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Delmål 3 – Flere innovative næringsmiljøer

Já descrevemos o quadro marcado pela dispersão, o isolamento, o abandono, a carência, a ausência, a falta observada nas comunidades existentes, no interior da Amazônia. Lado a lado com essa situação, coexistem outras, acentuadamente contrastantes, embora ainda representem a exceção, dentro da densa floresta. São concentrações que surgem, nas principais capitais ou áreas de projetos, para exploração de riquezas minerais. Por esse motivo, tais projetos, representados por multinacionais que recebem, do governo brasileiro, concessão para a exploração e desenvolvimento da região onde venham se instalar, podem ser isentos de impostos. O que pode ser considerado, no mínimo, incoerente.

O que se instala, na verdade, em decorrência da entrada de grupos econômicos com interesses opostos àqueles apresentados pelos grupos que habitam a floresta, é o contato marcado por confrontos e conflitos, onde fica evidente a não aceitação pacífica das diferenças inicialmente apresentadas. De um lado, pessoas com pouco ou nenhum acesso à ilustração e à educação formal, inclusive com seu acesso propositadamente dificultado a essas, mas que mantêm, em sua relação com a natureza e com os outros homens, padrões e princípios já ausentes naqueles que habitam as grandes cidades. Ações pautadas em saberes apreendidos nessa relação que, ainda assentada na solidariedade entre os seus membros, permite gozar o privilégio de manter com a natureza uma relação de não-exploração e não-dominação, mas sim de respeito,

por perceberem-na como condição para manutenção da vida, o que faz o homem encará- la até como superior.

Por outro lado, uma violenta modificação é observada nessas formas de ser e perceber o mundo, com a entrada de grupos que visam à exploração econômica local. Com os representantes do capital, drásticas alterações tomam lugar, em função de possuírem eles objetivos distintos daqueles encontrados, nos grupos nativos da floresta. Tem início a exploração não apenas da natureza como também do próprio amazônida, que passa a ser visto, a partir de agora, como mão-de-obra desqualificada, pois embora possua conhecimento acerca da região, de seus segredos e mistérios, tais saberes são desvalorizados. Esses grupos se vêem reduzidos à condição de mão-de-obra barata, uma vez que são submetidos às leis de economia de mercado, ainda que as desconheçam.

É nesse momento que se transformam em escravos, o que afeta a visão de homem e de mundo que possuíam. São desvalorizados, olhados e tratados como seres inferiores, para que, assim, lhes seja extirpada toda a dignidade. Nada merecem, nada podem possuir, inclusive seus mais preciosos bens: valores, tradições, hábitos e costumes. Trata-se da própria perda de identidade, que passa a ser depreciada.

A competência para mediar tais conflitos tem sido atribuída às mais diversas instituições – governamentais, jurídicas, assistenciais, educacionais, religiosas – tendo sido uma constante, ao longo dos tempos, a constatação de que, segundo algumas linhas de análises, os grupos nativos vêm sendo percebidos como atrasados, primitivos, bárbaros e, por isso, precisando ser submetidos a processos de civilização que permitam seu desenvolvimento e o da região.

E em nome do progresso, o que se tem evidenciado é a sua dizimação ou extermínio – real ou simbólico. Não menos freqüentes são os planos para redimi-los,

por meio da educação, o que, de certa forma, tem-se constituído na mesma representação: a dos jesuítas. Até o momento, vivencia-se um massacre.

Hoje, mais de meio século após o primeiro contato com o europeu, o olhar lançado por esse último ainda se encontra presente e quase que inalterado, nos que olham o amazônida e suas formas de ser e perceber, como não correspondendo ao que deles esperam. E, novamente, o ‘des-cobrem’, mas de uma forma tal que, como no isolamento físico-geográfico nele marcado, dele se distanciam, agora, pelo isolamento psíquico e social, espiritual por excelência. Para romper tal isolamento, só uma via de acesso é encontrada: igualar-se aos grupos dominadores, aculturar-se.

No interior do espaço amazônico, a palavra “encantamento” se refere, normalmente, ao processo de apropriação do espírito por entidades mitológicas, poder que estaria presente em elementos da natureza; por meio dele, pode-se explicar atitudes incomuns de pessoas sob efeito desse domínio, exterior e superior a elas, o que geralmente ocorre quando há inobservância, desrespeito ou desobediência aos códigos morais, hábitos e costumes tradicionalmente adotados por uma determinada comunidade. Serve, portanto, como forma de controle da ação humana, devido à função de prescrição de padrões comportamentais, ali observada.

Weil (1979) considera:

“O enraizamento [...] a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana e uma das mais difíceis de definir. O ser humano tem uma raiz por sua participação ativa e natural na existência de uma coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro.” (weil, 1979, p.347).

A crença mítica indubitável entre os grupos nativos tradicionais, que vivem no interior da floresta, com clara influência da cultura indígena e amplamente difundida entre os habitantes da região, passa, atualmente, a ser considerada fruto da real

ignorância desses grupos e da total desproteção e desamparo que supostamente experimentam, ante a grandeza da selva.

Essa situação expõe um processo de transformação que toma lugar naquela região, onde concepções contraditórias, que caracterizavam diferentes modos de vida, e consideradas responsáveis pelo distanciamento dos grupos entre si, têm sido eliminadas, cada vez mais, fazendo-os aproximarem-se; o que resulta dessa aproximação, todavia, não representa uma interação baseada na aceitação recíproca de pontos de convergência e/ou divergência, situados em qualquer lado dos extremos. A tendência observada é a de uma adaptação dos grupos nativos a concepções que desmistificam e racionalizam a visão desses, o que representa uma significativa influência na adoção de alternativas que conduzem a essa outra direção – à racionalização.

O processo educacional que hoje se dá, de forma menos irregular, entre os amazônidas, embora ainda em condições deficientes, contribui de forma decisiva para que esse tipo de pensamento mágico venha sendo combatido e, paulatinamente, substituído. São inúmeras as ações, hoje existentes, mediante as quais as parcerias envolvendo instituições de ensino superior, tanto particulares quanto públicas, empresas e secretarias de educação municipais, buscando capacitar pessoal em programas de educação compensatória ou mesmo em nível superior, para atuar em diversos níveis de escolarização, na região. São exemplo dessas iniciativas os convênios firmados entre a Universidade Federal do Pará e a Secretaria Estadual de Educação, para execução do Projeto Gavião, que forma, em nível médio, professores da rede estadual de ensino. Atualmente, a UFPA atende, ainda, os professores municipais que atuam nos municípios do interior, por meio de convênios firmados com secretarias municipais, utilizando recursos do FUNDEF na qualificação dos docentes, em nível superior.

Outro fator relevante para a substituição daquele tipo de pensamento é a presença de forasteiros que para lá se dirigem com objetivo de exploração das riquezas naturais, com uma visão diferente daquela presente nos grupos nativos.

Bosi (2003) afirma que:

“Quando duas culturas se defrontam, não como predador e presa, mas como diferentes formas de existir, uma é para a outra como uma revelação. Mas esta experiência raramente acontece fora dos pólos submissão-dominínio. A cultura dominada perde os meios materiais de expressar sua originalidade.” (p.176).

Em uma ou outra relação – educacional ou cultural –, é possível que o processo que toma lugar modifique a crença anterior existente; mas, por ser algo arraigado no

processo de socialização local, é também possível que a convivência entre os diferentes pontos de vista seja resolvido pacificamente. Porém, pode ocorrer, em alguns casos, a desqualificação da crença, que passa a ser considerada explicação da própria condição de atraso a que se acham submetidos aqueles que a possuem, sendo tomada, ao mesmo tempo, como causa e conseqüência dessa condição, dependendo da conveniência de um ou outro argumento.

O que está em jogo é o processo de desenraizamento que, segundo Bosi (2003, p.176), representa a morte pela supressão da tradição e torna nativos em estrangeiros, na sua própria terra.

É a partir do ponto de vista do colonizador que tem sido compreendido o homem da Amazônia, em sua relação com a natureza. Uma visão que ressalta sua ignorância, seu medo, sua submissão, portanto, seu atraso. Adorno & Horkheimer (1985) usaram o termo esclarecimento para designar “o desencantamento do mundo”, referindo-se ao processo “pelo qual as pessoas libertam-se do medo de uma natureza desconhecida, à qual atribuem poderes ocultos para explicar seu desamparo em face dela.” (p.8).

“Não alimentamos dúvida nenhuma – e nisso reside nossa petitio principi – de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecido. Contudo, acreditamos ter reconhecido com a mesma clareza que o próprio conceito desse pensamento, tanto quanto as formas históricas concretas, as instituições da sociedade com as quais está entrelaçado, contém o germe para a regressão que hoje tem lugar por toda parte.” (Adorno & Horkheimer, 1985, p.13).

Para Adorno & Horkheimer (ibid.), esse é o procedimento pelo qual, ao longo da história, os homens se libertam das potências míticas da natureza, ou seja, o de construção da racionalização que prossegue na filosofia e na ciência, o qual, todavia, não está restrito à superação do mito, onde estaria situada sua origem; ele, hoje, atingiu a mitologização do próprio esclarecimento, que é encontrado no modelo positivo de ciência e que postula o conhecimento pela dominação da natureza. Esse é o resultado da assimilação do conhecimento e controle dos mecanismos naturais, culminando, na atualidade, na naturalização do homem totalmente civilizado. Desse modo, o esclarecimento assume o seu conteúdo crítico emancipador, que não cessa de apontar, pela reflexão, a passagem da atividade esclarecedora ao processo de civilização.

Essa passagem é engendrada nas formas históricas concretas, por meio de instituições sociais que irão constituir uma segunda natureza, como Lukács (1975) denominou o “mundo das convenções”, que é, artificialmente, criado pelo homem e que, abruptamente, se volta contra ele. Esse conceito de “segunda natureza” já estava presente, também, no idealismo de Hegel, para indicar que à moral, aos hábitos criados pelos homens, associa-se um elemento que se volta contra ele próprio.

O caminho tomado pelo esclarecimento dirige-se à racionalização crescente, que torna mais estreita a ligação entre saber e poder. O prazer que o conhecimento proporcionava pela busca da verdade como fim último é substituído por

uma nova essência: a técnica, o método, o procedimento. São os meios, enquanto instrumentos eficazes, que contam. A racionalidade que o conhecimento assume vai, assim, ajustar-se, de forma ideal, ao capitalismo, que, pela valorização do método e da técnica, descobre os procedimentos para melhor utilizar o trabalho alheio.

Para atingir tal inversão, foi preciso realizar uma transição do poder presente nas entidades e potências do conhecimento mítico – que passam a ser consideradas superstições –, que é característico de um pensamento primitivo, para o domínio da matéria submetida ao cálculo. O que permitirá a descoberta de particularidades desconhecidas, que passam a ser úteis à vida.

É nesse ponto de transição que se realizará a substituição dos modelos de projeção subjetiva na natureza. No mito, o antropomorfismo é o elemento básico dessa projeção no qual o

“[...] sobrenatural, o espírito e os demônios seriam as imagens especulares dos homens que se deixam amedrontar pelo natural. Todas as figuras míticas podem se reduzir, segundo o esclarecimento, ao mesmo denominador, a saber, o sujeito.” (ADORNO &

HORKHEIMER, 1985, p.22).

Assim, o homem projeta, na natureza externa, aquilo que ele recusa, em sua natureza interna. Essa unidade, o sujeito, representa a busca perseguida pela ciência, que transformará o heterogêneo em equivalente ou comparável, ao qual podem ser atribuídas grandezas abstratas, num processo de representação pelo qual o logos passará a ser o ponto de referência de todas as coisas.

“De agora em diante, o ser se resolve no logos – que, com o progresso da filosofia, se reduz a mônada, mero ponto de referência – e na massa de todas as coisas e criaturas exteriores a ele. Uma única distinção, a distinção entre a própria existência e a realidade, engolfa todas as outras distinções. Destituídas as distinções, o mundo é

submetido ao domínio dos homens.” (ADORNO & HORKHEIMER,

1985, p.23).

Vale a pena ressaltar que, em Freud, a projeção é um mecanismo de caráter normal, presente na superstição, na mitologia e no animismo.

“A projeção aparece sempre como uma defesa, como a atribuição ao outro – pessoa ou coisa – de qualidades, de sentimentos, de desejos, que o sujeito recusa ou desconhece em si. O exemplo do animismo é o que melhor demonstra que Freud não toma a projeção no sentido de uma simples assimilação do outro à própria pessoa. Com efeito, muitas vezes se explicaram as crenças animistas pela suposta incapacidade dos primitivos para conceberem a natureza de outra maneira que não segundo o modelo humano, do mesmo modo, a propósito da mitologia, diz-se freqüentemente que os antigos “projetavam” nas forças da natureza as qualidades e paixões humanas. Mas Freud – e esta é sua maior contribuição – insiste em que tal assimilação tem o seu princípio e o seu fim num

desconhecimento: os “demônios”, as “almas do outro mundo”,

encarnariam os maus desejos inconscientes”. (LAPLANCHE &

PONTALIS, 2001, p. 377, grifo dos autores).

De acordo com tal formulação, em Freud, o sujeito projeta não aquilo que não quer conhecer, mas aquilo que não quer ser; tanto que, ao lançá-lo ao mundo exterior, ele reconhece como existindo, mas fora dele, no outro. Se, na crença mítica, o homem projeta a sua superioridade na natureza, que é vista como dominadora, no esclarecimento, “o despertar do sujeito tem como preço o reconhecimento do poder

como princípio de todas as relações.” (ADORNO & HORKHEIMER, 1985, p. 24,

grifo nosso). Só que, agora, a dominação se projeta na razão, que transforma a natureza em objetividade, condição que só lhe permite ser conhecida quando se deixa dominar pela manipulação. Tal objetividade é alcançada pela unidade que confere identidade à natureza indiferenciada que iguala pensamento e realidade. É somente frente a essa indiferenciação que o pensamento se torna autônomo.