-se necessário ouvi-los atentamente. Por isso, a importância de conhecer a história completa que cada um apresenta e que, por ironia, fica, no presente trabalho, numa seção denominada ANEXOS; ela é, sem dúvida, a mais rica de todas. Sob a sua luz, serão desenvolvidos todos os capítulos, ainda que se apresentem, aqui e ali, alguns trechos extraídos das falas, uma vez que a nossa intenção é promover, com os autores que fundamentaram nossas reflexões, um diálogo que nos ajude na compreensão daquilo que os sujeitos fazem emergir diante de nossos olhos: a realidade.
A não realização do esclarecimento como emancipação do sujeito não significa, entretanto, que ele não possa vir a se realizar. É apontando para as contradições que o processo civilizatório produz que encontramos as possibilidades de desvelamento da realidade, capazes de provocar o estranhamento, no interior do que parece natural: a irracionalidade a que se vê submetida a vida atual. Com base nos aportes da teoria crítica, de Theodor W. Adorno, Max Horkheimer e Walter Benjamin, bem como da psicanálise concebida por Sigmund Freud, colocamo-nos como propósito perceber a realidade que delimitamos para nosso estudo, buscando um diálogo entre as
narrativas dos sujeitos e as elaborações dos autores mencionados, sem que houvesse perspectiva de realização de síntese do que é irreconciliável, nas condições atuais.
A única certeza é de que qualquer falha em executar o que nos propusemos foi de nossa exclusiva responsabilidade.
CAPÍTULO 1